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Melancolia da terceira idade


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Em uma sociedade caracterizada por um certo sufocamento, em que muitas pessoas se sentem como flores colocadas como um vaso dentro de uma redoma em que o oxigênio está se esgotando, filmes como o paraguaio “As herdeiras” é muito bem-vindo. O foco central está em um casal de mulheres de terceira idade que vive em uma residência decadente.

A principal fonte de renda é a venda de objetos antigos, como móveis e louça. Tudo começa a desmoronar quando Chiquita (Margarita Irún) é presa acusada de fraude. É o momento de Chela, magnificamente interpretada por Ana Brun, premiada com Urso de Prata de Melhor Atriz em Berlim, brilhar.

Ela começa a trabalhar como taxista, sem ter carteira de habilitação, para amigas ricas, levando-as para jogos de cartas e clínicas médicas. Conhece assim a jovem Angy (a sedutora Ana Ivanova), com a qual, por exemplo, aprende a fumar. A sua sexualidade, até então limitada as paredes da velha casa, deseja alçar voos.

Mas o retorno da antiga companheira ameaça recolocar tudo no lugar. E o automóvel se torna um personagem. Chiquita quer vendê-lo: e isso representa o corte dos novos elos de Chela com o mundo. O conflito se instaura entre a antiga ordem, repleta de normas, e a nova, cujo destino é incerto.

A direção sóbria de Marcelo Martinessi acentua os dramas individuais. Não se trata de ter pena dos personagens, mas de buscar entender como eles funcionam dentro de uma sociedade que surge como em desintegração em que não há perspectivas de futuro. Sem regionalismo, a não ser pela trilha sonora, o filme alcança uma comovente universalidade em um panorama melancólico da chamada terceira idade.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

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