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Saúde

Descoberta de novas causas genéticas da infertilidade masculina pode levar a um melhor diagnóstico e tratamento


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A infertilidade afeta um em cada seis casais em todo o mundo, e o homem está implicado em cerca de metade desses casos. Apesar da importância conhecida de fatores genéticos no caso de o homem não produzir espermatozoides, apenas cerca de 25% desses casos podem ser explicados atualmente. Um estudo apresentado na conferência anual da Sociedade Europeia de Genética Humana em junho deste ano revelou novas causas genéticas potenciais. Esta descoberta ajudará a desenvolver melhores testes de diagnóstico para a infertilidade masculina.

Manon Oud, do Centro Médico da Universidade Radboud, de Nijmegen, Holanda, descreveu como ela e equipe realizaram o primeiro estudo de sequenciamento de exoma para investigar o papel de mutações de novo (alterações genéticas que não estão presentes no DNA dos pais de um indivíduo) na infertilidade masculina. Exoma é a sequência de DNA de genes que são traduzidos em proteínas, onde a maioria das mutações causadoras de doenças atualmente conhecidas está situada.

Essas mutações de novo são encontradas em todos os indivíduos e fazem parte da evolução normal do genoma. Elas não afetam nossa saúde. Mas, em alguns casos, têm um forte efeito sobre a função do gene e podem levar a doenças. Até agora, o papel delas na infertilidade masculina não havia sido estudado.

Os pesquisadores estudaram o DNA de 108 homens inférteis e também de seus pais. A comparação do DNA parental com o da prole permitiu a identificação das mutações de novo. Foram encontradas 22 em genes envolvidos na espermatogênese, nenhuma delas anteriormente conhecidas por causar infertilidade em humanos.

Ainda é muito cedo para dar a esses pacientes um diagnóstico definitivo, e mais estudos estão em andamento. Os pesquisadores esperam rastrear mais pacientes e seus pais, a fim de buscar padrões nos locais das novas mutações, e aprender mais sobre a função dos genes que são afetados por eles.

Os cientistas estão estudando o papel desses genes no material de biópsias de testículos de pacientes e realizando experimentos em moscas de frutas para ver se a ruptura desses genes causa infertilidade.

Os resultados ajudarão a estabelecer novos testes diagnósticos, que poderão fornecer ao paciente uma análise detalhada do motivo de sua infertilidade e permitir atendimento personalizado. Ao estabelecer a causa molecular da infertilidade, o risco de transmissão de infertilidade para outra geração pode ser previsto.

“A infertilidade não é algo que você normalmente herda de seus pais; eles claramente eram férteis. Mas com a introdução de tecnologias de reprodução assistida, está se tornando um distúrbio hereditário em alguns casos”, explicou Manon.

As mutações de novo que levam à infertilidade podem resultar de erros no DNA que ocorrem durante a produção de espermatozoides e óvulos dos pais, ou durante o desenvolvimento inicial do embrião. Embora pela sua própria natureza essas mutações espontâneas não possam ser previstas, em outros casos, os pacientes com uma apresentação altamente semelhante de uma doença muitas vezes têm mutações no mesmo gene. Assim, os pesquisadores esperam que existam mais homens inférteis no mundo com mutações no mesmo grupo de genes que o grupo de pacientes estudados por eles.

Os pesquisadores afirmam ter ficado surpresos ao encontrar tantas mutações de novo com um papel potencial na infertilidade masculina, dado o fato de que nos anos anteriores apenas alguns novos genes foram descobertos nessa condição. As pessoas ainda tendem a pensar que a falha em conceber, provavelmente, seja causada por um fator feminino. Eles disseram estar satisfeitos por terem contribuído para um campo pouco estudado de infertilidade masculina.

Técnica CRISPR-Cas9 é uma esperança para um futuro próximo

Para o especialista em ginecologia e obstetrícia, com certificado de atuação na área de reprodução assistida, e responsável técnico do Centro de Reprodução Humana do IPGOArnaldo Cambiaghi, este é um estudo importante, pois abre uma porta a mais para explicar a infertilidade por motivos desconhecidos.

Além disso, ele cita uma novidade com ares futuristas na área da Medicina que poderá ajudar em casos como este: “Uma palestra muito interessante apresentada no Congresso Europeu de Reprodução Humana ESHRE deste ano forneceu uma visão geral da tecnologia CRISPR-Cas9, um dos temas mais importantes para o futuro na medicina reprodutiva. Foi discutido como ela está sendo usada, de forma terapêutica, na modificação dos genes”.

O termo CRISPR, em tradução literal, significa conjunto de repetições palindrômicas curtas regularmente espaçadas. Sempre localizado perto dessas sequências de DNA está o gene que expressa a enzima Cas9. Essa enzima tem a capacidade de cortar precisamente o DNA. CRISPR-Cas9 é o nome dado para uma técnica de edição genética utilizada para modificar sequências de DNA.

Cambiaghi diz que o procedimento é promissor também para o tratamento e prevenção de problemas de saúde mais complexos, como câncer, doenças cardíacas, doenças mentais e infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV). “Esta técnica é capaz de corrigir um ou mais genes em qualquer célula viva e eliminar partes indesejadas dos genes que causam doenças e, se necessário, inserir novas sequências no local. Na medicina reprodutiva, células embrionárias podem ser modificadas para que a futura criança não tenha doenças específicas como fibrose cística, distrofia, propensão a diabetes e até à obesidade. Em resumo, ela tem o futuro potencial de ‘ajeitar’ tudo o que está ‘impreciso’ na célula. Entretanto, esta técnica envolve uma grande discussão bioética”.

Por isso, esse avanço tecnológico é de grande interesse na prevenção e tratamento de doenças humanas. Atualmente, a maioria dessas pesquisas sobre a edição do genoma é feita para entender doenças usando células e modelos animais. “As preocupações éticas surgem quando a tecnologia é usada para alterar os genomas humanos. As mudanças feitas nos genes em óvulos ou células de esperma (células germinativas) ou nos genes de um embrião podem ser passadas para futuras gerações. Com base em preocupações sobre ética e segurança, essas edições são atualmente ilegais em muitos países, inclusive aqui no Brasil”, finaliza.

*Arnaldo Schizzi Cambiaghi é responsável técnico do Centro de Reprodução Humana do IPGO, ginecologista obstetra com certificado em reprodução assistida. Membro-titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Laparoscópica, da European Society of Human Reproductive Medicine. Formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa casa de São Paulo e pós-graduado pela AAGL, Illinois, EUA em Advance Laparoscopic Surgery. Também é autor de diversos livros.