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Wilson Witzel: O que se sabe sobre operação da PF na residência oficial do governador do Rio de Janeiro

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ANTONIO CRUZ/AGÊNCIA BRASIL

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Segundo nota da PF, que não cita nome do governador, há indícios da existência de esquema de corrupção envolvendo ‘servidores da cúpula da gestão do sistema de saúde’

A Polícia Federal faz buscas na manhã desta terça-feira (26) no Palácio das Laranjeiras, residência oficial do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Por volta das 7h da manhã desta terça-feira (26), a TV Globo divulgou imagens aéreas de policiais federais e carros da PF na residência.

Em uma nota que não menciona o nome do governador, a Polícia Federal informou que deflagrou na manhã desta terça uma operação para apurar indícios de desvios de recursos públicos destinados à saúde pública no combate ao coronavírus. Foi batizada de Operação Placebo.

A PF diz que há indícios da existência de um esquema de corrupção envolvendo “servidores da cúpula da gestão do sistema de saúde” e uma organização contratada para instalar hospitais de campanha.

“Elementos de prova, obtidos durante investigações iniciadas no Rio de Janeiro pela Polícia Civil, pelo Ministério Público Estadual e pelo Ministério Público Federal naquele Estado foram compartilhados com a Procuradoria Geral da República no bojo de investigação em curso no Superior Tribunal de Justiça e apontam para a existência de um esquema de corrupção envolvendo uma organização social contratada para a instalação de hospitais de campanha e servidores da cúpula da gestão do sistema de saúde do Estado do Rio de Janeiro”, diz a nota.

De acordo com a imprensa local, a PF também esteve na residência anterior de Witzel (Grajaú), na residência de Edmar Santos, ex-secretário de Saúde (Botafogo), na residência de Gabriell Neves (Leblon), ex-subsecretário de Saúde de Witzel, e no escritório do Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde (Iabas), no centro.

Witzel diz que ‘houve vazamento’

Witzel negou qualquer irregularidade. “Não há absolutamente nenhuma participação ou autoria minha em nenhum tipo de irregularidade nas questões que envolvem as denúncias apresentadas pelo Ministério Público Federal”, disse, em nota divulgada pela assessoria de imprensa nesta terça-feira.

Sem citar nomes, disse que parlamentares que apoiam Bolsonaro divulgaram em redes sociais operação contra o governador do Rio, o que, segundo ele, demonstra que houve vazamento.

“Estranha-me e indigna-me sobremaneira o fato absolutamente claro de que deputados bolsonaristas tenham anunciado em redes sociais nos últimos dias uma operação da Polícia Federal direcionada a mim, o que demonstra limpidamente que houve vazamento, com a construção de uma narrativa que jamais se confirmará. A interferência anunciada pelo presidente da república está devidamente oficializada.”

A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), uma das principais aliadas do presidente Jair Bolsonaro no Congresso, disse na segunda-feira (25), em entrevista à Rádio Gaúcha, que a Polícia Federal estava prestes a deflagrar operações contra governadores.

“A gente já teve operações da Polícia Federal que estavam na agulha para sair, mas não saíam. E a gente deve ter nos próximos meses o que a gente vai chamar talvez de Covidão, ou de, não sei qual é o nome que eles vão dar, mas já tem alguns governadores sendo investigados pela Polícia Federal”, disse Zambelli.

Questionado sobre a operação, Bolsonaro respondeu “parabéns à Polícia Federal” e disse “fiquei sabendo agora”.

Quando jornalistas questionaram se Carla Zambelli soube antecipadamente da operação, Bolsonaro afirmou: “pergunta para ela.”

Secretário de saúde exonerado

Neste mês, em meio à crise gerada pelo coronavírus, Witzel exonerou o secretário estadual de saúde, Edmar Santos. Na ocasião, o governo do Rio argumentou que a exoneração foi motivada por “falhas na gestão de infraestrutura de campanha para atender as vítimas da covid-19”.

A exoneração, no dia 17 de maio, ocorreu dias depois de a PF deflagrar a Operação Favorito, etapa da Lava Jato no Rio que apura desvios em contratos na área da saúde envolvendo organizações sociais.

O objetivo da operação, segundo a PF, é “investigar grupo capitaneado por empresários que, por meio do pagamento de vantagens indevidas à Conselheiros do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, Deputados Estaduais e outros agentes públicos, vem há pelo menos 10 anos se destacando como um dos principais fornecedores de mão-de-obra terceirizada para o governo do Estado do Rio de Janeiro e órgãos a ele vinculados.”

A operação prendeu o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) Paulo Melo e o empresário Mário Peixoto.

No início de maio, o Ministério Público do Rio de Janeiro deflagrou a Operação Mercadores do Caos, para apurar crimes na compra sem licitação pelo governo do Rio de respiradores no âmbito do combate ao coronavírus.

Um dos presos na operação foi o ex-subsecretário da Saúde, Gabriell Neves, afastado após suspeitas de irregularidades nas compras emergenciais. Na ocasião, o MP disse que os investigados formaram “uma organização criminosa estruturada para obter vantagens em contratos emergenciais” na compra de ventiladores pulmonares.

Bolsonaro e a Polícia Federal

A Polícia Federal esteve no centro das atenções nas últimas semanas, depois de o ex-ministro Sergio Moro deixar o governo e acusar Bolsonaro de interferência na Polícia Federal.

Em reunião ministerial em 22 de abril, conforme vídeo divulgado, Bolsonaro diz: “Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações”. Em outro trecho, afirma: “Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui! E isso acabou. Eu não vou esperar f… a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira.”

O vídeo foi divulgado no âmbito do inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) que investiga se o presidente da República tentou interferir no trabalho da Polícia Federal.

Na mesma reunião, Bolsonaro chamou Witzel de “estrume” e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), de “bosta”.

Witzel, que apoiou Bolsonaro nas eleições de 2018, se elegeu como governador com discurso semelhante ao de Bolsonaro em relação à segurança pública. Ele passou, no entanto, a se distanciar do agora presidente e chegou a dizer que a resposta jurídica para Bolsonaro é o impeachment, ao comentar o compartilhamento por Bolsonaro de vídeo contra o Congresso.

(www.bbc.com )