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Conheça o Boi 777, criado a partir tecnologias que estimulam ganho de peso


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Você já ouviu falar do Boi 777? É um animal de corte criado a partir de técnicas que estimulam o seu ganho de peso, ajudando, assim, o produtor a aumentar a produtividade do seu rebanho.

O pacote tecnológico, que inclui técnicas de manejo, genética, alimentação e equipamentos, foi desenvolvido em uma unidade da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo no município de Colina.

O trabalho começou em 2007 e foi ganhando consistência pelas mãos dos zootecnistas Gustavo Rezende Siqueira e Flávio Resende.

As técnicas têm o objetivo de fazer com que o boi ganhe sete arrobas durante as suas três etapas de desenvolvimento: cria, recria e engorda. No final do processo, ele pode ganhar 21 arrobas, em um prazo de 2 anos.

“É como se fosse uma caixa de ferramentas. Cada hora, para você consertar uma coisa, você vai pegar uma chave de fenda. Outra hora precisa de uma marreta”, ilustra Siqueira, integrante da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) do governo paulista.

É importante lembrar que cada arroba corresponde a 15 quilos. E, no caso da criação de gado de corte, ela é sempre calculada sem o peso do sangue, do couro e das vísceras.

De um boi vivo, por exemplo, carne e osso equivalem de 50% a 56% do animal. Essa é chamada carcaça, o produto que o pecuarista negocia em arroba frigorífico.

Confira a seguir exemplos de uso das técnicas do Boi 777 em cada uma das 3 etapas de desenvolvimento.

Cria

A cria corresponde à fase que vai do nascimento até a desmama do bezerro. Em uma propriedade do município de Santa Vitória, em Minas Gerais, as técnicas voltadas para esta etapa têm foco na vaca, ou seja, na mãe do bezerro, o que, por si só, já representa uma grande mudança para o setor.

“Ao logo da história da pecuária, a vaca sempre foi deixada para um segundo ou terceiro plano. Se tem um pasto muito passado, muito ruim, quem vai para lá? A fêmea”, lembra Siqueira.

“E na verdade, hoje, a vaca ganha um status de prioridade em fazenda para quê? Para te dar um bom produto, para você ter uma boa resposta ao longo da vida produtiva daquele animal. Então a gente precisa começar bem”, acrescenta.

Por isso que a fazenda vem modernizando as suas técnicas de manejo, optando por trabalhar com a inseminação artificial no lugar do touro.

“Com a inseminação artificial, nós aumentamos a velocidade de ganho genético” afirma Marcelo Tonello, da Mafra Agropecuária.

Esse ganho genético corresponde a ganho de pesoconversão alimentar, que é quando o animal transforma o que come em carne de forma mais eficiente; qualidade da carcaça, que significa um produto mais macio e saboroso e precocidade.

Melhora na performance das fêmeas

Ultimamente, o mercado do boi gordo tem recompensado o bom trabalho na criação dos bezerros e das matrizes.

A busca por animais jovens para repor o rebanho deu a devida importância para essa categoria de animais. Nesse contexto, melhorar a performance das fêmeas se tornou ainda mais essencial, principalmente na primeira gestação.

“O que a gente está fazendo, para seguir aquela mesma ideia do macho, é que a gente quer acelerar ele, fazer um animal produtivo. E que ele chegue ao abate aos 24 meses. A novilha, eu quero que ela venha a parir aos 24 meses. É o que a gente chama de fazer a tal da precocinha”, afirma Siqueira.

Com 24 meses, era para a vaca estar com a primeira gestação. Mas, com as técnicas, ela pode alcançar, com essa mesma idade, a segunda gestação e estar com o bezerro no pé.

Para que a precocinha consiga fazer isso, ela precisa emprenhar pela primeira vez aos 14,16 meses. E estar com um peso aproximado de 280 quilos. Para atingir essa meta, a fazenda usa um hormônio permitido para antecipar o cio, além de muita comida no cocho.

“A base da nutrição é o pasto“, diz Siqueira. “Mas o cocho é um grande aliado que a gente tem para quê? Para conseguir fazer com que a gente alcance as metas. Você tem que estar atento ao que está acontecendo naquele ano e qual é o seu desafio daquele ano”.

Porém, o caminho para alcançar cada objetivo vai depender da condição climática, do gado e do resultado deste. “O produtor tem que estar com a cabeça aberta para entender que ele tem que pensar no desafio. E não numa receita travada”, ressalta Siqueira.

Recria

A recria, que prepara o gado para o último momento antes do abate, tem como principal desafio dar continuidade ao ganho de peso evitar o chamado “efeito sanfona”.

E, para que o boi tenha um ganho próximo das sete arrobas na recria, é preciso ter pasto de qualidade e suplementação, segundo o pecuarista Fernando Costa, que também é de Santa Vitória, em Minas.

Em qualquer fase da vida dos animais, a ração é sempre um complemento de proteína, energia, minerais e vitaminas. A quantidade de cada ingrediente e o peso total disponível no cocho variam de acordo com a idade e as metas do criador.

“É uma coisa diária. Todos os dias. O ano todo. Precisa ter o mesmo, a mesma sequência de trabalho. O interessante é que você dá continuidade a uma alimentação de qualidade. Substituindo o leite da vaca por uma dieta balanceada, para que ele tenha um ótimo ganho de peso.”

De um modo geral, a fase da recria pode ser considerada a adolescência do animal. E, como essa etapa começa justamente quando o bezerro é separado da vaca, o seu início merece uma atenção redobrada, pois há um estresse nessa separação, comenta o zootecnista da APTA, Flávio Dutra Resende.

Redução do tempo

A fase da recria é a etapa mais longa da criação de gado e isso não muda no Boi 777, apesar das técnicas conseguirem diminuir esse tempo.

“Enquanto no sistema tradicional vai durar dois anos, no sistema do Boi 777 dura um ano. Só que, para conseguir fazer essa recria em um ano, eu tenho que entender as características do pasto”, diz Dutra.

Geralmente, o início da recria coincide com os meses de maio, junho e julho, época em que chove menos nas principais regiões produtoras. Por isso, o cuidado com a pastagem também aparece como um item fundamental no conceito do Boi 777.

“Então você precisa dessa adubação, desse manejo mais afinado. Saímos do extensivo para o intensivo. Intensificamos um modelo de pasto, juntamente com a suplementação proteica, energética”, conta Dutra.

Engorda

Por fim, a engorda é a etapa responsável pelo acabamento da carcaça. O José Jacintho, do município de Colômbia, em São Paulo, é um dos criadores que trabalha nesta etapa. Em sua propriedade, ele chega a engordar cerca de 2 mil animais de uma vez só.

“O Boi 777 é um sistema totalmente integrado”, diz ele. Os animais vêm da recria e ficam em sua propriedade por cerca de 100 dias, dentro do chamado semiconfinamento, à base de pasto e ração.

“Se a chuva está boa, a gente precisa por menos ração. Começou a faltar um pouquinho de chuva, a gente entra com uma pouquinho mais de ração”, conta.

Para tirar um melhor proveito da área, Jacintho aumentou o número de piquetes de 16 para 44. Dessa forma, os animais entram em um sistema de rodízio, permanecendo em um piquete enquanto o capim está bom. E indo para outro quando a pastagem diminui.

Para isso, ele teve que investir em cercas, bebedouros, cochos e até com estrada que corta os piquetes e que funciona como a via para a distribuição de ração. Segundo o criador, gasto foi entre R$ 800 e R$ 1.200 por hectare.

Mas o investimento teve resultado. Há 10 anos atrás, os seus bois saíam com cerca de 19 arrobas e, hoje, saem, em média, com 21 arrobas.

“Essas duas arrobas são importantes, mas o grande diferencial é a quantidade de arroba que a gente produz por hectare. Aqui na fazenda a gente chega a fazer 90, 92 arrobas por hectare ao ano.

“A melhora nunca para. A tecnologia sempre está chegando, então, se a gente não for investindo um pouquinho todo ano, a gente fica para trás”, comenta.

O cálculo dos pecuaristas que estão no Boi 777 é feito sempre por hectare e não por animal, pois isso ajuda o criador a fechar as contas no seu balanço anual de custos e lucros.

G1.globo.com