Uso excessivo de smartphones, digitação repetitiva e falta de pausas podem favorecer dores, inflamações e formigamentos; especialista explica os sinais de alerta e como proteger as mãos
Acordar e já pegar o celular virou parte da rotina de milhões de brasileiros. Entre mensagens, redes sociais, compromissos e trabalho, o aparelho acompanha praticamente todos os momentos do dia. A influenciadora Virginia Fonseca, que já comentou sobre o hábito de acordar com o celular na mão, chama atenção para um comportamento cada vez mais comum, especialmente entre pessoas que dependem das plataformas digitais para trabalhar.
Embora pareça inofensivo, passar horas segurando o smartphone, digitando mensagens e movimentando repetidamente os polegares pode sobrecarregar músculos e tendões. O problema não se restringe aos influenciadores digitais. Profissionais em home office, gamers e jovens que passam grande parte do dia conectados também podem apresentar dores nas mãos e nos punhos.
Segundo o Dr. André Pires, médico ortopedista especialista em Cirurgia da Mão e do Punho, com atuação em Recife (PE), o risco está principalmente na combinação entre movimentos repetitivos, posições inadequadas e ausência de pausas ao longo do dia.
“Muitas pessoas ignoram os primeiros sinais, achando que o formigamento noturno ou um incômodo leve no polegar vai passar sozinho. No entanto, a repetição contínua dos movimentos inflama os tendões e comprime os nervos. Quanto mais cedo o diagnóstico for feito, maiores são as chances de um tratamento bem-sucedido sem a necessidade de intervenções cirúrgicas”, alerta o médico.
Entre as condições que merecem atenção está a tenossinovite de De Quervain, caracterizada pela irritação dos tendões localizados na região do polegar. O problema pode provocar dor ao digitar, segurar o celular, abrir potes ou realizar movimentos simples do cotidiano. Outra condição é a síndrome do túnel do carpo, causada pela compressão do nervo mediano no punho, que pode provocar dormência, formigamento e perda de força. Embora o uso do celular possa agravar sintomas, a síndrome do túnel do carpo possui diferentes fatores de risco e não deve ser atribuída exclusivamente às telas.
O especialista explica que os sintomas nem sempre aparecem durante o uso do aparelho. Em algumas pessoas, o desconforto surge à noite ou ao acordar, enquanto outras começam a perceber dificuldade para segurar objetos, sensação de choque nos dedos ou dor persistente na base do polegar.
5 dicas para evitar dores nas mãos causadas pelo uso excessivo do celular
1. Faça pausas ao longo do dia
Passar horas respondendo mensagens ou navegando nas redes sociais sem interrupções aumenta a exposição das mãos a movimentos repetitivos. A recomendação é intercalar os períodos de uso com pequenas pausas, permitindo que músculos e tendões descansem. Para quem trabalha diretamente com o celular, vale organizar a rotina para alternar tarefas digitais com atividades que não exijam digitação constante.
2. Evite digitar apenas com os polegares
Segurar o aparelho com as duas mãos e utilizar os polegares repetidamente pode provocar desconforto, principalmente durante longos períodos de digitação. Sempre que possível, uma alternativa é apoiar o celular com uma mão e utilizar o indicador da outra para escrever. Recursos como mensagens de voz e digitação por comando de voz também ajudam a reduzir a repetição dos movimentos.
3. Preste atenção à posição dos punhos
Utilizar o celular com os punhos excessivamente dobrados pode aumentar o desconforto durante o uso prolongado. O ideal é buscar uma posição confortável, mantendo os punhos próximos do alinhamento natural e evitando sustentar o aparelho por muito tempo na mesma posição. No trabalho com computadores, a altura do teclado, do mouse e da cadeira também merece atenção.
4. Não ignore formigamentos e perda de força
Dormência nos dedos, sensação de choque, dor na base do polegar e dificuldade para segurar objetos não devem ser considerados consequências normais de uma rotina conectada. Quando esses sintomas persistem, se repetem ou interferem nas atividades diárias, é importante procurar avaliação médica para identificar a causa e evitar o agravamento do problema.
5. Alterne atividades e reduza o tempo de uso contínuo
A prevenção também depende da maneira como o celular é incorporado à rotina. Evitar longas sessões de digitação, mudar a posição das mãos e distribuir as atividades ao longo do dia são medidas que podem diminuir a sobrecarga. Alongamentos suaves podem ajudar no conforto, desde que não provoquem dor e não substituam a avaliação profissional quando houver sintomas.
Quando a cirurgia pode ser necessária?
Na maioria dos casos, o tratamento começa com medidas conservadoras, como mudanças nas atividades, uso de órteses quando indicado, reabilitação e medicamentos ou infiltrações conforme o diagnóstico. Entretanto, situações persistentes ou com comprometimento importante dos nervos e tendões podem exigir procedimentos cirúrgicos.
Com formação complementar na Espanha, Suíça e Finlândia, o Dr. André Pires destaca os avanços das técnicas minimamente invasivas utilizadas em determinadas condições da mão e do punho, incluindo procedimentos por pequenas incisões e artroscopia de punho.
“Essas técnicas reduzem o trauma nos tecidos, provocam menos dor no pós-operatório e permitem que o paciente retorne às suas atividades cotidianas e profissionais em um tempo significativamente menor”, pontua o especialista.
Para o médico, o principal alerta é que o uso do celular não precisa ser abandonado, mas deve ser acompanhado de cuidados que respeitem os limites do corpo. Afinal, em uma rotina em que o smartphone está presente desde o momento de acordar até a hora de dormir, reconhecer os primeiros sinais de sobrecarga pode fazer a diferença para a saúde das mãos.
Sobre o especialista
O Dr. André Pires é médico ortopedista especialista em Cirurgia da Mão e do Punho, com atuação em Recife (PE). Realizou residência médica em Cirurgia da Mão no Hospital de Clínicas da Unicamp e complementou sua formação com treinamentos na Espanha, Suíça e Finlândia. É membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão (SBCM), da American Society for Surgery of the Hand (ASSH) e da International Wrist Arthroscopy Society (IWAS).
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