No Agosto Laranja, especialistas explicam por que controlar surtos já não é o único objetivo do tratamento e como novas estratégias buscam preservar a reserva neurológica dos pacientes
Ter menos surtos não significa necessariamente que a Esclerose Múltipla esteja totalmente controlada. A doença pode continuar causando um acúmulo gradual de incapacidade mesmo na ausência de novas recaídas ou de sinais tradicionais de atividade inflamatória, fenômeno conhecido como Progressão Independente da Atividade de Surto (PIRA). É justamente contra essa progressão silenciosa que a neurologia busca novas respostas, em um cenário que ganha destaque durante o Agosto Laranja, mês de conscientização sobre a Esclerose Múltipla.
Nas últimas décadas, a evolução do tratamento permitiu um controle cada vez mais eficaz dos surtos e da atividade inflamatória. Segundo a Dra. Lis Campos, integrante do Departamento Científico de Neuroimunologia da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), a consolidação das terapias anti-CD20 trouxe evidências importantes sobre a eficácia e a segurança do tratamento de longo prazo e reforçou a importância da intervenção precoce com terapias de alta eficácia em pacientes selecionados.
O que mudou no tratamento da Esclerose Múltipla:
- Controle da inflamação: as terapias anti-CD20 se consolidaram como opções de alta eficácia, com evidências de segurança e eficácia sustentadas no longo prazo;
- Tratamento precoce: estudos reforçam a existência de uma janela terapêutica inicial, em que a intervenção pode contribuir para reduzir o acúmulo de incapacidade e a perda de volume cerebral;
- Um novo alvo terapêutico: os inibidores da Tirosina Quinase de Bruton (BTK) representam uma nova fronteira de pesquisa, com potencial de atuação sobre mecanismos relacionados à neuroinflamação;
- Além dos surtos: a PIRA mostra que a incapacidade pode continuar se acumulando mesmo quando a atividade inflamatória tradicional parece controlada;
- Preservação neurológica: o objetivo do tratamento passa a incluir não apenas a redução de surtos e novas lesões, mas também a preservação da reserva neurológica ao longo da vida.
"Hoje existe evidência muito consistente de que há uma janela terapêutica precoce na esclerose múltipla. Parte do dano inflamatório inicial gera perda axonal irreversível e nem sempre pode ser recuperada posteriormente", destaca a Dra. Lis. Enquanto as terapias anti-CD20 representam uma estratégia já consolidada, os inibidores de BTK ampliam as perspectivas para o futuro.
De acordo com a Dra. Ana Claudia Piccolo, também integrante do Departamento Científico de Neuroimunologia da ABN, a nova classe atua sobre mecanismos envolvidos na ativação das células B e em processos de neuroinflamação no sistema nervoso central. O interesse está principalmente no potencial dessas terapias diante da PIRA, especialmente entre pacientes que apresentam sinais precoces de progressão mesmo quando não há novas manifestações inflamatórias.
"Os inibidores de BTK podem se tornar especialmente relevantes para pacientes que apresentam sinais precoces de progressão silenciosa, mesmo quando a atividade inflamatória tradicional parece controlada", explica a Dra. Ana Claudia.
A evolução do tratamento representa, assim, uma mudança de paradigma na Esclerose Múltipla. Se antes o sucesso terapêutico era avaliado principalmente pela ausência de surtos e de novas lesões na ressonância magnética, hoje o desafio é mais amplo: impedir ou retardar o acúmulo de incapacidade e preservar as funções neurológicas ao longo dos anos. Para isso, o diagnóstico precoce, o acompanhamento especializado e a escolha individualizada da estratégia terapêutica ganham cada vez mais importância.
Sobre a ABN: A Academia Brasileira de Neurologia é a entidade representativa dos neurologistas brasileiros, fomentando a pesquisa e garantindo as melhores práticas clínicas para a saúde cerebral da população.
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