
Em meio à instabilidade econômica, mudanças no mercado de trabalho e pressão por resultados, especialistas afirmam que investir em gestão de pessoas deixou de ser uma pauta de recursos humanos para se tornar uma estratégia de sobrevivência dos negócios
O baixo engajamento dos trabalhadores custou à economia global aproximadamente US$ 10 trilhões em perda de produtividade, o equivalente a cerca de 9% do PIB mundial, segundo o relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup. O levantamento aponta ainda que apenas 20% dos profissionais em todo o mundo estavam engajados no trabalho. Pesquisas da organização também indicam que os gestores respondem por aproximadamente 70% da variação do engajamento das equipes.
Os números ganham relevância em um momento em que empresas convivem com um ambiente de negócios cada vez mais instável, marcado por incerteza econômica, mudanças nas relações de trabalho, escassez de mão de obra qualificada e pressão crescente por resultados. Nesse contexto, especialistas alertam que uma das respostas mais comuns das organizações é concentrar esforços apenas em cortes de custos e eficiência operacional, mas que isso pode comprometer justamente o fator mais determinante para a produtividade: as pessoas.
O cenário brasileiro reforça essa preocupação. Em 2025, a Previdência Social concedeu mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, número 15,66% superior ao registrado no ano anterior. Paralelamente, um estudo liderado pela Organização Mundial da Saúde indica que, para cada US$ 1 investido na ampliação do tratamento de depressão e ansiedade, há um retorno estimado de US$ 4 em melhoria da saúde e da capacidade para o trabalho. Para especialistas, esses indicadores evidenciam que investir em liderança, comunicação e desenvolvimento das equipes deixou de ser uma ação voltada exclusivamente ao bem-estar e passou a representar uma decisão estratégica para reduzir perdas, reter talentos e aumentar a capacidade de adaptação das empresas.
Na avaliação de Daniele Matos, CEO da RHLovers, muitas organizações ainda enxergam a gestão de pessoas como uma prioridade apenas em períodos de estabilidade, quando, na prática, é justamente durante momentos de incerteza que ela exerce maior influência sobre os resultados. "Em cenários desafiadores, é natural que a liderança volte sua atenção para indicadores financeiros e eficiência operacional. O problema é quando isso acontece à custa das pessoas. Empresas não superam crises apenas com processos; elas dependem da capacidade das equipes de executar, inovar e responder rapidamente às mudanças. Quando o colaborador perde confiança na liderança ou deixa de compreender a estratégia do negócio, a produtividade cai antes mesmo de os indicadores mostrarem esse movimento", afirma.
Para a executiva, outro erro recorrente é acreditar que a liderança precisa transmitir todas as respostas em momentos de instabilidade. "O colaborador não espera que o gestor tenha controle absoluto sobre o cenário. O que ele espera é clareza sobre prioridades, coerência nas decisões e transparência na comunicação. Líderes que explicam o contexto, reconhecem os desafios e mantêm um diálogo constante constroem equipes mais engajadas, colaborativas e preparadas para enfrentar mudanças. A confiança se constrói muito mais pela forma como a liderança conduz a incerteza do que pela promessa de estabilidade."
Na avaliação de Daniele, em cenários assim, o RH não pode se limitar a administrar os efeitos da crise; precisa ajudar a liderança a antecipar os riscos humanos que logo aparecerão nos indicadores do negócio. Na prática, especialistas defendem que algumas medidas podem ser adotadas por empresas de qualquer porte para reduzir os impactos da instabilidade sobre as equipes. Entre elas estão comunicar de forma transparente os rumos do negócio, estabelecer prioridades claras para evitar sobrecarga, capacitar lideranças para oferecer feedbacks frequentes, acompanhar indicadores como turnover, absenteísmo e clima organizacional e criar espaços permanentes de escuta dos colaboradores.
Mais do que iniciativas voltadas ao bem-estar, essas práticas têm impacto direto sobre a produtividade, a retenção de talentos e a capacidade de inovação. Em um mercado marcado por mudanças constantes, empresas que colocam as pessoas no centro da estratégia tendem a responder com mais rapidez às crises e a construir vantagens competitivas mais difíceis de serem copiadas do que qualquer tecnologia ou modelo de gestão. Para Daniele Matos, autoconhecimento e capacidade de adaptação deixaram de ser atributos exclusivamente individuais e se tornaram competências essenciais para a sustentabilidade dos negócios.
Daniele Matos é empresária e especialista em liderança e desenvolvimento humano. Fundadora e CEO da RHLovers, escola voltada à formação de profissionais e líderes de Recursos Humanos, ela construiu sua trajetória auxiliando executivos e organizações a desenvolverem consciência, posicionamento e capacidade de decisão em ambientes de alta complexidade. Integrante do elenco do novo doc-reality da Band, Daniele afirma que a experiência de deixar o papel de mentora para também ser observada, questionada e confrontada com os próprios limites ampliou sua visão sobre liderança.

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