Consumida há milhares de anos na Ásia, Europa, África e América Latina, a proteína asinina integra tradições culturais, sistemas alimentares e cadeias econômicas que permanecem ativas até os dias atuais.
Poucos animais acompanharam tão profundamente a trajetória da humanidade quanto o jumento. Presente nas rotas comerciais da Antiguidade, nas campanhas militares, no transporte de pessoas, água, alimentos e minerais, no preparo agrícola do solo e, ainda hoje, no cotidiano de populações da África e, até poucas décadas atrás, do semiárido brasileiro, o Equus asinus atravessou milênios como símbolo de resistência, adaptação e sobrevivência. Menos conhecida, porém, é a história do consumo de sua proteína e derivados, prática que acompanha diferentes civilizações desde os primeiros processos de domesticação animal.
Domesticado há cerca de sete mil anos no nordeste da África, o jumento rapidamente se espalhou pelo Oriente Médio e pela Ásia. Na China, consolidou-se uma das tradições mais antigas e economicamente relevantes ligadas à carne asinina. Desde as dinastias imperiais, o produto passou de alimento popular a iguaria valorizada, especialmente nas províncias do norte.
O famoso provérbio chinês “Carne de dragão no céu, carne de jumento na terra” revela o prestígio gastronômico alcançado ao longo dos séculos. Atualmente, um dos pratos mais populares no norte da China é o Donkey Burger (Lürou Huoshao), sanduíche tradicional preparado com carne asinina cozida lentamente e servido em pão crocante e também utilizado como proteína valiosa na paixão nacional do prato chamado "hotpot ".
Paralelamente, desenvolveu-se a produção do ejião, uma gelatina medicinal extraída do colágeno da pele do animal e utilizada há milhares de anos pela medicina tradicional chinesa. Essa cadeia integrada, que aproveita carne, couro, leite e derivados, ajudou a transformar o jumento em um ativo econômico estratégico para o mercado asiático contemporâneo.
Nas regiões mediterrâneas da Europa, as tradições culinárias envolvendo carne de jumento, especialmente na Itália, França e Península Ibérica, foram preservadas. Pratos históricos, como o Stracotto d’Asino, o Ragù d’Asino e o Stufato d’Asino, no norte da Itália, além de embutidos artesanais franceses e belgas, como o Saucisson d’Âne, atravessaram gerações e mantiveram viva essa cultura alimentar. Em períodos de escassez, como durante as Guerras Napoleônicas, a carne de equídeos tornou-se importante fonte proteica para populações urbanas e tropas militares, levando governos europeus a regulamentar o abate e a comercialização no século XIX.
Na América Latina, o consumo também possui registros históricos relevantes. No México, o tradicional chito - carne asinina salgada, curada e seca - é comercializado há décadas por vendedores ambulantes. No Peru, Bolívia e Colômbia, a carne de jumento foi amplamente utilizada na produção de embutidos populares devido ao baixo teor de gordura e ao custo mais acessível. Em algumas regiões bolivianas, chegou a substituir o charque bovino e de lhama em períodos de maior pressão econômica.
O consumo tradicional também está presente em países da Ásia Central, como Cazaquistão e Quirguistão, além do Vietnã, sul da Nigéria e Burkina Faso. Mais recentemente, na Argentina, um projeto de fornecimento da proteína asinina em cadeias alternativas de consumo virou notícia em todo o país.
No século XXI, a demanda internacional voltou a crescer impulsionada principalmente pelo mercado asiático. Com o avanço da urbanização chinesa, a mecanização agrícola e a priorização da produção de alimentos vegetais em um território com limitada disponibilidade de terras agricultáveis, o rebanho asinino chinês sofreu forte redução. Diante desse cenário, países da África, Ásia Central e América Latina passaram a integrar cadeias globais de exportação de carne, couro, colágeno e derivados asininos.
O Brasil ocupa posição relevante nesse contexto. Líder mundial na produção de diversas proteínas animais e detentor de um dos mais reconhecidos sistemas de inspeção sanitária do mundo, o país possui vasta área semiárida no Nordeste, especialmente no bioma Caatinga, onde os asininos se adaptaram de forma extraordinária desde o período colonial. Mesmo diante de décadas de abandono e substituição por veículos motorizados, o rebanho permaneceu numeroso e resiliente.
O Brasil possui legislação específica para o abate de equídeos, desde 1952, supervisionada pelo Ministério da Agricultura e regulamentada pelo RIISPOA (Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal), com rigorosos critérios de inspeção, rastreabilidade e bem-estar animal.
Mais do que um debate ideológico ou econômico, a história da proteína de jumento revela como cultura, religião, ciência e mercado moldam hábitos alimentares ao longo do tempo. O animal, que durante séculos carregou mercadorias e ajudou a construir civilizações, segue, ainda hoje, inserido em cadeias globais que conectam tradição, nutrição, saúde, indústria e comércio internacional.
Por Alex Bastos, zootecnista e administrador agropecuário.


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