Por Vitor Ozaki, CEO da Picsel e professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP)*
O seguro agrícola deixou de ser uma cobertura acessória para se tornar uma infraestrutura essencial de resiliência do agronegócio. A safra 2026/27 começa sob uma pressão global intensa, marcada por instabilidade geopolítica, petróleo em alta, custos de produção pressionados, volatilidade nos preços das commodities e um clima cada vez mais extremo. Nesse contexto, o desafio dos grandes produtores de alimentos já não é apenas preservar a capacidade de produção, mas proteger margem, liquidez e caixa em um ambiente significativamente mais duro e imprevisível. O risco deixou de ser pontual e passou a ser estrutural, exigindo do setor uma resposta igualmente estrutural.
Os principais mercados agrícolas do mundo já compreenderam essa mudança e vêm reforçando seus mecanismos de proteção. Nos Estados Unidos, a safra 2025 operou com cerca de R$ 1,1 trilhão em valor segurado, montante equivalente a quase 80% do valor bruto da produção agropecuária brasileira, além de R$ 61,9 bilhões em subvenção ao prêmio e aproximadamente 227 milhões de hectares cobertos. A escala desses números mostra que o seguro agrícola é tratado como um pilar da estabilidade econômica do setor, e não como uma despesa complementar. Na China, a lógica é semelhante: o seguro agrícola avançou para algo próximo de R$ 110 bilhões em prêmios na base mais recente disponível, com subvenção ao redor de R$ 43 bilhões, mantendo uma trajetória consistente de expansão da proteção rural. Na Índia, o principal programa do setor já alcança cerca de 25 milhões de agricultores segurados, enquanto o país amplia soluções de seguros paramétricos e outros instrumentos voltados à resiliência. Em comum, esses mercados entendem que proteger a produção é proteger também a estabilidade financeira e a segurança alimentar.
O Brasil, no entanto, caminha em sentido oposto, e esse movimento deveria preocupar muito mais do que preocupa hoje. Em razão do corte no orçamento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), o mercado de seguro rural recuou 8,8% em 2025, segundo a CNseg, e a projeção para 2026 já foi revisada para uma nova queda de 3,9%. O dado mais grave, porém, está na retração da área segurada, que saiu de 14 milhões de hectares em 2021 para apenas 3,2 milhões em 2025 — uma redução de quase 80%. Trata-se de uma contração expressiva justamente no momento em que o risco climático se intensifica e o financiamento privado ganha relevância para sustentar a atividade.
Essa redução não deve ser lida apenas como um indicador setorial. Ela revela uma fragilidade crescente da estrutura financeira do agro brasileiro. Menor cobertura significa maior exposição a perdas, aumento do risco de crédito, encarecimento do capital e redução da previsibilidade financeira das operações. Em um setor diretamente impactado por clima, câmbio, preços internacionais e custo de insumos, reduzir proteção em um cenário de maior volatilidade equivale a ampliar a vulnerabilidade de toda a cadeia produtiva.
É por isso que o seguro agrícola precisa ser compreendido como uma agenda estratégica para a próxima etapa do agronegócio brasileiro. A integração entre inteligência de risco, dados, monitoramento satelital, modelagem climática e soluções securitárias mais aderentes à realidade do campo deixou de ser tendência para se tornar necessidade. Em um ambiente global mais instável, proteger a safra significa proteger a capacidade de investimento, a relação com o crédito, a continuidade da operação e a sustentabilidade financeira do negócio. Mais do que nunca, a proteção da produção é também a proteção da competitividade do agro brasileiro.
*PhD em Economia e referência no setor agro, Vitor foi diretor do Ministério da Agricultura e pioneiro no Brasil ao abordar a gestão de riscos agrícolas. Com uma carreira consolidada, seu trabalho influencia políticas públicas e estratégias para o desenvolvimento sustentável do setor.


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