Troca de figurinhas estimula conversa, capacidade de negociação, tolerância à frustração e conexões reais em tempos de relações cada vez mais digitais

Em toda Copa do Mundo, uma cena se repete: crianças, adolescentes e adultos reunidos em shoppings, escolas, empresas e até grupos de WhatsApp tentando completar o famoso álbum de figurinhas.

Além de entreter, o fenômeno revela algo muito mais profundo sobre comportamento humano e conexão social. Segundo o psicólogo Filipe Colombini, especialista em Acompanhamento Terapêutico (AT), a troca de figurinhas funciona como um poderoso mediador espontâneo de socialização, especialmente importante em uma geração marcada pelo excesso de telas, isolamento e dificuldades crescentes de interação presencial.

“Em um mundo em que muitos têm dificuldade para iniciar uma conversa presencialmente, a figurinha cria uma ponte social automática. Ela oferece um motivo legítimo para as pessoas se aproximarem”, explica.

Perguntas aparentemente simples como “Tem repetida?”, “Qual falta pra você?” ou “Troca comigo?” ativam uma série de habilidades emocionais, cognitivas e sociais ao mesmo tempo: comunicação, negociação, escuta, flexibilidade, organização, tolerância à frustração e construção de vínculo.

Para Colombini, um dos aspectos mais interessantes do álbum é que o foco da interação não está diretamente na pessoa, mas na atividade compartilhada, o que reduz a pressão social e torna o contato mais confortável e previsível.

“Para muitas pessoas, especialmente crianças com TEA, indivíduos com ansiedade social ou dificuldades de repertório social, interações livres podem ser extremamente desgastantes. A troca de figurinhas cria uma estrutura. Existe começo, meio e fim. Isso diminui a ansiedade e facilita o contato humano”, afirma o psicólogo.

O especialista destaca ainda que o fenômeno funciona quase como um “treino social natural”, acontecendo de forma leve, espontânea e prazerosa.

“É um exercício riquíssimo de convivência. As pessoas aprendem a esperar, negociar, perder, ganhar, argumentar, lidar com frustração e perceber o outro. Tudo isso brincando”, diz.

“Poucas atividades hoje conseguem reunir diferentes gerações em torno de uma experiência coletiva tão simples e tão potente emocionalmente. O álbum acaba criando memória afetiva e conexão real”, completa o psicólogo.

Na visão de Colombini, experiências culturais como a febre das figurinhas revelam algo importante sobre saúde emocional: as pessoas continuam precisando de espaços espontâneos de pertencimento e interação.

Mais sobre Filipe Colombini: psicólogo, fundador e CEO da Equipe AT, empresa com foco em Acompanhamento Terapêutico (AT) e atendimento fora do consultório, que atua em São Paulo (SP) desde 2012. Especialista em orientação parental e atendimento de crianças, jovens e adultos. Especialista em Clínica Analítico-Comportamental. Mestre em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Professor do Curso de Acompanhamento Terapêutico do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas – Instituto de Psiquiatria Hospital das Clínicas (GREA-IPq-HCFMUSP). Professor e Coordenador acadêmico do Aprimoramento em AT da Equipe AT. Formação em Psicoterapia Baseada em Evidências, Acompanhamento Terapêutico, Terapia Infantil, Desenvolvimento Atípico e Abuso de Substâncias. 


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