
Especialista alerta que para mulheres na menopausa, emagrecer sem estratégia pode significar perder músculo, força e autonomia
O emagrecimento virou pauta econômica, tanto que redes de fast-food adaptaram cardápios, a indústria de alimentos lançou versões hiperproteicas de produtos tradicionais e companhias aéreas norte-americanas projetam economizar cerca de 580 milhões de dólares por ano em combustível porque os passageiros estão mais leves. O fenômeno tem nome: canetas emagrecedoras.
De acordo com pesquisas, uma em cada oito pessoas nos Estados Unidos já utiliza essas medicações. A versão oral da semaglutida foi aprovada pelo FDA em dezembro, ampliando ainda mais o alcance da terapia. A transformação é global, mas para a mulher entre 40 e 60 anos, existe uma variável pouco discutida nessa equação, que é a menopausa.
Segundo a médica Fabiane Berta, pesquisadora em saúde feminina, fundadora do movimento MYPAUSA, que reúne mais de 600 médicos, e investigadora principal do Estudo EMBRACE, primeiro registro nacional de menopausa realizado nas 27 capitais com aprovação da CONEP/Ministério da Saúde, o debate sobre emagrecimento ignora um ponto central.
“A menopausa já promove uma redistribuição de gordura corporal, com aumento da gordura visceral e redução progressiva de massa magra. Quando associamos isso ao uso indiscriminado de canetas, sem acompanhamento adequado, podemos transformar perda de peso em perda de músculo”, afirma.
Estudos publicados em bases como PubMed e PMC indicam que até 40% a 45% do peso eliminado com agonistas de GLP-1 pode corresponder à massa magra, que inclui músculo. Em mulheres no climatério, isso pode se somar à perda natural de massa muscular que acontece com o avanço da idade e a queda hormonal.
“A redução de estrogênio altera a composição corporal, favorece o acúmulo abdominal e impacta diretamente o metabolismo. Pesquisas clássicas já demonstravam que a queda hormonal está associada a mudanças na distribuição de gordura e no gasto energético basal. Em outras palavras, não é apenas uma questão de disciplina alimentar”, alerta Berta.
Para a pesquisadora, o risco está na combinação menopausa + restrição calórica intensa + medicação que reduz apetite + ausência de orientação nutricional focada em proteína e treino de força. “Emagrecer não pode significar fragilizar. Para a mulher na menopausa, preservar músculo é preservar independência, metabolismo e proteção cardiovascular”, diz.
Outro ponto pouco explorado é que a massa muscular influencia diretamente a densidade óssea. A perda acelerada pode agravar risco de osteopenia e osteoporose, condições já mais prevalentes após os 50 anos.
“A discussão não é contra a medicação, é contra o uso descontextualizado. Os agonistas de GLP-1 representam avanço terapêutico relevante, especialmente para obesidade e diabetes tipo 2. O que defendemos é que, para mulheres no climatério, o tratamento deve vir acompanhado de estratégia metabólica: ingestão adequada de proteína, treinamento resistido e avaliação hormonal individualizada”, explica Berta.
Segundo a especialista, a saúde feminina exige um olhar menos estatístico e mais clínico. “Para muitas mulheres, a culpada pelo ganho de peso nunca foi falta de força de vontade, foi a menopausa e o desafio agora é emagrecer sem perder aquilo que sustenta o corpo por dentro”, alerta.
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