Crise climática pressiona fauna em áreas protegidas; sem adaptação, Brasil pode perder ícones da biodiversidade antes de 2100
São Paulo, janeiro de 2026 - O aumento das temperaturas no Brasil já começa a provocar impactos profundos sobre as espécies de aves que vivem nas maiores florestas do país, inclusive em regiões oficialmente protegidas. A avaliação é do biólogo Pedro Develey, diretor da SAVE Brasil, organização dedicada à conservação das aves e seus habitats, que reforça que a crise climática deixou de ser uma projeção futura: ela já está alterando o equilíbrio das populações silvestres agora.
O alerta ecoa também tendências globais. Segundo a atualização mais recente da Lista Vermelha da IUCN, divulgada em outubro deste ano, 61% das espécies de aves do mundo apresentam populações em declínio, impulsionadas pela perda de habitat e pelo avanço das temperaturas. No Brasil, 138 espécies já são oficialmente classificadas como ameaçadas, de acordo com a BirdLife International.
"Precisamos ir além de proteger a mata. Devemos pensar em outras ações de manejo para manter essa população de aves", afirma Develey. Segundo ele, a redução de insetos provocada pelo calor é hoje um dos fatores mais críticos, afetando espécies que dependem diretamente desse alimento para sobreviver. "Com menos comida, elas reproduzem menos. Se não reproduzem, a população não cresce. As aves estão nos avisando do que está acontecendo, mesmo em áreas protegidas."
Na Amazônia, um dos exemplos mais claros é o papa-formiga-de-topete, pequeno pássaro de topete branco que vive seguindo as formigas de correição para capturar os insetos que elas espantam. O comportamento da espécie depende inteiramente da oferta desses insetos, que vem diminuindo com o avanço do calor. "Mesmo em regiões onde a floresta ainda está em pé, o ‘calorão’ já altera essa dinâmica. Ela é totalmente afetada", explica o biólogo.
O cenário é ainda mais alarmante na Mata Atlântica. O crejoá, ave de plumagem vibrante e considerada uma das mais belas do país, pode desaparecer completamente caso o aquecimento continue no ritmo atual. "Se a temperatura aumentar 5ºC, a espécie perde 100% da área de distribuição, e ela não vai ter a capacidade de adaptação", afirma Develey. Ele explica que o crejoá depende de frutos, é extremamente exigente em habitat e sensível a qualquer alteração no ambiente. À medida que as temperaturas sobem, a estrutura da vegetação muda, e a espécie não consegue acompanhar.
As pressões também aparecem em ambientes altamente fragmentados. Espécies muito restritas, como o bicudinho-do-brejo-paulista, presente hoje em apenas seis municípios de São Paulo, enfrentam risco elevado pela combinação entre perda de habitat e clima mais quente, um retrato de como pequenos distúrbios já são suficientes para comprometer populações inteiras.
Essas constatações ganham ainda mais peso diante das projeções científicas mais recentes. Um estudo publicado no início de 2025 por pesquisadores da UFRJ analisou mais de 20 mil modelagens de distribuição de espécies e concluiu que, se o aquecimento global continuar no ritmo atual, mais de 90% das espécies brasileiras sofrerão efeitos negativos das mudanças climáticas. Aproximadamente 25% correm risco de extinção por perda de habitat climático, ou seja, podem desaparecer conforme o ambiente se torne inadequado.
Apesar do cenário crítico, os cientistas apontam caminhos possíveis. O mesmo estudo da UFRJ mostra que, se o mundo limitar o aquecimento a 1,5–2ºC, conforme previsto no Acordo de Paris, o número de espécies ameaçadas pode ser reduzido pela metade. Além disso, estratégias de adaptação como a ampliação e conexão de áreas protegidas, reflorestamento e envolvimento de comunidades tradicionais são apontadas como essenciais.
Para os pesquisadores, os alertas dados pelas aves revelam uma dimensão ainda subestimada da crise climática. Mesmo florestas preservadas já mostram sinais de desequilíbrio, e a conservação tradicional, baseada apenas na proteção da mata, não será suficiente. É necessário pensar em estratégias complementares, como manejo ativo, conexão entre fragmentos e ações que garantam resiliência para espécies sensíveis.
"As aves são as mensageiras do clima", diz Develey. "Elas estão mostrando agora o que pode acontecer em larga escala se não agirmos rápido."
Sobre a SAVE Brasil
A SAVE Brasil é uma organização não governamental dedicada à conservação das aves e seus habitats. Fundada em 2004, a instituição atua em todo o território nacional, desenvolvendo projetos de pesquisa, educação ambiental e políticas públicas para a proteção da avifauna brasileira. A SAVE Brasil é afiliada à BirdLife International, a maior rede de organizações de conservação do mundo. Para mais informações, acesse: www.savebrasil.org.br


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