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SUICÍDIO: “Portão do Inferno atrai porque é a certeza do fim sem escapatória”


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Alguns pontos, como o Portão do Inferno, em Chapada dos Guimarães (a 65 km de Cuiabá), atraem mais suicidas. Isso acontece devido à grande chance de não sobreviver à queda, segundo aponta o psiquiatra Manoel Vicente de Barros.

No último mês, diversos casos de suicídios e tentativas foram registrados no Estado. Somente no Portão do Inferno, uma pessoa morreu e outra tentou se jogar.

Ao contrário do que os vereadores do Município pensam – uma vez que tentam mudar o nome do Portão do Inferno -, a nomenclatura do ponto turístico não é o problema.

Para o especialista em depressão e ansiedade, a pessoa que sofre com uma angústia está desesperada e busca um fim sólido.

“Tem muita gente que atribui, inclusive, a situação ao nome do lugar, pensa que inferno atrai aquela mente perturbada, aquela pessoa que está sofrendo, e ela busca o sofrimento eterno e a ideia de inferno fica martelando na cabeça dela. Eu acho que isso pode ter alguma importância, só que a gente já viu um monte de lugar, no mundo inteiro, virar ponto de suicídio”, afirma Barros.

O psiquiatra ainda explica que, à medida que acontece um suicídio ou uma tentativa, a ação pode provocar um efeito de propagação que atrai mais pessoas para o local.

Eu acho que a população sempre esteve doente em vários níveis, só que isso era pouco trabalhado. Hoje a gente entende o sofrimento como doença, antes o sofrimento era parte da vida

“Conforme as pessoas tentam suicídio e se suicidam em alguns lugares, isso acaba atraindo outras pessoas, porque o suicídio tem essa característica quase que de contágio, de aglomeração do comportamento”.

Nesta semana, Manoel recebeu a reportagem do MidiaNews para uma entrevista. Na conversa, o médico ainda falou sobre o aumento dos casos de depressão e suicídio, a influência das redes sociais no adoecimento da população jovem e como identificar os sintomas antes que seja tarde demais.

Leia os principais trechos da entrevista:

MidiaNews – Nos últimos tempos a sensação é de que os casos de suicídio têm aumentado em Mato Grosso e no Brasil. A sociedade brasileira está mentalmente doente?

Manoel Vicente de Barros – Eu acho que tem duas coisas importantes. A primeira é que a gente está percebendo um pouco melhor o que está acontecendo. Eu acho que parte desse aumento de números e do aumento da nossa percepção vem de que agora os profissionais de saúde estão percebendo melhor as situações. Agora eles conseguem notificar melhor aos sistemas oficiais, ao Estado, ao Governo e isso acaba, por si só, já aumentando os índices de tentativa de suicídio e de suicídio. Mas sim, os casos estão aumentando no mundo inteiro, não é uma coisa só do Brasil. A tendência é mundial e eu entendo que o aumento da depressão, o aumento do comportamento suicida e dos suicídios, até os profissionais ainda estão tentando compreender quais fatores estão na base disso.

Eu acho que a população sempre esteve doente em vários níveis, só que isso era pouco trabalhado. Hoje a gente entende o sofrimento como doença, antes o sofrimento era parte da vida. Agora a gente consegue entender que tem como não sofrer tanto, que tem como se tratar e ficar menos doente. A princípio eu diria que sim, que estamos mais doentes. Mas não tem como se basear na informação de um século atrás, de 50 anos atrás, quando as pessoas sofriam em silêncio. Agora elas sofrem e tem como conversar, elas têm acesso a locais de desabafo, locais de tratamento.

MidiaNews – A necessidade de ser feliz o tempo inteiro, que foi potencializada pelas redes sociais, é um componente para o aumento da depressão?

Manoel Vicente de Barros – Eu acho que sim. A rede social tem dois fatores interessantes. Elas funcionam de dois jeitos ruins na saúde mental. Temos problemas de interiorização, que a pessoa vê a vida perfeita que todo mundo tem ao redor e começa a introjetar uma baixa autoestima. Ela começa a achar que não está vivendo do melhor jeito possível, não está nas melhores baladas, não está viajando nos lugares mais legais do mundo e ela interioriza o sofrimento. E tem a exteriorização, que a rede social faz todo mundo meio que virar um monstro, começa a brigar, discutir e começa a desencadear conflito em grupo de WhatsApp, começa a separar família. Então, ela não só faz você sofrer, mas torna você em um bullier, torna você em uma pessoa mais violenta que você seria na vida real.

Todo mundo sofre. Quem está fingindo que tem uma vida perfeita sofre e quem está vendo aquela vida perfeita, que não é verdadeira, também fica sofrendo porque acredita naquela imagem.

MidiaNews – As mudanças nas carreiras, no mercado de trabalho e na economia contribuem para o aumento nos casos de depressão?

Manoel Vicente de Barros – A gente viu um aumento de suicídio e depressão muito entre jovens e o comportamento suicida está muito relacionado a sensação de desesperança. Então, se por algum motivo, o jovem acha que ele não tem um futuro, que ele não consegue se encaixar daqui a 10 ou 20 anos em algum lugar, isso gera desesperança. E quem não tem pensamento de futuro considera acabar com tudo agora.

Além disso, a gente também cria expectativas que não existem. O próprio jovem pode ter expectativas que não existem, como estar bem sucedido e com independência financeira aos 30 anos, de estar aposentado aos 40, viajando o mundo, e isso não costuma acontecer de verdade. Essa frustração aumenta a depressão.

MidiaNews – Campanhas de combate ao suicídio surtem efeito?

Manoel Vicente de Barros – Eu acho que a conscientização é o primeiro passo, mas precisa ser mais incisivo na parte prática. Você não pode só conscientizar se, quando a pessoa for procurar tratamento com psiquiatra, ela só achar isso na rede particular. Isso não fica acessível. Ela tem que ter acesso ao psiquiatra rápido, de forma eficaz, não é para ter consulta de 15 minutos e só ver ele depois de três meses. Você tem que fazer vínculo com o profissional e para você fazer vínculo com o profissional, você tem que ter um profissional lá. Infelizmente, a gente tem pouco psiquiatra, pouco psicólogo, a assistência social não está fortalecida e se você não fortalece isso, as campanhas acabam não tendo tanto efeito. Conscientizar é só o primeiro passo, você precisa oferecer tratamento. Tratamento é o que muda a vida, tratamento é o que salva a pessoa do suicídio.

MidiaNews – O tem suicídio sempre foi um tabu. Mas de uns tempos para cá, parece ter havido uma mudança de abordagem, com o incentivo para que as pessoas falem mais do tema. É melhor falar do que se calar?

Falar sobre suicídio também ficou mais fácil porque a gente entende que ele vem de uma doença psiquiátrica. Ele não é um capricho, não é frescura, não é manipulação

Manoel Vicente de Barros – O primeiro passo para você perceber é você perguntar. Quando você pergunta para alguém sobre pensamento de morte, se ela já pensou em suicidar, você não coloca na cabeça da pessoa a ideia. Muita gente tem medo de fazer isso, acha que se perguntar vou estar dando a ideia. Você pode perguntar. Isso vai ser um momento de desabafo. Falar sobre suicídio também ficou mais fácil porque a gente entende que ele vem de uma doença psiquiátrica. Ele não é um capricho, não é frescura, não é manipulação. Ele é algo que acontece quase de forma involuntária, que a pessoa tem pouco controle sobre aqueles impulsos.

MidiaNews – Recentemente tivemos um suicídio e uma tentativa no Portão do Inferno. Por que alguns lugares exercem mais atração que outros para os suicidas?

Manoel Vicente de Barros – Tem muita gente que atribui, inclusive, a situação ao nome do lugar, pensa que inferno atrai aquela mente perturbada, aquela pessoa que está sofrendo, e ela busca o sofrimento eterno e a ideia de inferno fica martelando na cabeça dela. Eu acho que isso pode ter alguma importância, só que a gente já viu um monte de lugar, no mundo inteiro, virar ponto de suicídio. A gente teve o Shopping Pátio Brasil, em Brasília; a Torre Eiffel, em Paris; o Empire State, em Nova York; vários lugares ficam assim. Eu acho que o Portão do Inferno é relacionado, aqui na região, como uma coisa sem escapatória. Se você pular do Portão do Inferno, não tem jeito de sobreviver. A pessoa busca esse fim garantido e acaba sendo o Portão do Inferno o local que ela vai.

Eu fiz um levantamento do que a gente tinha na literatura sobre alguns lugares, principalmente lugares turísticos, que viraram atrativos para o comportamento do suicídio. Muitas vezes são pontos turísticos. Você tem em São Francisco a ponte Golden Gate, que é o maior ponto de suicídio do mundo, mas você já teve a Torre Eiffel, o Empire State, você já teve lugares que ganharam essa fama. Conforme as pessoas tentam suicídio e suicidam em alguns lugares, isso acaba atraindo outras pessoas porque o suicídio tem essa característica quase que de contágio, de aglomeração do comportamento.

Esses locais tiveram muita dificuldade em tratar isso. Eles precisaram instalar cercas de segurança, câmeras, equipes de pronta resposta, porque o que a gente precisa fazer é diminuir a facilidade que a pessoa angustiada consegue suicidar. É aquela questão de diminuir o acesso a meios letais. Quando a gente diminui o acesso à arma de fogo, a gente dificulta um pouco mais a pessoa a cometer suicídio.

O Portão do Inferno tem um problema porque ele fica bem na Estrada de Chapada. É fácil a parada, é fácil o acesso ao local. E ali tem pouca proteção física para a pessoa. Entre ela decidir suicidar e ela realmente saltar do Portão do Inferno, é pouco tempo. O acesso ao local, se fosse mais difícil, talvez desse aqueles dois minutos extras que é o tempo para um motoqueiro aparecer e salvar a pessoa. Tomara que tenha mais motoqueiros esperando.

MidiaNews – Um grupo colocou faixas com mensagens positivas no Portão do Inferno. Isso de fato ajuda?

Manoel Vicente de Barros – É uma tentativa válida. Lá no Japão, tem uma floresta que as pessoas cometem muito suicídio, ela é muito famosa por isso. Lá também fizeram essa iniciativa de colocar faixas. Eu acho interessante porque, se a faixa salvar uma pessoa, já valeu a pena. Mas a verdade é que, de forma incisiva, para poder ter um impacto verdadeiro, você precisa ofertar tratamento psiquiátrico de qualidade, acessível.

Se a pessoa está desesperada, se ela está angustiada e ela souber que, quando ela for para um hospital, ela vai ter alívio, talvez ela não vá para o Portão do Inferno, ela vai para o Pronto Socorro porque ela sabe que vai dar certo. Hoje, infelizmente, ela não tem para onde ir. Ela tem poucos recursos.

MidiaNews – Apenas pessoas depressivas atentam contra a própria vida ou uma pessoa sem sintomas de depressão também pode tentar se matar?

Manoel Vicente de Barros – Os estudos de quem suicidou mostram que a maioria das pessoas estava deprimida e já estava tentando se tratar antes. Outras pessoas não tinham demonstrado sinais de depressão, só que a gente não tem como ter certeza se ela já tinha mostrado alguns sinais e ninguém tinha percebido. Provavelmente foi o caso. Eu acredito que a maioria dos suicídios e das tentativas de suicídio sempre acontece em pessoas que já estavam deprimidas.

Eu acho que o Portão do Inferno é relacionado, aqui na região, como uma coisa sem escapatória. Se você pular do Portão do Inferno, não tem jeito de sobreviver

MidiaNews – Como identificar que uma pessoa pode cometer suicídio? Quais são os sinais que não devem ser ignorados?

Manoel Vicente de Barros – Eu acho que a primeira coisa é ver se na família tem alguém que já suicidou, se tem alguém que já tentou suicídio, se tem alguém que já deprimiu e você tem que deixar um alerta ligado. Esse tipo de coisa tem carga genética. Se na família de sangue alguém já suicidou, fica atento mais do que o normal.

Depois você vai observar se a pessoa muda o jeito dela. Se passa a ter menos contato social, se ela deixa de fazer as atividades de lazer, abandona o exercício, começa a ir mal na aula, não quer mais estudar, aquilo que brilhava os olhos dela para de fazer sentido, ela perde o prazer. E ver se essa pessoa está sem planos para o futuro. Se ela não acreditar que ela vai estar bem daqui a cinco anos, daqui a 10 anos, ela pode estar dando esse sinal. A mudança do comportamento, do jeito, da personalidade da pessoa, é o melhor sinal para você identificar o quanto antes.

MidiaNews – E como identificar a depressão?

Manoel Vicente de Barros – Aquele jovem que sempre foi simpático, que sempre se deu bem com os pais, de repente, começa a ficar irritado, mais isolado no quarto e não quer mais fazer o karatê que ele sempre fazia. Aquela senhora que sempre foi vaidosa, se cuidava, pintava o cabelo, gostava de se arrumar, começa a ficar mais desleixada, para de colocar um brinco, para de colocar um vestido e começa a ficar diferente do que ela era. Aquele homem que era o pai da família, que sempre foi trabalhador, que estava bem, de repente, começa a ficar frustrado no trabalho, a ficar mais irritado sem motivo, começa a ficar impulsivo e meio que perde aquele carinho com os filhos ou perde a conexão com o resto da família.

MidiaNews – O que deve ser feito quando identificados esses sintomas?

Manoel Vicente de Barros – Toda vez que você identificar um comportamento que você fica com medo, em dúvida, você procura um profissional da saúde mental. Se você vai ao psicólogo, no psiquiatra, não quer dizer que você está doido, quer dizer que você está perguntando uma opinião para alguém que entende do assunto. Se a pessoa tiver um comportamento de suicídio, se ela fala “eu queria morrer, eu queria desaparecer”, isso não pode ser tolerado. Você tem que levá-la para uma avaliação com um profissional. O profissional vai conseguir triar. Não é normal se automutilar, não é normal se cortar, não é normal falar que vai morrer, não importa a situação: se foi briga, se foi emoção forte. Quem está falando isso precisa de ajuda, precisa de tratamento.

MidiaNews – Houve avanço nos últimos anos em relação à eficácia dos antidepressivos?

Manoel Vicente de Barros – Com certeza. Nos últimos 20 anos, vimos uma revolução nas medicações, elas estão mais eficientes. A gente já desenvolveu técnicas até que abordam a depressão sem medicações, que tem estimulação magnética transcraniana, por exemplo. Com o trabalho conjunto do psicólogo com o psiquiatra, que antigamente era mais difícil, aumentou muito a eficácia. Quem procura tratamento, antes do caso ficar grave, tem uma ótima taxa de resposta. As pessoas melhoram de verdade quando elas têm um bom tratamento.

Não é normal se automutilar, não é normal se cortar, não é normal falar que vai morrer, não importa a situação

A gente sabe que os casos de suicídio estão aumentando, a gente sabe que a depressão está aumento, que a tentativa de suicídio está aumentando. Mas a verdade é que a melhora também está aumentando, porque hoje os tratamentos estão muito melhores. A gente não tem como contar a história de todo mundo que vem pesando em suicídio e fica bem, mas as histórias são diárias. Eu vejo isso todos os dias. A pessoa vem sofrendo, ela vem com angústia, ela vem com uma dor insuportável. Com o tratamento ela melhora. Infelizmente, essa pessoa não vai ficar tão conhecida como alguém que tentou pular do Portão do Inferno, mas as histórias existem, as histórias anônimas de melhora, de quem estava sofrendo e hoje está bem. A gente tem que pensar nessas pessoas também. Hoje em dia se adoece mais, só que no fim das contas também se fica muito bem.

MidiaNews – A depressão é uma doença que atinge milhões de pessoas no Brasil. Mas nem todas cometem suicídio. Existe um perfil de quem tenta o suicídio?

Manoel Vicente de Barros – A maioria das pessoas com depressão podem até pensar em querer sumir ou querer morrer, mas elas não tentam isso. As pessoas que tentam, mais de 90% nunca vão chegar a cometer o suicídio em si. Então quem suicida é a ponta do iceberg.

Se a gente está vendo esse aumento no caso de suicídios é porque tem muito mais gente deprimida que não está tão grave. A gente só se preocupa com os casos mais graves, esses são os que vão direto para o psiquiatra. Os casos moderados, os casos mais leves não vão e são os casos mais importantes porque são os mais fáceis de tratar e você evita esse caminho.

MidiaNews – Como é a ação dos antidepressivos no cérebro do paciente?

Manoel Vicente de Barros – A depressão é uma alteração no cérebro, do jeito que o cérebro funciona. Ela atinge a região que regula o humor, que regula o prazer, que regula o pensamento da pessoa. Os antidepressivos, os tratamentos com estimulação magnética, os tratamentos modernos, mudam a forma como o cérebro funciona e a pessoa passa a ter o humor bem regulado, a reagir melhor ao ambiente e não ficar só naquele polo de tristeza, só naquele tom de negatividade que a depressão faz.

MidiaNews – O que acontece com a pessoa para ela ver a morte como única solução?

Manoel Vicente de Barros – A depressão faz você sofrer, ela causa quase uma dor na alma, uma angústia que não vai embora, viver fica insuportável. Junto com isso, ela coloca uma lente de negatividade. A pessoa não consegue ver saída. Infelizmente ela não acredita que o tratamento vai dar certo, ela não acha que o psiquiatra vai ajudar, que a psicóloga vai fazer alguma diferença. Então como ela está sofrendo e não vê saída, o que ela pensa é: “Eu vou acabar com tudo isso e vou querer morrer porque pelo menos eu não sofro mais”.

A tentativa de suicídio e o suicídio têm que serem vistos como uma tentativa desesperada de buscar alívio para um sofrimento. Quem tentou suicídio não é egoísta, não é fraco, não está com frescura. É uma pessoa com um sofrimento insuportável.

FONTE: MIDIANEWS