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Agronegócios

Secretaria de Agricultura desenvolve estudos para melhorar fertilidade e reduzir a temperatura de solo dos pomares de acerola


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Ao usar técnica, produtor rural relata aumento de 30% na produção e redução de R$ 3 mil nos custos por safra a cada hectare 

De sabor único e irresistível, a acerola é rica em vitamina C e um dos objetos de pesquisa da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Na APTA Regional de Adamantina, uma das unidades de pesquisa da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), são desenvolvidos estudos utilizando braquiária nas entrelinhas dos pés da fruta para melhorar a fertilidade do solo, reduzir a temperatura de solo dos pomares e, possivelmente, diminuir a ocorrência de pragas e doenças. Os trabalhos mostram que a palhada melhorou as condições de cultivo, sem impactar de forma negativa a qualidade dos frutos. Ouça podcast sobre o tema no Soundcloud e Spotify

De acordo com o pesquisador da APTA de Adamantina, Maurício Dominguez Nasser, a utilização da Braquiária ruziziensis nas entrelinhas do cultivo de acerola pode trazer diversos benefícios para o cultivo da fruta. Isso porque a palhada formada com a braquiária ao ser roçada e direcionada para linha das plantas de acerola reduz a temperatura de solo, melhora sua fertilidade e pode diminuir prejuízos relacionados a plantas invasoras, pragas e doenças de solo, como os nematoides.

A pesquisa “Teores foliares de nutrientes em aceroleira cultivada com termofosfato e cobertura morta” foi publicada na revista científica Research, Society and Development pelos pesquisadores da APTA, Nasser, Fernando Nakayama e Fernanda Furlaneto, além de Carolina Kohori, da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS), Maria Montagnoli, da Estância Esperança, e Rafael Montes, da Yoorin Fertilizantes.

“Em médio e longo prazo, esse capim inserido no sistema de produção de acerola pode aprofundar o enraizamento das plantas frutíferas, favorecer o uso racional da água, melhorar a eficiência de fertilizantes, bem como diminuir a incidência de plantas invasoras como capim-amargoso, além de pragas e doenças do solo. De acordo com observações a campo e a literatura, é possível, com o uso da braquiária, reduzir em até 30% os custos de produção”, afirma o pesquisador.

Nasser ressalta que esse tipo de manejo incentiva também o uso de novas tecnologias. “Um exemplo é a utilização do implemento agrícola conhecido como “roçadeira tipo ecológica” que se acopla ao trator e já está disponível na citricultura e cafeicultura, porém é pouco utilizado pelos produtores rurais da região da Alta Paulista que trabalham com frutíferas ou outras culturas permanentes. A roçadeira ecológica é interessante no cultivo da acerola porque realiza a roçada ou corte da forrageira instalada na entrelinha do pomar e distribui de maneira uniforme o material roçado para a linha de plantio, posicionando a palhada praticamente embaixo da planta de acerola”, explica Nasser.

A região da Alta Paulista é considerada bastante quente, com temperatura ambiente média de 24 ºC, podendo chegar a até 41 ºC. “As altas temperaturas do ar influenciam diretamente na temperatura do solo, e acima de 32 ºC no solo, por exemplo, pode impedir as plantas de absorver água e nutrientes do solo. Por isso, o uso da palhada é bastante interessante, principalmente, na nossa região, já que a palha consegue reduzir a temperatura do solo em média 3 ºC a 3 cm de profundidade, e local com muitas raízes ativas”, afirma.

O produtor rural Fernando Mauro Montagnoli cultiva dois mil pés de acerola no município de Irapuru, no interior paulista, a 25 km da APTA Regional de Adamantina. Em setembro de 2019, ele implementou em sua propriedade a pesquisa propagada pela APTA e, desde então, tem colhido os frutos da adoção da tecnologia.

Antes do uso da braquiária, Montagnoli utilizava herbicidas para acabar com o mato na plantação. O problema é que ele utilizava os produtos em época inadequada, como na florada, o que impactava na sua produção. “Não sabia que o herbicida poderia prejudicar a florada e, consequentemente, a produção. Desde que comecei a usar a técnica propagada pela APTA Regional, aumentei em 30%, em média, a produtividade do meu pomar”, conta.

Além do aumento da produção, Montagnoli relata a diminuição dos custos, já que reduziu o uso de herbicidas e inseticidas. “Reduzi em cerca de R$ 500 os custos na aplicação de defensivos por florada por hectare. Como tenho cerca de seis floradas por safra, a redução chega a R$ 3 mil por hectare”, calcula o agricultor, que também relata a diminuição de 3 ºC na sua plantação.

“O trabalho da APTA é excelente. Essa nossa parceria é muito boa e gratificante, porque temos informações confiáveis, que melhoram a nossa produção. Mais produtores precisam conhecer essa técnica para parar de jogar dinheiro fora”, afirma.

Alta paulista tem condições ideais para cultivo e comercialização da acerola 

O pesquisador da APTA Regional explica que a região da Alta Paulista congrega boas condições para o cultivo da acerola, como as altas temperaturas e radiação solar. “A produção paulista de acerola é predominante nessa região. A cultura é uma ótima opção para os pequenos agricultores, sendo uma forma de diversificação dentro das propriedades rurais. Sem a necessidade de muitos tratos culturais, os produtores conseguem colher até 30 toneladas por hectare”, afirma Nasser.

A safra da acerola ocorre de outubro a abril e durante esse período é possível colher frutos por até 30 vezes na mesma planta. Isso porque a colheita ocorre de forma seletiva, já que nem todas as pequenas esferas alaranjadas amadurecem de uma vez. “Por isso, a cultura também é interessante para gerar mão de obra no campo”, afirma.

Além das vantagens na produção, a Alta Paulista também concentra as agroindústrias que processam as frutas para produção de polpas congeladas. Segundo o pesquisador da APTA Regional, esse é o principal mercado para a acerola. “Cerca de 95% da produção é destinada para polpa congelada e suco. Alguns mercados vendem as frutas em bandejinhas, mas é muito pouco”, explica.

A APTA Regional de Adamantina estuda acerola há mais de 15 anos e mantém um banco de germoplasma, uma coleção de plantas, com mais de 20 variedades  vivas da fruta.

Acerola em pó 

Quando houve um boom de acerola, em 1998, outro órgão vinculado à APTA, o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), desenvolveu o suco de acerola em pó a partir da extração da polpa da fruta, utilizando spray dryer para secagem. “A acerola tem estabilidade muito baixa devido à oxidação da vitamina C, então possibilita o aumento da vida de prateleira”, conta o pesquisador José Maurício de Aguirre, do Centro de Tecnologia de Frutas e Hortaliças (Fruthotec) do Ital, que afirma ser a tecnologia ainda bastante atual e viável de ser implementada. Contribuíram com o desenvolvimento Rogério Tocchini e Alba Lúcia Coelho, que já trabalhavam com suco de acerola.

Outra importante contribuição do Ital ocorreu entre 2005 e 2006, quando a produção da região de Junqueirópolis estava chegando ao fim. O pesquisador Paulo Tavares, do Fruthotec, que atuava junto à APTA Regional, e a pesquisadora Eliane Fabri, do Instituto Agronômico (IAC), também vinculado à APTA, realizaram evento de articulação da cadeia, que resultou no replantio da acerola em Junqueirópolis, Osvaldo Cruz, Dracena e Parapuã.

Campeã em vitamina C  

Originaria das Antilhas, América Central e norte da América do Sul, a acerola é considerada uma das campeãs em vitamina C do reino vegetal, trazendo cerca de 1790 miligramas de vitamina para cada 100 gramas de polpa, segundo nutricionistas da Coordenadoria de Desenvolvimento dos Agronegócios (Codeagro), da Secretaria.

Também conhecida como ácido ascórbico, a vitamina C melhora o sistema imunológico, a pele, o humor, evita problemas oftalmológicos e derrames e conta com forte ação antioxidante, o que ajuda a combater os radicais livres, responsáveis pelo envelhecimento precoce.

“A acerola só́ perde em quantidade de vitamina C para uma fruta amazônica pouco conhecida, chamada camu camu. Além de vitamina C, a acerola é rica em vitamina A, ácido fólico (B9), riboflavina (B2), niacina (B3), fósforo, manganês, magnésio, cálcio, ferro, potássio e cobre”, afirma Sizele Rodrigues, nutricionista da Codeagro. Suas fibras alimentares ajudam no bom funcionamento do sistema digestório e seu consumo colabora no controle de açúcar no sangue e auxilia no combate a alguns tipos de câncer, como o de pulmão.

Assessoria