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Queimadas podem transformar Floresta Amazônica de Mato Grosso em cerrado, diz pesquisador

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O Dia da Árvore, comemorado no Brasil em 21 de setembro, tem como objetivo reforçar a conscientização e preservação das árvores para o meio ambiente. Liderando no número de queimadas e também no desmatamento, Mato Grosso tem um papel fundamental na manutenção da Floresta Amazônica.

Em entrevista ao Olhar Direto, o professor de Ecologia da Universidade Federal de Mato Grosso – campus Sinop e presidente da Sociedade Brasileira de Primatologia, Gustavo Canale explica que as queimadas das árvores provocam a liberação de dióxido de carbono, uma das principais causas do aquecimento global. Além disso, elas podem causar a savanização.

“O Brasil hoje é um dos que contribui bastante para o aquecimento global justamente por conta das queimadas. Não temos muitas indústrias, muitas termoelétricas que geram gases de efeito estufa. São justamente as queimadas que colocam o Brasil como um país que também contribui para o aquecimento global. Por isso que o controle das queimadas imediato é muito importante para começar a diminuir a crise climática”, afirma ele, que também possui doutorado em Ecologia e Conservação pela Universidade de Cambridge no Reino Unido.

A longo prazo, as queimadas podem causar o que é chamado de savanização. Um processo de transformação da floresta em uma área que se assemelha a de savanas da África ou do cerrado brasileiro.

“Essa floresta do norte de Mato Grosso, por ter muita influência do cerrado e por ser mais seca, quando ela queima, passa por um processo de savanização. Em geral, o que os cientistas têm observado é que existe a substituição da Amazônia para as áreas de cerrado depois que acontece uma queima muito severa. Isso associado ao aumento de temperatura, estações secas mais longas, que é o que a gente vem observando durante essa crise climática, vai se agravando”, explica.

“Além do Pantanal que está sofrendo uma das piores queimadas da sua história, a Amazônia mato-grossense vem sendo queimada com muita frequência. Muitas vezes Mato Grosso esquece que é um estado amazônico. O norte de Mato Grosso é formado por florestas amazônicas. É importante que as pessoas lembrem tanto do Pantanal, do cerrado, como da Amazônia, como biomas que merecem ser protegidos dentro do estado.  Essa Floresta Amazônica de Mato Grosso é especial porque possui encontro entre Amazônia e cerrado”, conta.

“Mato Grosso tem um encontro de três biomas dentro do estado. A gente precisa não apenas voltar os olhos para o Pantanal, que é superimportante, mas também olhar para essa Floresta Amazônica do norte do estado e para o seu cerrado que também vem perdendo muita vegetação. Isso vem contribuindo para mudanças climáticas e pode gerar, inclusive, perda de investimento no estado. Uma vez que a cada floresta que a gente desmata, é menos água que a gente tem. Um estado que não tem água, pode virar um grande deserto e isso tem consequências gravíssimas não só para a diversidade, mas para a agricultura, agroindústria e para a sobrevivência das famílias mato-grossenses”.

Há uma relação entre a Amazônia e as chuvas no Brasil, principalmente na região Centro-Oeste. “É importante perceber que é justamente a Floresta Amazônica bombeia água do norte do país para a região Centro-Oeste. Toda essa região ao sul de Cuiabá, do Centro-Oeste brasileiro recebe chuvas amazônicas”, diz Gustavo Canale, ressaltando que o desmatamento também terá influência na seca prevista para os próximos anos.

Mato Grosso é o segundo estado que mais desmata a floresta amazônica em território brasileiro, atrás apenas do Pará. Foram 1.880 km² de áreas com alertas de desmatamento entre agosto de 2019 e julho de 2020 na região mato-grossense do bioma, um aumento de 31% em relação ao mesmo período entre 2018 e 2019, quando registrou 1.436 km², segundo Painel Interativo do Instituto Centro de Vida (ICV).

“Provavelmente entre 5 e 20 anos já vão começar a ser sentir alguns efeitos desse desmatamento que continua avançando principalmente na região no norte de Mato Grosso, sul do Pará e cerrado das regiões do Acre, Rondônia e Maranhão. Essas são as principais áreas impactadas. O Mato Grosso tem um papel fundamental na manutenção dessa Floresta Amazônica, que a gente chama de Amazônia Meridional, ao sul da Amazônia”, acrescenta.

Cidade Verde

Ao longo dos anos, o processo de urbanização fez com que os quintais com mangueiras e cajueiros fossem quase extintos. A obra do Veículo Leve Sob Trilhos (VLT), para a Copa do Mundo de 2014, também trouxe uma enorme cicatriz para Cuiabá e tirou cerca de 10 mil árvores somente na região central.

O professor de Ecologia pondera que seria necessário incluir um plano para manutenção das áreas verdes da Capital, que já foi conhecida como Cidade Verde.

“Cuiabá está em uma região que deveria ainda ter uma altíssima biodiversidade, por conta desse encontro entre Pantanal e Cerrado. A maneira como isso deve ser contemplado para que as pessoas possam continuar usufruindo dessa biodiversidade, que está no entorno de Cuiabá, seria justamente incluir no plano diretor da cidade, a manutenção das áreas verdes do município, pensando não só na área construída da cidade, mas também da região no entorno do município, para onde provavelmente essa cidade vai se expandir”.

Vista da avenida do CPA antes das obras do VLT
Avenida do CPA antes da obra do VLT. Autor da foto não encontrado. 

“Geralmente as cidades costumam se expandir para cima das áreas verdes no entorno do centro urbano. Elas vão diminuindo a quantidade de área verde que tem em todo município. O plano diretor contemplando áreas verdes conectadas, mantém o clima mais agradável e a biodiversidade local. É fundamental, uma vez que a gente tem substituído cada vez mais as áreas de florestas por ambientes urbanizados”, finaliza.

Fonte: Olhar Direto