Publicada em 12/03/2016 às 00:22

Desaparecimento de abelhas: Fenômeno ameaça segurança alimentar

O fenômeno ganhou o nome de Distúrbio de Colapso de Colônia (CCD), uma epidemia que pode dizimar uma colônia em poucos dias.

Carolina Cunha
Da Novelo Comunicação

 

Nos últimos anos um problema preocupa países de todo o mundo: o desaparecimento e a morte massiva das abelhas. O sumiço delas é relatado em vários países. Existem 20 mil espécies de abelhas catalogadas, mas um quarto das espécies está sob ameaça de extinção.

O fenômeno ganhou o nome de Distúrbio de Colapso de Colônia (CCD), uma epidemia que pode dizimar uma colônia em poucos dias. Os Estados Unidos é o país mais afetado. De 1940 até hoje, o número de colmeias caiu pela metade. Na Europa, houve um declínio de 50% nos últimos 25 anos. No Brasil, ainda não existem dados para entender com precisão a escala desse declínio.

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Além da perda da biodiversidade natural, o desaparecimento das abelhas pode ameaçar a existência de alimentos no futuro, pois colocará em risco a produtividade agrícola. Isso porque muito mais do que produzir mel, esses insetos cumprem um importante serviço ambiental: são agentes polinizadores da natureza, responsáveis pela reprodução e manutenção das plantas e do equilíbrio da biodiversidade.

Pólen e néctar são os principais alimentos das abelhas, que os buscam de flor em flor. A polinização é uma atividade essencial para a reprodução sexuada das plantas e, na sua ausência, a manutenção da variabilidade genética entre os vegetais não ocorre, o que pode causar um desequilíbrio em cadeia.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) relata que as abelhas são responsáveis por pelo menos um terço da produção mundial de alimentos - 85% das plantas com flores das matas e florestas e 70% das culturas agrícolas dependem dos polinizadores. No Brasil, elas são responsáveis por 30% da produção.

Abelhas são fundamentais para manter a alta produção e a qualidade de flores e frutos. Alimentos como maçã, melão, café, maracujá, laranja, soja, algodão, caju, uva, limão, cenoura, amêndoas, castanha-do-pará, entre outras dependem do trabalho delas. Os serviços de polinização prestados por esses insetos são avaliados pela FAO em US$ 54 bilhões por ano.

Ainda não existem pesquisas que concluíram os motivos do desaparecimento desses insetos. É provável que o problema seja uma combinação de vários fatores estressantes que debilitam as abelhas e as deixam sem defesa.

É possível que agentes patógenos (vírus, fungos, bactérias) possam afetar algumas espécies. Uma das causas já apontadas é o vírus da asa deformada (conhecido como DWV na sigla em inglês), que tem como vetor o ácaro da espécie Varroa. O vírus pode matar colônias durante o inverno e suas maiores vítimas são as abelhas europeias (Apis mellifera). Na França, a taxa de mortalidade das abelhas triplicou e 100 000 colônias de Apis mellifera foram perdidas desde 1995.

O uso de agrotóxicos nas lavouras também é uma ameaça e enfraquece as colônias. A aplicação de químicos pela técnica de pulverização aérea, por exemplo, atinge a fauna e flora local.

Existem suspeitas que os inseticidas neonicotinoides possam alterar o comportamento das colmeias. Pesquisas indicam que esses produtos intoxicam os sistemas nervoso e digestivo dos insetos, provocando desarranjos em seus sistemas de navegação. Elas demoram a voltar para as colmeias ou não voltam, deixando ela vazia. Em casos mais graves, elas não conseguem se alimentar e morrem por inanição.

Em 2013, a União Europeia baniu o uso dos clotianidina, tiametoxam e imidaclopride, associados à paralisia ou morte de abelhas. No Brasil, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) já identificou o impacto de inseticidas na apicultura nacional em mortes de colônias.

O desmatamento de áreas naturais próximas às lavouras e a falta de vegetação nativa também altera o equilíbrio preexistente. As abelhas precisam de uma alimentação variada para sobreviver e constroem ninhos em árvores ou no solo. A perda do habitat impacta diretamente a sobrevivência das espécies.

Uma das estratégias do governo norte-americano para proteger as abelhas é promover a conservação de habitats. Recentemente foi aprovada a conservação de um território de 28 000 quilômetros quadrados (o equivalente ao território do Havaí) para as abelhas.

O mais grave é o modelo de plantação de uma única cultura em grande escala, como grandes plantações de soja ou milho. Além de diminuir a biodiversidade da área, esse modelo prejudica as abelhas, pois deixa a sua dieta mais pobre e sem nutrientes ao longo do ano. E quando as plantas não estão florescidas, elas precisam buscar outras fontes.

As mudanças climáticas, causadas pelo aumento da emissão de gases de efeito estufa na atmosfera, colabora para o sumiço das abelhas e para o desequilíbrio do ciclo de florescimento das flores. 

Um estudo publicado pela revista Science em 2015 identificou que abelhas dos Estados Unidos e da Europa estão desaparecendo em algumas regiões por não aguentar as temperaturas mais altas. Elas têm dificuldade de sobreviver em um cenário de aquecimento.

Bibliografia

Polinizadores no Brasil: contribuição e perspectivas para a biodiversidade, uso sustentável, conservação e serviços ambientais. Diversos autores. (Editora Fapesp). 

Carolina Cunha

Autor: UOL
Fonte: UOL

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