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Mato Grosso

Muita guloseima e sedentarismo elevam obesidade infantil à patamar de epidemia

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Obesidade infantil vem junto com o aumento do consumo de comidas e bebidas industrializadas e o sedentarismo atual

O aumento do consumo de comida industrializada, guloseimas e de bebidas artificiais, somado ao sedentarismo tem mudado o perfil nutricional e o peso da população brasileira. Prova disso é que após três décadas e meia a preocupação da Pastoral da Criança passou de desnutrição à obesidade infantil.

Nelson Pastoral da Criança

 Nelson Arns: ter comida demais é hoje problema maior que desnutrição

“Quando a pastoral foi criada lá em 1983 as brincadeiras eram na rua, que hoje está tomada pelos carros ou a insegurança acaba isolando as crianças dentro de casa”, observa o coordenador nacional e internacional da Pastoral da criança, o médico Nelson Arns Neumann, filho da fundadora da entidade, Zilma Arns.

Mas o problema não é exclusivo do país. Segundo a OMS, nos últimos 35 anos a prevalência de obesidade subiu de 5,4% para 21% da população mundial e na faixa etária entre zero e 18 anos o índice fica em torno de 15%, sendo considerada uma epidemia. De acordo com dados do Ministério da Saúde, a cada ano são 1 milhão de novos casos de obesidade no Brasil.

A Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), fez inclusive o Mapa da Obesidade no país. A faixa etária mais preocupante da Região Centro-Oeste é com as crianças de 5 a 9 anos, 35,15% desta população está acima do peso considerado ideal.

Mapa da Obesidade

Reprodução Abeso

quadro Mapa da obesidade

Rodinei Crescêncio

Ana Paula Kanachiro

 Médica Ana Paula Kanashiro, que atua no Hospital Júlio Muller, diz que MT não tem dados concretos sobre problema

Em Mato Grosso, segundo a endocrinologista pediátrica que atua há 10 anos no Hospital Universitário Júlio Muller, Ana Paula Kanashiro, não há dados sobre a obesidade infantil, mas a observação em ambulatório é que a prevalência acompanha a taxa nacional de 15% da população.

A pediatra Eliana Siqueira, que atua há 24 anos na rede pública e privada de Cuiabá informa que a obesidade atinge todas as classes sociais, por motivos diferentes. As crianças mais pobres acabam consumindo carboidratos considerados mais baratos, como arroz, macarrão e batata. Já as crianças de famílias mais abastadas tem acesso a fast foods e produtos industrializados.

Todos os profissionais entrevistados pelo RDNews concordam que o sedentarismo e o estilo de vida moderno tem colaborado para a epidemia da obesidade na população, em especial entre os pequenos.

Para a endócrino pediatra o ganho de peso tem repercussões por toda a vida. Entre os menores pode acelerar a puberdade, com a menstruação precoce entre as meninas e o crescimento da genitália nos meninos. Além disso avança a idade óssea, fechando os espaços e impactando no potencial de crescimento, que normalmente vai até os 15 e 16 anos.

Adulto obeso, com ganho de peso ao longo da vida corre mais risco de morte por doenças cardiovasculares, como AVC e infarto do miocárdio”.
Ana Paula Kanashiro

Na fase da adolescência pode gerar distúrbios metabólicos como diabetes, hipertensão, aumento de ácido úrico e dislipidemia (elevação de colesterol no sangue). “Adulto obeso, com ganho de peso ao longo da vida corre mais risco de morte por doenças cardiovasculares, como AVC e infarto do miocárdio”, alerta Ana Paula.

A pediatra ainda destaca a segregação social que uma criança obesa pode sofrer. “São bastante comuns relatos de bullying contra crianças acima do peso, o que acaba impactando na autoestima delas. A escola e os pais precisam ficar muito atentos”, aconselha.

Os médicos reforçam que criança queima caloria brincando e para isso o adulto precisa incentivar a pratica de atividade física. “Pular, correr, jogar bola são exercício ideais para as crianças. Musculação só depois dos 16”, orienta Eliana.

“O uso de tecnologia está sendo cada vez mais cedo, o que reforça o sedentarismo. Uso de celular, TV e vídeo game por exemplo deve ser no máximo de 2 horas por dia. E é preciso observar o sono de 8 a 12 horas por dia, dependendo da faixa etária da criança”, completa a endócrino pediatra.

Quando se trata de obesidade, toda a família tem que se envolver, pois a prática de hábitos saudáveis irá garantir a qualidade de vida. “A dieta para criança é o último recurso e deve ser acompanhado por um nutricionista, geralmente cortar as guloseimas e os supérfluos já resolve, pois as crianças estão em fase de crescimento e respondem muito bem as mudanças de hábitos”, comenta Ana Paula. “O uso de medicação é algo raro em crianças obesas”.

Apesar da obesidade infantil estar crescendo, os pais tem dificuldade em falar sobre o assunto, pois a responsabilidade do que a criança está consumindo é deles, que muitas vezes reproduzem hábitos não saudáveis. Durante a visita ao HUJM, os pais de um menino de 2 anos acima do peso aguardava consulta com a endocrinologista, após ser encaminhado pelo pediatra. Nas mãos da criança um pacote de pirulitos.

Primeiros 1 mil dias

Reprodução Pastoral da Criança

quadro pastoral da crian�a

Assim como na época que a Pastoral desenvolveu a multimistura para combater a desnutrição nos aos 80, agora a entidade aposta no conhecimento para lutar contra a obesidade infantil. E desta vez revela como os primeiros mil dias de vida (gestação aos 2 anos) podem afetar nossa saúde para sempre.

A pastoral deseja popularizar a Teoria de Barker, estudo do médico e professor de epidemiologia britânico David Barker que afirma que a nutrição perinatal tem um potente efeito na saúde futura de qualquer indivíduo, justificando-se assim a origem de algumas doenças crónico-degenerativas da vida adulta e doenças metabólicas crónicas no adulto, como obesidade, hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes tipo II.

“Uma crianças que nasceu com abaixo peso nos EUA tem 30% de chances de estar de cama quando completar 70 anos de idade, por problema cardíaco, de fígado ou de rim, porque os órgãos não foram plenamente desenvolvidos na gestação”, exemplifica o coordenador da Pastoral Nelson Arns.

De acordo com o médico, crianças que nascem com baixo peso tem efeito rebote e tendem a obesidade. “Uma gestante deveria ganhar entre 12 e 14 kg na gestação, mas as mulheres ficam preocupadas em engordar, e as vezes o médico aconselha a não ganhar peso, a criança passa fome, muda o metabolismo”, afirma. “Criança que a mãe passou fome seja por condição precária ou medo de engordar na gestação torna-se um organismo poupador e daí tendem a guardar e ter obesidade infantil”, revela.

Outro fator importante para a gestação é a idade. Na atualidade, as mulheres estão tendo filhos mais tarde, após os 28 anos de idade. “A cada ano que passa depois dessa idade aumenta a probabilidade da criança nascer com baixo peso ou pré-matura, e essas duas condições predispõe o organismo ao uma série de doenças crônicas na idade adulta, incluindo obesidade. Por exemplo uma criança que nasceu com 2,5 kg tem maior chance de morrer de infarto aos 40 anos de idade”, alerta. “Pressão alta, diabetes, obesidade, osteoporose, colesterol alto, problemas renais todos eles começam na gestação e nos 2 primeiros anos de vida”.