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Modos errados de orar – Por Mario Eugenio Saturno

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Em 15 de Outubro de 1989, o cardeal Joseph Ratzinger (depois Papa Bento), então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, escreveu a Carta aos Bispos da Igreja Católica Acerca de Alguns Aspectos da Meditação Cristã, aprovada pelo Papa João Paulo II.
 
Muita gente pensa que orar é simplesmente conversar com Deus, mas não é difícil imaginar que muitos arrogantes invocariam a própria ira de Deus (e sem perceber e entender).
 
Alguns textos do Novo Testamento (como 1 Jo 4, 3; 1 Tim 1, 3-7 e 4, 3-4) permitem reconhecer vestígios de que já nos primeiros séculos se insinuaram na Igreja modos erróneos de rezar. Em seguida, vieram dois extravios fundamentais: a pseudognose e o messalianismo. Dessa experiência cristã primitiva e da atitude assumida pelos Padres, pode-se aprender muito sobre o modo de enfrentar semelhante problemática contemporânea.
 
A pseudognose considerava a matéria como algo de impuro, que envolvia a alma numa ignorância, de que a oração devia livrá-la, e nem todos eram capazes disso, mas só os homens verdadeiramente espirituais. O messalianismo só valorizava a oração e desconsiderava os sacramentos. Modos heréticos de oração que vemos hoje em dia.
 
Contra o extravio da pseudognose, os Padres afirmam que a matéria foi criada por Deus e por isso não é má. Além disso, asseveram que a graça, cujo manancial é sempre o Espírito Santo, não é um bem próprio da alma, mas deve ser obtida de Deus como dom. Por isso, a iluminação ou conhecimento superior do Espírito (gnose) não torna supérflua a fé cristã. Por último, para os Santos Padres, o sinal autêntico dum conhecimento superior, fruto da oração, é sempre a caridade cristã (8).
 
Os messalianos, falsos carismáticos do século IV, identificavam a graça do Espírito Santo com a experiência psicológica da sua presença na alma. Contra eles, os Padres afirmaram que a união da alma orante com Deus se realiza através dos sacramentos da Igreja. Tal união pode realizar-se também por meio de experiências de aflição e de desolação. Contrariamente à opinião dos messalianos, a aflição e a desolação não constituem um sinal de que o Espírito tenha abandonado a alma. Pelo contrário, pode ser uma participação autêntica no estado de abandono de Nosso Senhor sobre a cruz, que é sempre o modelo e o mediador da oração (9).
 
Estes erros continuam a constituir uma tentação para o homem pecador, instigando-o a considerar o caminho de Cristo na terra, o único caminho ao Pai, como sendo uma realidade superada. E induzem também a rebaixar o que é concedido como pura graça a conhecimento superior ou experiência. Reaparecidas de vez em quando na história, tais formas errôneas parecem impressionar hoje novamente muitos cristãos, apresentando-se como remédio quer psicológico quer espiritual, e como processo rápido para encontrar Deus (10).
 
O leitor já deve ter identificado em muitas falsas religiões essa conversa de ficar superior ao adquirir certos conhecimentos. Essas ideias não são novas, nem avançadas, já estavam presentes desde o século IV.
 
Mario Eugenio Saturno (cientecfan.blogspot.com) é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano