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GRAMPOLÂNDIA: Grampos duraram pouco mais de 1 ano e tinham 3 níveis de organização e comando


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Com os depoimentos do cabo Gerson Corrêa e dos coronéis Evandro Lesco e Zaqueu Barbosa, o caso conhecido como Grampolândia Pantaneira ganhou mais clareza neste mês. Os três tiveram tentativas de colaboração premiada negadas pelo Ministério Público Estadual (MPE).

A investigação se arrasta desde 2017 e ficou sem grandes desenvolvimentos desde que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) avocou todos os procedimentos pela citação ao então governador Pedro Taques (PSDB). Gerson e Lesco tentavam delatar o esquema desde antes de o caso subir ao STJ.

De acordo com os militares, Paulo Taques e Pedro Taques seriam os mentores das interceptações. O coronel Zaqueu Barbosa teria sido o primeiro a ser procurado pelos dois em sua casa, em agosto de 2014, para que fossem feitos os grampos contra adversários políticos dos dois. Já o coronel Lesco teria atuado para designar o cabo Gerson Corrêa como principal operador do escritório dos grampos. Gerson afirma que enquanto o coronel Airton Benedito Siqueira esteve à frente da Casa Militar, também teria colaborado para indicar os telefones a serem grampeados.

Além de Gerson, a sargento Andrea Pereira e os cabos Clayton Dorileo e Euclides Torezan também teriam trabalhado no Núcleo de Inteligência da Polícia Militar, como foi batizado o escritório.

Rodinei Crescêncio

grampos grampolândia

Na liderança, Taques e o primo e secretário Paulo Taques.  No comando militar, Zaqueu, Lesco e Siqueira, em conexão com o cabo Gerson

As primeiras conversas teriam sido mantidas entre o coronel Zaqueu, Paulo e Pedro Taques em agosto de 2014. O coronel narra que foi procurado pelo advogado e pelo então senador da República e candidato ao Governo do Estado para ajudar no suporte de segurança à campanha eleitoral. O objetivo inicial seria evitar assaltos que estariam acontecendo no dia de pagamento do comitê de Taques.

À época, o coronel afirma que estava em fase de elaboração o Núcleo de Inteligência da PM. O objetivo seria montar um órgão de investigação para coibir a prática de crimes por policiais militares no Estado. Apesar do objetivo aparentemente “nobre”, o núcleo havia sido montado sem amparo legal.

Em um segundo momento, o militar afirma que tanto Paulo quanto Pedro o procuraram para saber se seria possível “ouvir algumas pessoas que estavam atrapalhando a reta final do período eleitoral”.

Zaqueu teria então acionado o coronel Evandro Lesco e o cabo Gerson Corrêa Júnior para que conversassem com Paulo Taques e operacionalizassem as escutas. Lesco e Gerson se reuniram com o então coordenador da campanha no restaurante Reserva, na estrada de Chapada dos Guimarães.

“O Paulo Taques queria saber se tinha segurança, em qual decisão seria realizada essas interceptações, quem iria fazer, e aí eu fui apresentado a ele. Eu e o coronel Lesco nem tínhamos contato com o Paulo Taques até ali. E foi determinado que seria criado esse núcleo que seria apartado da PM, em outro lugar, e eu passaria os relatórios ao coronel Zaqueu. Aí já ficou claro que era ilegal”, disse Gerson em depoimento na 11ª Vara da Justiça Militar de Cuiabá.

As primeiras interceptações teriam sido efetuadas no final de setembro de 2014. Na eleição daquele ano, Pedro Taques disputava o Palácio Paiaguás contra Lúdio Cabral (PT) e José Riva (à época no PSD), que acabou tendo a candidatura barrada e deu lugar a sua esposa, Janete Riva (também no à época PSD).

Gerson narra que o coronel Alexandre Corrêa Mendes teria sido grampeado porque prestava serviços à campanha dos Riva. Já Romeu Rodrigues da Silva, assessor da Seduc, seria ligado à campanha de Lúdio.

O vereador Vinícius Hugueney, uma assessora do vereador Adevair Cabral (PSDB) e o assessor do deputado Wagner Ramos (PSD) Eduardo Gomes Silva Filho teriam sido grampeados porque membros do comitê de Taques desconfiavam que eles estariam envolvidos na compra de votos durante aquele pleito. De acordo com o cabo Gerson, cerca de 130 números teriam sido interceptados pelo esquema até dezembro de 2014.

Os telefones foram incluídos em investigações contra o tráfico de drogas na região de Cáceres, crimes com o qual os interceptados não tinham relação.

Zaqueu lembra que após o período eleitoral se afastou do esquema para se dedicar às funções da PM. Em janeiro de 2015, no início da gestão Taques, o coronel assumiu o comando-geral da corporação.

Com Pedro Taques no governo, o número de interceptações teria diminuído, mas o escritório teria sido mantido. Naquele momento, o cabo Gerson lembra que apenas o jornalista José Marcondes Muvuca teria tido a escuta ilegal mantida. Muvuca havia sido candidato também na eleição e divulgava, em seu site, informações privilegiadas obtidas de fontes na Casa Civil chefiada por Paulo Taques.

O secretário teria inventado uma suposta ameaça à sua própria vida e ao ex-governador Pedro Taques para que fossem grampeados, além de Muvuca, a publicitária Tatiane Sangalli, com quem ele teria tido um caso, e a então assessora da Casa Civil Caroline Mariano. A justificativa seria de que eles estariam envolvidos com o ex-comendador João Arcanjo Ribeiro para realizar um atendado contra os primos Taques.

Ele acionou as delegadas as delegadas Alessandra Saturnino e Alana Cardoso para pedir as interceptações, inicialmente no bojo de outra investigação. Muvuca, Tatiane e Caroline foram alvo também de barriga de aluguel. Paulo Taques foi denunciado pelo MPE por induzir as delegadas a erro. As escutas ilegais teriam seguido sendo realizadas até o final de 2015.

“Em 2015, quando o promotor Mauro Zaque descobriu, a ordem do coronel Zaqueu foi para destruir as gravações. O senhor nunca vai ver nenhum áudio que foi gravado pelo Núcleo de Inteligência. Eu destruí tudo. Joguei tudo no rio, já quebrado, isso nunca vai vir à tona. Exceto, alguns pen drives que eram repassados ao senhor Paulo Taques”, conta Gerson.

Também naquele mesmo ano, diversos médicos da região de Alta Floresta foram interceptados pelo Núcleo de Inteligência. Existia no núcleo do governo a suspeita de que eles estivessem envolvidos em um caso de corrupção ligado à Organização Social de Saúde (OSS) que administrava o Hospital Regional.

Wyrtron, Sentinela e Guardião

Os grampos começaram a ser realizados de maneira precária em 2014. Duas placas da marca Wytron davam suporte ao sistema para as primeiras interceptações ilegais. Os equipamentos seriam utilizados anteriormente pelo Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco) e o Ministério Público Estadual (MPE) ainda apura como foram parar no Núcleo de Inteligência montado pelos militares.

De início, R$ 12 mil teriam sido investidos pelo grupo para custear as escutas. Com o aumento da demanda, o cabo Gerson afirma que Paulo Taques teria passado R$ 40 mil, entregues em mãos, para pagar as despesas do escritório que seria montado no edifício Master Center, no Centro de Cuiabá.

A precariedade do equipamento fez com que o cabo Gerson procurasse o cabo Euclides Torezan, que teria conhecimentos avançados para ajudar no desenvolvimento do sistema de escutas telefônicas. O empresário José Marilson da Silva também teria participado do desenvolvimento da nova ferramenta, que acabou sendo batizada de Sentinela.

O aprimoramento permitia que, entre outros avanços, as escutas fossem feitas de maneira remota, sem necessidade da existência do escritório no Centro da Capital. Nem mesmo o Guardião, sistema de escutas telefônicas com autorização judicial utilizado pelo Gaeco, possuía esta ferramenta.

Gerson estima que em meados de julho de 2015 o grupo teria passado a fazer as escutas fora do escritório, com o Sentinela em plena operação. Com as melhorias, o empresário José Marilson teria levantado a possibilidade de colocar o Sentinela no mercado e conversas chegaram a ser mantidas nesse sentido com a direção da Polícia Militar à época. A estimativa era de que o sistema poderia ser vendido por cerca R$ 400 mil.

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