A meta-análise reforça que a toxicidade financeira é um fenômeno complexo

Meta-análise internacional com mais de 29 mil pacientes chama atenção para a chamada "toxicidade financeira"; especialista em Direito à Saúde explica como problemas de cobertura podem ampliar os custos enfrentados durante o tratamento

O impacto de um diagnóstico de câncer de mama pode ultrapassar os efeitos físicos e emocionais da doença e atingir diretamente a vida financeira das pacientes. Uma nova meta-análise internacional, publicada na revista científica The Oncologist, aponta que 72,3% das pacientes com câncer de mama em países de baixa e média renda enfrentam algum grau de toxicidade financeira relacionada à doença e ao tratamento.

O estudo reuniu dados de 66 pesquisas e 29.426 pacientes com câncer de mama. Nos países considerados de alta renda, a prevalência combinada de toxicidade financeira foi de 39,3%, indicando que o problema atravessa diferentes realidades econômicas, embora apareça com maior intensidade nas nações de menor renda.

O conceito de toxicidade financeira é utilizado para descrever as dificuldades econômicas associadas ao diagnóstico e ao cuidado em saúde. Além dos gastos diretamente relacionados ao tratamento, entram nessa equação mudanças de renda e outras despesas que podem surgir ao longo da jornada da paciente.

Para Mariana Cardozo, advogada especialista em Direito à Saúde e planos de saúde, os resultados ajudam a chamar atenção para uma dimensão do tratamento oncológico que nem sempre recebe a mesma visibilidade.

“Quando falamos no impacto financeiro do câncer, não estamos tratando apenas do preço de um medicamento. Um diagnóstico como esse pode alterar toda a organização financeira de uma família e, quando surgem dificuldades relacionadas à cobertura assistencial, existe o risco de acrescentar uma nova preocupação a um momento que já é extremamente delicado. Conhecer os próprios direitos é também uma forma de evitar que despesas que deveriam ser cobertas acabem sendo assumidas pelo paciente”, afirma Mariana.

Cobertura de saúde também aparece entre os fatores associados

Ao investigar quais características estavam relacionadas à maior ocorrência de toxicidade financeira, os pesquisadores identificaram diferentes fatores socioeconômicos e clínicos. A situação de cobertura por seguro de saúde aparece entre os aspectos associados ao problema, e os autores apontam a ampliação da cobertura em saúde como uma das estratégias que podem contribuir para reduzir o impacto financeiro enfrentado pelas pacientes.

O levantamento não analisou especificamente o sistema de saúde brasileiro ou os planos de saúde do país. Os resultados, portanto, não significam que 72,3% das brasileiras com câncer de mama enfrentem toxicidade financeira. O percentual representa a prevalência combinada encontrada nos estudos realizados em países classificados como de baixa e média renda.

No Brasil, entretanto, a discussão abre espaço para um problema conhecido por pacientes que dependem da saúde suplementar: conflitos relacionados à cobertura de exames, medicamentos, procedimentos e outras etapas prescritas durante o tratamento.

“Ter um plano de saúde não significa que a paciente nunca encontrará uma negativa ou uma divergência sobre determinada cobertura. O ponto fundamental é saber que uma resposta negativa da operadora não necessariamente encerra a discussão. Dependendo do caso, é possível questionar essa decisão. O que não deve acontecer é a paciente simplesmente assumir um custo elevado sem antes entender por que houve a negativa e se ela encontra respaldo nas regras aplicáveis àquele contrato e à cobertura assistencial”, explica Mariana.

Quando o custo interfere na jornada de tratamento

A relevância econômica do problema levou os autores da meta-análise a defenderem que a toxicidade financeira seja considerada uma questão importante na assistência às pacientes com câncer de mama. Entre as medidas discutidas estão ampliação da cobertura de saúde, suporte para despesas não médicas e melhorias na infraestrutura de atendimento.

A pesquisa também chama atenção para o fato de que o problema não está restrito às economias de menor renda. Mesmo entre os países mais ricos incluídos na análise, aproximadamente quatro em cada dez pacientes apresentaram toxicidade financeira.

Para Mariana, a existência de cobertura assistencial adequada ganha importância justamente porque parte da pressão financeira pode surgir em paralelo às demais consequências do diagnóstico. “Em um tratamento oncológico, tempo e previsibilidade importam muito. Quando uma paciente recebe uma negativa, é importante buscar informações rapidamente, solicitar a justificativa da operadora e entender quais caminhos estão disponíveis. O objetivo é evitar que o desconhecimento sobre a cobertura faça com que ela arque imediatamente com uma despesa potencialmente significativa ou enfrente uma interrupção desnecessária na jornada de cuidado”, afirma.

A meta-análise reforça que a toxicidade financeira é um fenômeno complexo, influenciado por fatores econômicos, sociais, clínicos e pelos diferentes sistemas de saúde. Para os pesquisadores, compreender quais pacientes apresentam maior risco é fundamental para que estratégias de prevenção e suporte financeiro possam ser incorporadas ao cuidado do câncer de mama.

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