Autor de "A arte de reprovar", André Havt mostra que a reprovação é uma ferramenta poderosa de crescimento profissional; mas saber como dar um "feedback" negativo pode separar uma cultura positiva de um ambiente que adoece as pessoas.
Todos os dias recebemos negativas no trabalho. Um projeto é recusado. Uma ideia é reprovada. Normal. O “não” faz parte da rotina profissional. O que muda tudo é a maneira como ele é dado e recebido. Passei minha carreira dos dois lados da mesa: primeiro tendo ideias julgadas e, hoje, assumindo a responsabilidade de julgar as ideias dos outros. E uma coisa ficou clara: saber reprovar é uma forma de criar uma cultura positiva e corajosa.
O primeiro cuidado é nunca confundir a ideia com quem teve a ideia. Você pode reprovar um trabalho e valorizar a coragem de alguém ter arriscado ou trazido algo diferente. Uma coisa não anula a outra.
O segundo é ter clareza. Um “não” sem explicação não orienta ninguém. Se você reprova sem dizer por que, sem apresentar critérios ou apontar um caminho, há uma boa chance de reprovar a mesma coisa na apresentação seguinte. Isso gera desgaste, insegurança e retrabalho.
E existe ainda algo mais importante: a forma. Ironia, deboche, sarcasmo, grosseria e humilhação não tornam uma liderança mais exigente. Tornam o ambiente hostil. Aos poucos, as pessoas deixam de se arriscar. Param de trazer ideias diferentes ou imperfeitas. Ninguém quer passar vergonha ou levar uma bronca. E assim nasce uma inércia criativa. O resultado aparece no desengajamento, no turnover e numa cultura de medo. Já um “não” bem dado pode provocar o contrário.
Quando alguém explica a razão da recusa, estabelece critérios, separa a pessoa do trabalho e oferece direção, a reprovação deixa de fechar uma porta e começa a abrir outras. Dá segurança. Estimula evolução. Engaja. Dá coragem para tentar de novo e buscar algo melhor.
Foi uma das coisas que aprendi escrevendo A Arte de Reprovar - O manual de sobrevivência da liderança criativa. Liderar criatividade não é apenas reconhecer uma boa ideia. É também saber recusar as outras sem destruir a autoestima de quem as trouxe. É incentivar o time a ir além.
Feedback não deveria ser uma ferramenta de poder. Deveria ser uma ferramenta de orientação. Neste Dia Mundial da Saúde Mental, vale lembrar que ambientes saudáveis não são aqueles em que todo mundo concorda ou onde ninguém ouve “não”. São aqueles em que as pessoas conseguem discordar sem humilhar, corrigir sem intimidar e reprovar uma ideia sem fazer alguém se sentir reprovado como pessoa. Onde há espaço pra criar, ousar, fazer diferente.
Porque reprovar bem é uma das formas mais generosas de cuidar de uma ideia e de quem a teve.
Sobre o autor: André Havt é autor do lançamento "A arte de reprovar", no qual consolida sua visão sobre liderança humanizada e saúde mental corporativa. CCO da Agência Omnicom, publicitário com 30 anos de carreira no mercado nacional e internacional, designer de formação e fotógrafo.Instagram do autor: André Havt

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