Taxa chega a 9,69%, maior nível da série histórica do Banco Central, enquanto número de contratos recua e produtor enfrenta cenário de maior pressão financeira

O avanço da inadimplência no campo adiciona uma nova camada de pressão ao financiamento da safra 2026/27. Em agosto, o débito em aberto da carteira de crédito rural com recursos direcionados para pessoas físicas chegou a 9,69%, maior nível da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011.

O indicador considera o percentual da carteira com pelo menos uma parcela vencida há mais de 90 dias. Em julho deste ano, a taxa estava em 8,79%. Um ano antes, em agosto de 2025, era de 5,23%, o que representa uma alta de 4,46 pontos percentuais em 12 meses.

Outro levantamento ajuda a dimensionar a deterioração do crédito no campo. Estudo da Agroicone, elaborado com base em dados do Banco Central, mostra que o saldo das operações rurais com atraso superior a 90 dias passou de R$ 3,8 bilhões em julho de 2023 para R$ 38,4 bilhões em abril de 2026.

O cenário coincide com um começo de safra marcado por menor número de operações de crédito. Análise da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), também baseada em informações do Banco Central, aponta que foram registrados 375,1 mil contratos de crédito rural em julho e agosto da safra 2026/27, ante 457,8 mil no mesmo período do ciclo anterior.

Para Romário Alves, CEO da Sonhagro, rede especializada em crédito rural, o aumento da inadimplência exige atenção não apenas de quem já enfrenta dificuldades financeiras, mas também de produtores que precisarão captar recursos ao longo do novo ciclo.

“Quando a inadimplência cresce de maneira tão expressiva, todo o ambiente de crédito passa a exigir mais cautela. Isso não significa que o produtor que está adimplente deixará de conseguir financiamento, mas análise de risco, capacidade de pagamento, garantias e histórico financeiro ganham ainda mais peso. Por isso, deixar a busca pelo recurso para a última hora pode se tornar um problema”, explica Alves.

 

Crédito muda de perfil

Nos dois primeiros meses da safra 2026/27, produtores enquadrados no Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e demais produtores contrataram R$ 65,7 bilhões em operações de crédito rural, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com base em dados do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor).

Um dos movimentos que chamam atenção está na composição desses recursos. As Cédulas de Produto Rural (CPRs) responderam por R$ 32,4 bilhões, o equivalente a 49,2% do total contratado no período. Já as operações convencionais de custeio somaram R$ 23 bilhões, ou 34,9%.

Segundo Alves, a mudança reforça a necessidade de o produtor conhecer diferentes possibilidades de financiamento e comparar as condições antes de contratar. “O crédito rural está se tornando cada vez menos uma decisão baseada apenas em encontrar uma linha disponível. O produtor precisa entender prazo, custo, garantias, fluxo de caixa e qual instrumento faz sentido para aquela atividade. Em um momento de maior pressão financeira no setor, uma contratação mal dimensionada hoje pode comprometer a capacidade de financiamento dos próximos ciclos”, afirma.

A renegociação também entra no radar. O aumento das dificuldades financeiras levou à criação e ampliação de mecanismos para composição de dívidas rurais em 2026. Em setembro, o Conselho Monetário Nacional autorizou novas condições para determinadas operações renegociadas, prorrogadas ou inadimplentes, ampliando as possibilidades de reorganização de passivos para produtores enquadrados nas regras.

Para o especialista, porém, renegociar compromissos anteriores e buscar recursos para uma nova safra são decisões que precisam ser analisadas conjuntamente. “Não adianta olhar apenas para a parcela que venceu. É preciso entender quanto da receita futura já está comprometida, qual será a necessidade de capital para produzir e em que momento haverá entrada de recursos. O produtor precisa enxergar a propriedade como uma empresa e projetar o fluxo financeiro antes de assumir uma nova obrigação”, acrescenta.

Com o Plano Safra 2026/27 prevendo R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, o desafio neste momento não está apenas no volume de recursos anunciado, mas nas condições em que produtores chegam ao mercado para acessá-los.

“Crédito continua existindo e é fundamental para o agro brasileiro. O que muda em um cenário como esse é a importância do planejamento. Quanto antes o produtor organizar seus números e entender sua capacidade de pagamento, maior será a possibilidade de buscar uma estrutura de crédito compatível com a realidade da propriedade”, conclui Alves.


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