Mecanismo combinava contratos suspensos, pagamentos milionários fora da folha, saques em dinheiro vivo e uso de empresas
fornecedores, liberar pagamentos milionários por canais bancários utilizados para outras despesas, retirar parte do dinheiro em espécie e distribuir os recursos entre pessoas ligadas à administração.
Esse seria, segundo a Polícia Federal (PF), o funcionamento de um esquema instalado no Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), órgão que tem justamente a missão de fiscalizar a aplicação do dinheiro público.
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A engrenagem descrita pelos investigadores teria permitido a movimentação de R$ 75,85 milhões considerados suspeitos em apenas 294 dias, entre janeiro e outubro de 2025.
O dinheiro passava por contas oficiais do Tribunal, mas parte dos pagamentos não aparecia na folha convencional de remuneração nem correspondia aos valores divulgados no Portal da Transparência.

O mecanismo tinha, conforme a investigação, duas frentes principais.
A primeira envolvia empresas contratadas pelo TCE, que teriam sido pressionadas a devolver parte dos valores recebidos para manter seus pagamentos.
A segunda consistia na transferência de quantias milionárias a conselheiros, servidores e pessoas próximas ao grupo investigado.
Depois de depositados, os recursos seguiam caminhos diferentes.
Parte era retirada em dinheiro vivo, inclusive em uma agência bancária instalada dentro do próprio Tribunal.
Outra parcela teria sido transferida entre contas ou direcionada a empresas e estruturas patrimoniais.
É esse circuito financeiro que a Operação Tomada de Contas, deflagrada na quinta-feira (29), procura esclarecer.
A investigação levou à prisão preventiva do presidente do TCE, Sérgio Ricardo de Almeida, e de outras cinco pessoas, além do afastamento de 15 investigados.
Os detalhes estão na decisão de 28 páginas assinada pelo ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que autorizou as medidas solicitadas pela Polícia Federal.
A PRESSÃO SOBRE EMPRESAS – O primeiro mecanismo investigado teria começado com uma decisão administrativa aparentemente destinada à contenção de despesas.
Em agosto de 2024, a Presidência do TCE editou a Portaria nº 126, suspendendo temporariamente contratos administrativos por 90 dias.
O ato, entretanto, permitia exceções para serviços considerados essenciais e contratos cuja continuidade fosse autorizada pela própria administração.
Em outubro, a suspensão foi prorrogada até dezembro.
A suspeita da PF é de que as portarias tenham criado um instrumento de pressão sobre fornecedores.
Empresas que aceitassem devolver parte dos pagamentos recebidos teriam seus contratos mantidos e continuariam recebendo recursos, enquanto outras enfrentariam dificuldades.
Para verificar esse comportamento, os investigadores analisaram 1.624 pagamentos feitos a 94 empresas em 2024.
Desse universo, 55 fornecedores receberam recursos antes e depois da suspensão, enquanto 21 deixaram de receber após a edição da portaria.
Algumas empresas registraram aumentos expressivos nos valores pagos justamente durante o período de contenção de despesas.
Segundo a análise da PF, os acréscimos chegaram a 327% para a Medeiros & Curvo, 291% para a Zimmermann, 208% para a DMD e 206% para a AHS.
Essas variações, isoladamente, não comprovam irregularidades.
A investigação procura identificar se houve favorecimento e eventual exigência de vantagens indevidas para a liberação de pagamentos.
Os policiais também questionaram a justificativa orçamentária apresentada para a suspensão dos contratos.
Conforme os dados reunidos, o orçamento do Tribunal passou de R$ 763,8 milhões em 2023 para R$ 786,7 milhões em 2024 e R$ 826,3 milhões em 2025.
DINHEIRO FORA DA FOLHA – A segunda frente investigada envolve pagamentos realizados diretamente a conselheiros, servidores e outras pessoas físicas.
A Polícia Federal identificou uma estrutura de transferências que utilizava ordens bancárias avulsas e canais normalmente empregados para pagamentos a fornecedores.
Na prática, segundo a suspeita, recursos saíam de contas oficiais do TCE e chegavam aos destinatários sem passar pelos procedimentos convencionais de remuneração.
A investigação encontrou pagamentos avulsos destinados a 292 pessoas físicas.
O contraste entre os valores depositados nas contas bancárias e aqueles informados oficialmente chamou a atenção dos investigadores.
No caso de sete conselheiros investigados, foram identificados R$ 48,46 milhões em créditos bancários, enquanto os registros de remuneração divulgados pelo Tribunal apontavam R$ 2,22 milhões no período analisado.
Para Sérgio Ricardo, os extratos indicaram R$ 15,44 milhões em créditos, contra aproximadamente R$ 288,5 mil registrados oficialmente.
A diferença é um dos pontos centrais da apuração.
Os investigadores querem esclarecer a origem jurídica desses pagamentos e verificar se foram utilizados para distribuir recursos sem autorização legal.
O Ministério Público Federal sustenta que eventuais verbas indenizatórias também precisam estar fundamentadas em lei e observar os limites aplicáveis.
DO BANCO PARA AS MOCHILAS – A movimentação do dinheiro não terminava com os depósitos.
Uma das revelações mais importantes da investigação é a existência de uma estrutura para retirar grandes quantias em espécie e transportá-las dentro do próprio Tribunal.
A Polícia Federal identificou 150 saques atribuídos a Sérgio Ricardo, que totalizaram R$ 15,64 milhões.
Desse conjunto, 64 operações foram realizadas diretamente no caixa, somando R$ 15,47 milhões.
Parte das retiradas ocorreu no posto do Sicoob instalado nas dependências do TCE, onde câmeras de segurança registraram a presença de assessores e servidores envolvidos na movimentação do numerário.
Segundo a decisão judicial, a chefe de gabinete de Sérgio Ricardo, Roseli Loss, realizou saques que somaram R$ 3,52 milhões.
Em seis oportunidades, o dinheiro teria sido entregue a Adriangelo Barros Antunes, secretário executivo de comissão permanente e ex-cunhado do presidente do Tribunal.
Outro investigado, o consultor jurídico-geral Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, aparece em registros analisados pela PF acondicionando blocos de dinheiro em uma mochila após a preparação das cédulas por uma funcionária da agência.
Os assessores Gustavo Fernandes da Silva e Felipe José Glinke também são apontados como participantes da estrutura de movimentação financeira.
Para os investigadores, os registros indicam uma divisão de tarefas: enquanto alguns integrantes recebiam ou autorizavam pagamentos, outros realizavam saques, transportavam valores e cuidavam da circulação do dinheiro.
O DESTINO DOS MILHÕES – A Polícia Federal também investiga se empresas particulares foram utilizadas para dificultar o rastreamento dos recursos.
O principal destinatário individual identificado é Grhegory Paiva, que teria recebido R$ 32,31 milhões.
Desse total, R$ 31,64 milhões foram movimentados por meio de 179 ordens bancárias avulsas, distribuídas em 12 contas de nove instituições financeiras.
Os saldos e aplicações do consultor passaram de R$ 1,84 milhão, em janeiro de 2025, para R$ 7,61 milhões em outubro daquele ano.
Uma das empresas sob investigação é a Maia Reining Horses Ltda., constituída em julho de 2025 para atuar na criação de cavalos de raça e na comercialização de material genético dos animais, como sêmen e embriões.
A suspeita é de que negócios envolvendo animais de alto valor comercial tenham sido utilizados para dar aparência de legalidade a recursos cuja origem é investigada.
Outra estrutura examinada é a G.P.P.M.M. Participações e Empreendimentos Ltda., holding familiar vinculada ao consultor.
A Polícia Federal procura esclarecer se os aportes nessas empresas tiveram relação com os pagamentos suspeitos.
A existência de empreendimentos e a realização de operações patrimoniais, por si só, não comprovam lavagem de dinheiro.
O ALERTA QUE MUDOU OS SAQUES – Um episódio ocorrido em outubro de 2025 reforçou a suspeita de que os envolvidos adaptavam sua atuação para evitar a fiscalização.
No dia 14 daquele mês, policiais federais realizaram uma diligência na agência do Sicoob instalada no Tribunal.
A presença dos agentes foi identificada pelo sistema de controle de acesso do TCE, e eles chegaram a ser abordados pela segurança da instituição.
Depois da diligência, os saques de grande valor diminuíram temporariamente.
Para a Polícia Federal, essa mudança indica que os investigados podem ter percebido a investigação e alterado o modo de movimentar os recursos.
Segundo a decisão do STJ, o dinheiro passou a permanecer por mais tempo nas contas, houve aumento das aplicações financeiras e, posteriormente, os saques voltaram a ocorrer.
O documento registra novas operações em maio de 2026, além de pagamentos realizados pelo Tribunal nos primeiros meses deste ano.
Foi essa continuidade que levou o ministro Og Fernandes a considerar que o suposto esquema ainda poderia estar em funcionamento.
POR QUE A JUSTIÇA INTERVEIO – A Polícia Federal pediu a prisão preventiva de seis pessoas que, segundo a investigação, integravam o núcleo responsável pela execução das operações.
O Ministério Público Federal reconheceu a gravidade dos indícios, mas defendeu inicialmente medidas alternativas às prisões, como afastamento dos cargos, proibição de acesso ao Tribunal, monitoramento eletrônico e restrições patrimoniais.
O ministro Og Fernandes considerou essas providências insuficientes para Sérgio Ricardo, Grhegory Paiva, Gustavo Fernandes, Felipe Glinke, Roseli Loss e Adriangelo Barros.
Na avaliação do magistrado, a liberdade dos seis poderia permitir a continuidade das movimentações financeiras, a ocultação de patrimônio e interferências na produção de provas.
Outros 15 investigados foram submetidos a medidas cautelares, incluindo afastamento de funções, proibição de acesso ao TCE, restrições de contato e impedimento de deixar o país.
A Justiça também determinou a preservação de documentos, registros bancários, imagens de segurança e informações dos sistemas de pagamento.
O Sicoob deverá comunicar à Polícia Federal saques ou provisionamentos em espécie de R$ 10 mil ou mais nas contas dos investigados.
O QUE AINDA PRECISA SER ESCLARECIDO – A Operação Tomada de Contas busca determinar se recursos públicos foram desviados, quem teria se beneficiado dos pagamentos e qual foi o destino final do dinheiro.
Os R$ 75,85 milhões identificados pela investigação correspondem a movimentações consideradas suspeitas, e não a um prejuízo definitivamente comprovado aos cofres públicos.
Da mesma forma, os valores encontrados nas contas dos investigados não podem ser automaticamente classificados como dinheiro desviado.
A apuração envolve suspeitas de corrupção, concussão, peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
As prisões são preventivas e não representam condenação.
A responsabilidade de cada investigado dependerá das provas reunidas e da análise da Justiça, com garantia do direito de defesa.


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