Toxina botulínica, ácido hialurônico e fios de sustentação podem auxiliar na recuperação da simetria, de funções da face e na adaptação de próteses faciais
Perder parte do rosto em decorrência de um câncer, trauma ou doença congênita pode trazer impactos que vão além das alterações físicas. A reabilitação desses pacientes envolve recuperar funções, como fala e mastigação, mas também aspectos relacionados à autoestima, à convivência social e ao reconhecimento da própria imagem. Nesse processo, técnicas popularmente associadas à harmonização facial podem assumir uma finalidade diferente: contribuir para a reconstrução do que foi perdido.
Esse outro lado da harmonização ganha relevância em meio à retomada do debate sobre a atuação profissional na área, após a recente decisão da Justiça Federal que suspendeu a resolução do Conselho Federal de Odontologia sobre harmonização orofacial. Para especialistas que trabalham com reconstrução facial, a discussão também abre espaço para mostrar aplicações dessas técnicas que vão além da finalidade estética.
No Instituto Mais Identidade, organização sem fins lucrativos dedicada à reabilitação bucomaxilofacial, esses recursos são utilizados em conjunto com próteses projetadas e impressas em 3D para reconstruir regiões da face afetadas por tumores, acidentes e outras condições.
“Quando se fala em harmonização facial, é comum pensar imediatamente em estética. Mas algumas dessas técnicas também são ferramentas importantes no processo de reabilitação. Em pacientes que perderam parte da face, o objetivo pode ser recuperar simetria, função e favorecer a adaptação da prótese, contribuindo para que essa pessoa volte a se reconhecer”, explica o professor Luciano Dib, cirurgião bucomaxilofacial e presidente do Instituto Mais Identidade.
Da estética à reabilitação
A toxina botulínica, por exemplo, pode ser utilizada para reequilibrar o tônus muscular e amenizar assimetrias que permanecem após cirurgias ou traumas. Em pacientes submetidos à retirada de tumores da face, a perda ou alteração de estruturas pode modificar a dinâmica dos músculos e provocar diferenças entre os lados do rosto.
Um estudo realizado na Universidade Paulista (UNIP), sob orientação do professor Luciano Dib, documentou o uso combinado de toxina botulínica e preenchedores na reabilitação de pacientes oncológicos.
Já o ácido hialurônico pode ajudar a recuperar volumes perdidos e suavizar a transição entre os tecidos do paciente e uma prótese facial. O recurso também pode ser empregado na correção de depressões provocadas pela perda de tecido, contribuindo para o processo de reabilitação.
Os fios de sustentação, por sua vez, podem auxiliar no reposicionamento de tecidos moles que perderam tônus ou simetria depois de procedimentos cirúrgicos.
“São recursos conhecidos pelo público por sua aplicação estética, mas que podem assumir outra função dentro da reabilitação. Nesses casos, não estamos falando simplesmente de modificar uma aparência. Estamos buscando reconstruir o que foi perdido e oferecer condições para que o paciente retome aspectos importantes de sua vida”, afirma Dib.
Reconstruir o rosto também é reconstruir vínculos
Além das consequências físicas, a perda de uma estrutura facial pode afetar a maneira como uma pessoa se relaciona consigo mesma e com os outros. Por isso, a reabilitação não se limita à reconstrução anatômica.
Em atividade desde 2015, o Instituto Mais Identidade atua na recuperação física, social e emocional de pacientes com mutilações faciais. Somente em 2025, foram realizados cerca de 1,6 mil atendimentos por uma equipe multidisciplinar formada por cirurgiões-dentistas, médicos, psicólogos, fisioterapeutas, assistentes sociais, designers e protéticos.
As próteses faciais desenvolvidas pela instituição são planejadas para reproduzir estruturas perdidas, enquanto diferentes recursos clínicos podem ser associados ao tratamento de acordo com a necessidade de cada paciente.
“Para alguém que perdeu parte do rosto depois de um câncer ou de um trauma, voltar a se olhar no espelho, conversar, comer e conviver socialmente envolve muito mais do que estética. O rosto está diretamente relacionado à nossa identidade. Por isso, cada recurso que ajuda a reconstruí-lo também pode contribuir para a retomada da autonomia, da autoestima e da vida social”, diz Dib.
Para o especialista, o atual debate em torno da harmonização orofacial pode ajudar a ampliar a compreensão sobre essas técnicas e suas diferentes aplicações.
“É importante que a discussão seja qualificada e considere segurança, formação e responsabilidade profissional. Mas também é uma oportunidade para mostrar que técnicas popularizadas pela estética podem ter aplicações importantes na reabilitação. Dependendo do contexto, elas não estão relacionadas à vaidade, mas à possibilidade de uma pessoa recuperar funções e voltar a se reconhecer”, conclui.
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