• Professor Erick Olsen Terakado realiza atendimento a estudante no Serviço de Apoio Psicopedagógico (SUAPp)
    Professor Erick Olsen Terakado realiza atendimento a estudante no Serviço de Apoio Psicopedagógico (SUAPp)
    Alexsandra Izar

Pressão por desempenho, medo de julgamento e dificuldade de falar sobre emoções podem afastar jovens da busca por apoio

A vida universitária é marcada por mudanças que vão além da rotina acadêmica. Pressões relacionadas ao desempenho, questões financeiras, relacionamentos, vida social e incertezas sobre o futuro podem afetar a saúde mental dos estudantes. Mesmo diante de sinais de sofrimento emocional, porém, muitos jovens têm dificuldade de reconhecer o que estão vivendo ou de procurar ajuda.

O sofrimento nem sempre aparece como tristeza ou como um pedido direto de apoio. Mudanças em relação ao comportamento habitual, isolamento, queda no desempenho, faltas recorrentes, dificuldade de concentração e perda de interesse por atividades antes consideradas significativas podem indicar que algo não vai bem.

O psiquiatra e professor da Unoeste Dr. Rondinelli Salvador explica que esses sinais precisam ser observados considerando o contexto e o funcionamento habitual de cada pessoa, sem transformar automaticamente um comportamento em diagnóstico.

Outro ponto de atenção é o aumento do consumo de álcool ou outras drogas associado a mudanças de comportamento. Quando o sofrimento se intensifica e envolve situações como ideação suicida, comportamento de autolesão ou sintomas psicóticos, a busca por atendimento profissional deve ser imediata.

É nesse contexto que o Setembro Amarelo amplia a discussão sobre a importância da escuta, da presença e da construção de redes de apoio para pessoas em sofrimento.

Por que pedir ajuda pode ser tão difícil?

A transição para a vida universitária pode reunir diferentes fontes de pressão ao mesmo tempo. Para Rondinelli, parte dessa dificuldade está relacionada à forma como o sofrimento é interpretado pelo próprio jovem.

Segundo o especialista, o estudante pode aprender que precisa ser produtivo, autônomo e emocionalmente funcional praticamente o tempo todo. Nesse cenário, admitir que não está bem pode ser entendido como sinal de fraqueza ou incapacidade.

A psicóloga e professora da Unoeste Ana Karina Barreiros relaciona essa dificuldade a um contexto social que valoriza desempenho, resultados, produção e consumo, mas oferece pouco espaço para o contato com as emoções e com a sensibilidade humana.

O medo de julgamento, exposição ou constrangimento também pode fazer com que o estudante prefira enfrentar o sofrimento sozinho. Por isso, criar ambientes nos quais seja possível falar sobre emoções sem preconceito ou julgamento é parte importante da prevenção.

Quando é hora de buscar ajuda profissional?

Nem toda alteração emocional significa necessariamente um transtorno ou uma situação de risco. A duração do sofrimento, o impacto no funcionamento cotidiano, nos relacionamentos e nos estudos e a intensidade dos sintomas são alguns dos aspectos que ajudam a compreender quando é necessário buscar avaliação profissional.

A atenção deve aumentar quando o sofrimento é persistente, compromete diferentes áreas da vida, vem acompanhado de desesperança intensa ou envolve situações de risco.

Para quem convive com o estudante, uma mudança importante em relação ao comportamento habitual pode ser um motivo para se aproximar e perguntar como ele está. A abordagem, no entanto, deve ser cuidadosa.

“Podemos oferecer escuta com qualidade de presença e acolhimento em ambiente privado, dialogando sem julgamentos e preconceitos”, orienta Ana Karina.

A escuta de amigos, familiares e professores pode ser importante, mas não substitui o acompanhamento de profissionais de saúde mental quando ele é necessário.

Onde entra a universidade na rede de apoio?

Além da rede formada por familiares, amigos e outras relações de confiança, o estudante pode contar com serviços especializados dentro da própria universidade.

Na Unoeste, o Serviço de Apoio Psicopedagógico (SUAPp) oferece atendimento a estudantes e colaboradores. O serviço, que completa 11 anos em 2026, realiza sessões de 50 minutos, de forma presencial ou on-line, considerando que a equipe atende diferentes unidades.

De acordo com o professor e um dos psicólogos responsáveis pelo atendimento no serviço, Erick Olsen Terakado, o atendimento começa com uma escuta acolhedora e busca compreender a queixa, o contexto e a história do estudante. A partir dessa avaliação, podem ser feitas orientações e encaminhamentos quando necessários.

“As demandas que chegam são diversas e incluem dificuldades de adaptação ao início do semestre ou do curso, retorno aos estudos após períodos de afastamento, dificuldades relacionadas à atenção e à memória, problemas de relacionamento que interferem na vida acadêmica e questões de saúde ou familiares que repercutem no desempenho”.

O estudante pode procurar o serviço diretamente. Também são comuns encaminhamentos realizados por professores e coordenações, além de situações em que o próprio SUAPp realiza busca ativa.

IA pode parecer uma alternativa mais fácil para desabafar

Em meio à dificuldade de conversar sobre sentimentos, uma nova possibilidade passou a fazer parte da rotina de muitos jovens: a inteligência artificial.

A disponibilidade imediata, inclusive fora do horário comercial, a sensação de controle sobre a conversa e a percepção de que não haverá julgamento podem fazer com que a tecnologia pareça um espaço mais confortável para falar sobre questões pessoais.

A utilização da IA, porém, traz uma questão que vai além da tecnologia: por que, para alguns estudantes, parece mais fácil falar com uma máquina do que com uma pessoa?

Para Rondinelli, a ferramenta pode, em determinadas situações, ajudar a organizar pensamentos ou até facilitar uma busca posterior por ajuda. Isso não significa, entretanto, que uma conversa com inteligência artificial possa substituir vínculo, acompanhamento e responsabilidade clínica.

“A inteligência artificial não substitui vínculo, não substitui responsabilidade clínica”, ressalta.

O que a dificuldade de pedir ajuda revela?

O crescimento do uso de ferramentas de IA para conversar sobre questões emocionais também pode ser entendido como um convite para olhar para o ambiente ao redor dos estudantes.

Se um jovem se sente mais seguro para revelar seu sofrimento a uma máquina do que a alguém próximo, é importante perguntar se ele encontra, nas relações que mantém, tempo para ser ouvido, confiança e espaços de acolhimento.

Nesse sentido, a discussão sobre saúde mental dos estudantes não se limita à existência de serviços especializados. Ela envolve também a construção de relações nas quais pedir ajuda não seja percebido como fracasso.

Apoio disponível

Na Unoeste, o Serviço de Apoio Psicopedagógico (SUAPp) atende estudantes e colaboradores de forma presencial e on-line. O serviço realiza escuta inicial, busca compreender a demanda apresentada e, quando necessário, orienta e encaminha para outros atendimentos.

A procura pode ser feita pelo próprio estudante, e professores e coordenações também podem encaminhar casos para avaliação. O serviço ainda realiza busca ativa em determinadas situações.

Fontes disponíveis para entrevista:

Dr. Rondinelli Salvador — psiquiatra e professor da Unoeste. Pode abordar sinais de sofrimento emocional, dificuldade de pedir ajuda, situações de risco e limites do uso da inteligência artificial.

Ana Karina Barreiros — psicóloga e professora da Unoeste. Pode falar sobre escuta, acolhimento, julgamento, pressão por desempenho e formas de abordagem de estudantes em sofrimento.

Erick Olsen Terakado — professor do Serviço de Apoio Psicopedagógico (SUAPp). Pode explicar como funciona o atendimento oferecido aos estudantes e as principais demandas que chegam ao serviço.

 

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