Com tirzepatida aprovada pela Anvisa para adultos com obesidade e apneia obstrutiva do sono, medicamento amplia as opções terapêuticas, mas não substitui automaticamente o CPAP

Quem pensa em apneia do sono costuma associar o problema imediatamente ao ronco e às pausas na respiração durante a noite. Mas a doença também está fortemente relacionada ao excesso de peso, que pode favorecer o estreitamento das vias aéreas durante o sono. Nesse contexto, um medicamento que ficou conhecido principalmente pelo tratamento do diabetes e pela perda de peso passou a integrar também a discussão sobre o controle da apneia: a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro.


A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou uma nova indicação do medicamento para adultos com obesidade e apneia obstrutiva do sono, ampliando as possibilidades de tratamento para um grupo específico de pacientes. A decisão se baseia em evidências de que a redução do peso pode diminuir a gravidade da doença. 


A relação entre as duas condições é bastante direta. Na obesidade, o acúmulo de gordura pode ocorrer também na região do pescoço, nas paredes da faringe e na língua. Durante o sono, quando a musculatura das vias aéreas naturalmente relaxa, esse excesso de tecido pode contribuir para o estreitamento ou fechamento da passagem de ar.


“A obesidade é considerada um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento da apneia obstrutiva do sono. Isso ocorre pelo acúmulo de gordura cervical, nas paredes faríngeas e na língua, diminuindo o lúmen da faringe e propiciando o fechamento mais facilitado da faringe”, explica o otorrinolaringologista Dr. Lucas Vaz Padial, especialista em distúrbios do sono do Hospital Paulista.


O que os estudos descobriram?


A relação entre perda de peso e melhora da apneia ganhou força com o estudo internacional SURMOUNT-OSA, publicado no New England Journal of Medicine. A pesquisa acompanhou adultos com apneia obstrutiva do sono moderada a grave e obesidade durante 52 semanas e avaliou os efeitos da tirzepatida sobre a doença. 


Os pesquisadores observaram redução significativa do índice de apneia-hipopneia (IAH) — medida utilizada para quantificar o número de episódios de interrupção ou redução da respiração durante uma hora de sono —, além de redução do peso corporal e da carga de hipóxia, que corresponde ao tempo em que o organismo permanece com níveis reduzidos de oxigênio.


O estudo também identificou redução da pressão arterial sistólica (o chamado ‘número de cima’ da medição da pressão) e melhora em indicadores relacionados à qualidade do sono. 


A pesquisa avaliou dois grupos: pacientes que não utilizavam terapia com pressão positiva nas vias aéreas e aqueles que já faziam uso do tratamento. Os resultados reforçam que a tirzepatida pode atuar sobre um dos principais fatores associados à doença, mas não significa que todos os pacientes possam abandonar tratamentos já prescritos. 


Isso significa que o Mounjaro substitui o CPAP?


Não necessariamente. O CPAP continua sendo uma das principais ferramentas para manter as vias aéreas abertas durante o sono. A questão é que a apneia pode ter múltiplas causas, e a obesidade pode ser apenas uma delas. “A tirzepatida é mais uma modalidade de tratamento dessa doença. Muitas vezes, o fechamento da faringe ocorre por múltiplas causas, sendo a obesidade uma delas. Nesse sentido, talvez a medicação isoladamente não consiga resolver o problema, ainda sendo necessário o uso do CPAP ou outros tratamentos complementares”, explica Padial.


Por outro lado, quando o excesso de peso é o principal fator relacionado à obstrução, uma perda expressiva de peso pode modificar significativamente o quadro. “Quando a obesidade é o único fator, há a possibilidade de descalonar o tratamento com CPAP caso haja uma perda expressiva de peso. Saber se ele pode ser o único tratamento ocorre apenas após uma avaliação com o especialista”, afirma.


Ou seja: perder peso pode reduzir a gravidade da apneia, mas não significa que o paciente deva simplesmente interromper o CPAP por conta própria. A necessidade de manutenção, redução ou eventual suspensão do tratamento deve ser determinada após nova avaliação médica.


Nem todo paciente com apneia e excesso de peso terá o mesmo resultado


Outro ponto importante é que o peso corporal, isoladamente, não explica todos os casos. Existem pacientes que, mesmo sem apresentar grande acúmulo de gordura em outras regiões do corpo, podem ter maior depósito de tecido adiposo na língua. Segundo o especialista, essa característica é influenciada principalmente pela genética e pode contribuir para a obstrução das vias aéreas.


“Pacientes cuja principal causa seja a obesidade e o acúmulo de gordura na faringe são os que podem se beneficiar dessa abordagem. Existem alguns pacientes que, mesmo que não tenham obesidade central no corpo, possuem a capacidade de acúmulo de gordura na língua. Esses pacientes, mesmo com graus menores de obesidade definidos pelo IMC, também podem ser impactados por isso”, explica.


Por esse motivo, a indicação não deve ser baseada simplesmente no número apresentado pela balança. “A avaliação completa sempre deve ser acompanhada por um médico do sono, que irá avaliar o quanto cada fator de risco contribui na gênese daquela doença em específico”, orienta.


E quem tem apneia, mas não é obeso?


Nesse caso, a tirzepatida tende a ter pouca utilidade para controlar a doença. Isso porque, quando o paciente não apresenta obesidade, outros mecanismos podem estar por trás da obstrução, como características anatômicas das vias aéreas, alterações nasais ou outros fatores que precisam ser investigados individualmente.

“Para pacientes que não possuem obesidade, dificilmente a medicação trará resultados no controle da doença, especialmente quando existem outros fatores, como alterações anatômicas”, alerta Padial.


Uso indiscriminado preocupa especialistas


A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” também exige cautela. A aprovação da tirzepatida para determinados pacientes com apneia não significa que o medicamento possa ser utilizado por qualquer pessoa que ronca ou tenha dificuldade para dormir.


“Está sendo muito difundido o uso da tirzepatida indiscriminadamente. É importante observar que não é um tratamento isento de efeitos colaterais e deve ser acompanhado por médicos especialistas, principalmente o endocrinologista”, ressalta o médico.


Além disso, a Anvisa determinou que medicamentos agonistas de GLP-1, grupo que inclui a tirzepatida, sejam vendidos com retenção de receita. A Agência também vem adotando medidas contra produtos irregulares e falsificados à base de tirzepatida. Em julho de 2026, por exemplo, determinou a apreensão de um lote falsificado de Mounjaro e orientou a população a adquirir medicamentos somente em farmácias regularizadas, com embalagem completa e nota fiscal. 


Uma nova ferramenta, não uma solução milagrosa


A chegada da tirzepatida ao tratamento da apneia representa uma mudança importante porque permite atuar sobre um dos fatores que podem contribuir para o desenvolvimento e a gravidade da doença: a obesidade.

Mas a novidade não transforma o medicamento em uma solução universal para quem ronca ou apresenta pausas respiratórias durante o sono. O diagnóstico da apneia, a identificação de suas causas e a avaliação individualizada continuam sendo fundamentais para determinar a estratégia mais adequada. “A tirzepatida é mais uma modalidade de tratamento dessa doença”, resume Padial.


Sobre o Hospital Paulista 
Fundado em 1974, o Hospital Paulista de Otorrinolaringologia possui cinco décadas de tradição no atendimento especializado em ouvido, nariz e garganta e, durante sua trajetória, ampliou sua competência para outros segmentos, com destaque para Fonoaudiologia, Alergia Respiratória e Imunologia, Distúrbios do Sono, procedimentos para Cirurgia Cérvico-Facial, bem como Buco Maxilo Facial e Foniatria. Referência em seu segmento e com alta resolutividade, conta com um completo Centro de Medicina Diagnóstica em Otorrinolaringologia. Dispõe de profissionais de alta capacidade oferecendo excelentes condições de suporte especializado 24 horas por dia.

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