
O inverno costuma concentrar a atenção sobre gripes e outras doenças respiratórias, mas o impacto do frio também alcança o sistema cardiovascular. Entre janeiro e a segunda semana de março de 2026, as internações de pessoas com 60 anos ou mais por Síndrome Respiratória Aguda Grave associada à influenza cresceram 153% no Brasil em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados do SIVEP-Gripe. O alerta ganha peso porque o Instituto Nacional de Cardiologia aponta aumento médio de até 30% nos casos de infarto e 20% nos de AVC durante o inverno, especialmente entre pessoas mais velhas e com fatores de risco cardiovascular.
Para Rafael Figueroa, CEO e cofundador do Portal Telemedicina, o risco ainda costuma ser subestimado porque sintomas respiratórios e cardiovasculares são tratados como problemas separados. “Uma gripe não deve ser vista como um evento isolado em idosos, hipertensos, diabéticos ou pessoas que já possuem doença cardiovascular. A infecção provoca uma resposta inflamatória no organismo e pode aumentar a sobrecarga sobre o coração justamente em pacientes que já apresentam maior vulnerabilidade. Por isso, piora do cansaço, falta de ar, dor no peito ou alterações neurológicas exigem avaliação rápida”, afirma.
A relação entre infecções respiratórias e eventos cardiovasculares também aparece em estudos internacionais. Pesquisa publicada no New England Journal of Medicine encontrou uma incidência de hospitalização por infarto 6,05 vezes maior nos sete dias seguintes à confirmação laboratorial da influenza do que nos períodos de controle analisados. Outro estudo da mesma publicação identificou aumento transitório do risco tanto de infarto quanto de AVC após infecções respiratórias. Nesse cenário, o diagnóstico precoce ganha relevância não apenas para tratar a infecção, mas também para reconhecer pacientes que podem evoluir com complicações cardiovasculares nos dias seguintes.
Segundo Figueroa, ampliar o acesso à avaliação médica pode ajudar a reduzir o intervalo entre o aparecimento dos sintomas e a identificação de sinais de risco. “A telemedicina permite fazer uma primeira avaliação rapidamente, entender o histórico do paciente e identificar quando aquele quadro aparentemente respiratório precisa de investigação presencial ou encaminhamento imediato. O objetivo não é substituir o atendimento de urgência, mas evitar que pessoas com maior risco esperem a piora dos sintomas para procurar ajuda. No inverno, essa conexão entre infecção respiratória e saúde cardiovascular precisa estar muito mais presente na orientação ao paciente”, conclui.

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