Expectativas irreais, imagem corporal e sofrimento emocional podem mudar a indicação de um procedimento e mostram por que psicologia e cirurgia não ocupam lados opostos no cuidado com o paciente
O Brasil realizou 2,35 milhões de cirurgias estéticas nos últimos dois anos e liderou o ranking mundial de procedimentos cirúrgicos, segundo a International Society of Aesthetic Plastic Surgery, a ISAPS. O volume ajuda a dimensionar uma discussão que começa antes da sala de operação: até que ponto uma insatisfação com a aparência pode ser resolvida por uma cirurgia plástica? A resposta passa também pela saúde mental, pelas expectativas e pela forma como cada pessoa percebe o próprio corpo.
Para Marco Dallegrave, médico, cirurgião plástico e especialista em Psiquiatria, a avaliação emocional ajuda a diferenciar uma queixa física objetiva de uma expectativa que nenhuma transformação corporal é capaz de atender. “A cirurgia plástica e a saúde mental não são concorrentes. Existe uma diferença importante entre querer modificar uma característica física que gera incômodo e esperar que uma operação resolva um sofrimento emocional mais amplo. Identificar essa fronteira também faz parte da segurança do paciente”, afirma Dallegrave.
Quando a insatisfação vai além da aparência
Um estudo publicado em 2026 na revista "Aesthetic Plastic Surgery" avaliou 149 pacientes que buscavam cirurgia plástica facial e validou uma ferramenta para identificar possíveis sinais de transtorno dismórfico corporal. O instrumento apresentou sensibilidade de 88,6% e especificidade de 77,2%.
O transtorno dismórfico corporal envolve uma preocupação intensa com defeitos percebidos na aparência. A triagem não substitui uma avaliação especializada em saúde mental, mas pode ajudar o médico a reconhecer situações em que a indicação cirúrgica exige mais cautela.
O debate sobre a relação entre cirurgia plástica e saúde mental ganhou força à medida que aumentaram as discussões sobre imagem corporal, influência das redes sociais e expectativas em torno de procedimentos estéticos. Estudos recentes passaram a dar mais atenção não apenas ao resultado técnico da cirurgia, mas também à motivação do paciente, à percepção que ele tem do próprio corpo e ao impacto dessas expectativas na satisfação após o procedimento. Uma revisão publicada em 2026 na revista Patient Education and Counseling, por exemplo, destacou a importância de avaliar fatores psicológicos e a influência das redes sociais durante a consulta estética.
A mudança de abordagem também acompanha uma compreensão mais ampla sobre segurança do paciente. Para o cirurgião plástico, avaliar o estado emocional não significa desencorajar procedimentos, mas identificar quando a expectativa é compatível com aquilo que uma cirurgia pode oferecer e quando existe uma questão que precisa ser acompanhada por outro profissional de saúde.
“Uma pessoa pode ter uma queixa estética legítima e, ao mesmo tempo, precisar cuidar de aspectos emocionais relacionados à própria imagem. Uma coisa não invalida a outra. O importante é compreender o que a cirurgia pode entregar e o que precisa ser tratado por outro caminho”, destaca o cirurgião plástico.
A expectativa pode mudar a indicação
A forma como o paciente imagina o resultado também passou a receber maior atenção na literatura médica. Uma revisão publicada em 2026 na revista Patient Education and Counseling colocou o gerenciamento das expectativas entre os pontos centrais da consulta em cirurgia estética e destacou a influência das redes sociais sobre a percepção dos resultados. O trabalho aponta que expectativas não atendidas aparecem em 14,4% das queixas relacionadas à responsabilidade profissional em cirurgia plástica, ante 3,8% nas demais especialidades analisadas.
Para o especialista em Psiquiatria, o alerta surge quando a mudança física recebe a responsabilidade de solucionar questões que estão fora do alcance de um procedimento.
“A cirurgia pode melhorar a relação do paciente com uma característica corporal que realmente o incomoda. Ela não consegue garantir aprovação social, salvar um relacionamento ou eliminar inseguranças profundas. Quando o bisturi recebe essa função, existe uma expectativa que precisa ser discutida antes”, ressalta o médico.
Outra revisão sistemática, publicada em janeiro de 2026 sobre rinoplastia estética, encontrou associação entre condições anteriores de saúde mental, como ansiedade, depressão e transtorno dismórfico corporal, e menor satisfação depois da cirurgia, inclusive quando o resultado técnico foi considerado adequado. Os pesquisadores defendem que motivação, expectativas e preparo psicológico fazem parte da avaliação do paciente.
Saber não operar também faz parte da medicina
Isso não significa que ansiedade, baixa autoestima ou acompanhamento psicológico impeçam automaticamente uma cirurgia plástica. A indicação deve ser individual. Busca por perfeição, desejo de reproduzir filtros das redes sociais, insatisfação persistente depois de diferentes intervenções ou sofrimento desproporcional diante de pequenas características físicas podem justificar uma análise mais aprofundada.
Para Dallegrave, a avaliação antes da cirurgia não termina nos exames clínicos ou na escolha da técnica. Entender por que o paciente deseja operar e o que espera sentir depois do procedimento também interfere na segurança e na possibilidade de satisfação com o resultado.
“Uma boa indicação começa entendendo por que aquela pessoa quer operar e o que ela imagina que vai mudar depois. Quando existe uma queixa objetiva, expectativa realista e maturidade para compreender os limites do resultado, cirurgia plástica e saúde mental podem caminhar juntas. Quando a origem do sofrimento é outra, saber não operar também é parte da medicina”, conclui Dallegrave.
Sobre Marco Dallegrave
Dr. Marco Dallegrave é médico formado pela Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná (FEMPAR), com residência em Cirurgia Geral pela Santa Casa de Curitiba e residência em Cirurgia Plástica pelo Hospital Universitário Cajuru, em Curitiba (PR). Também possui pós-graduação em Psiquiatria pelo CENBRAP, formação que complementa sua visão sobre os aspectos emocionais e psicológicos envolvidos na relação dos pacientes com a própria imagem.
Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), atua há 21 anos na especialidade e já realizou mais de 5 mil cirurgias. Sua prática é voltada à cirurgia plástica estética, com ênfase em procedimentos de contorno corporal, mini lipoaspiração de recuperação rápida e cirurgias das mamas.
Ao longo da carreira, consolidou uma abordagem que alia excelência técnica, segurança e atendimento humanizado. Defende que a cirurgia deve respeitar a individualidade de cada paciente e ser compreendida como parte de um cuidado integral com a saúde e o bem-estar, e não apenas como uma transformação estética.
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Fontes de Pesquisa:
ISAPS Global Survey 2024
https://www.isaps.org/media/lcvdjt1f/isaps-global-survey_2024.pdf
Preoperative Screening for Body Dysmorphic Disorder in Facial Plastic Surgery Protocol Development and Validation
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41526735/
Expectation Management and Patient Surgeon Communication in Aesthetic Surgery
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41653542/
Psychosocial Factors Surrounding Aesthetic Rhinoplasty A Systematic Review
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41541245/
Megan Fox says she has body dysmorphia
https://www.latimes.com/entertainment-arts/movies/story/2023-05-16/megan-fox-body-dsymorphia-sports-illustrated-legacy
Megan Fox Reveals the Plastic Surgery She Has and Hasnt Done
https://www.vanityfair.com/style/megan-fox-reveals-the-plastic-surgery-she-has-and-hasnt-done-and-her-very-specific-pre-op-requirements
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