Entre consultas, internações e longos períodos de tratamento, dois pais descobriram que algumas das maiores lições da vida vieram justamente dos filhos
O Dia dos Pais costuma homenagear quem ensina, protege e conduz os filhos ao longo da vida. Para Eliton Júnior e Carlos Lopes, porém, a data também carrega outra lembrança: a de que algumas das maiores lições que receberam vieram justamente de quem mais precisavam cuidar.
Quando um filho é diagnosticado com câncer, toda a família entra em tratamento. A rotina passa a ser marcada por consultas, internações, exames e ciclos de quimioterapia. É nesse processo que muitos pais descobrem que, além de cuidar, também aprendem. Aprendem sobre coragem ao observar os filhos enfrentarem procedimentos difíceis, sobre resiliência diante das incertezas e sobre a importância de valorizar cada momento.
Foi o que aconteceu com Eliton Júnior, de 26 anos, pai de Maitê (2). Em 2025, ela foi diagnosticada com hepatoblastoma, um tipo raro de câncer no fígado. Vieram a cirurgia para retirada do tumor, meses de quimioterapia e, depois, a boa notícia de que as metástases pulmonares haviam desaparecido. Hoje, a família vive a fase do acompanhamento, mas as marcas deixadas pelo tratamento permanecem. "Virou tudo de cabeça para baixo", resume.
Enquanto a esposa permanecia acompanhando Maitê, ainda em fase de amamentação, Júnior precisava dividir os dias entre o trabalho como motorista de aplicativo e a rotina do hospital. Era ele quem fazia diariamente o trajeto entre casa e o hospital Santa Marcelina Saúde, em Itaquera, que, com o apoio da TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer), mantém um centro de referência no tratamento do câncer infantojuvenil. Era ele quem levava roupas limpas e tudo o que a menina precisava durante a internação. Nos intervalos entre uma viagem e outra ao hospital, conciliava o trabalho para garantir o sustento da família.
"O impacto foi em tudo: psicologicamente, financeiramente e sentimentalmente. Abrimos mão de tudo para cuidar dela. Eu não perdi um dia de visita. Fazia esse caminho todos os dias entre casa e hospital e tentava encaixar o trabalho nos intervalos."
Mas foi justamente observando a filha enfrentar um tratamento tão duro que ele percebeu que o maior aprendizado daquela jornada não seria sobre medicina ou superação, mas sobre a própria maneira de viver.
"Eu via tudo o que ela estava passando, toda a dor. Enquanto eu chorava, tinha medo, pensava nas dívidas e na possibilidade de perdê-la, a Maitê, que estava vivendo tudo aquilo na pele, era forte e resistente. Foi com ela que aprendi a ser mais forte."
Mais do que isso, Júnior diz que aprendeu a valorizar aquilo que antes parecia comum. "Aprendi a dar valor aos momentos. Cada instante perto dela passou a ter outro significado."
A história de Carlos Lopes, de 39 anos, seguiu um caminho diferente, mas o aprendizado foi igualmente transformador. Pai solo de cinco filhos, ele já dividia o tempo entre o trabalho e os cuidados da casa quando Miguel (11) começou a reclamar de fortes dores de cabeça. Vieram consultas, encaminhamentos para o oftalmologista e exames que inicialmente não apontavam alterações. Somente quando o menino passou a apresentar desvio no olhar, uma tomografia revelou um tumor cerebral raro.
Após a realização de biópsias para confirmação do diagnóstico, veio o início do tratamento e a longa espera pela notícia que toda família deseja ouvir. "Quando o médico falou que o tumor tinha sumido, eu não acreditei. Comecei a chorar. Olhei para ele e falei: 'Filho, seu tumor sumiu'. E ele começou a chorar comigo."
Ao longo daquele período, Carlos percebeu que o tratamento não havia mudado apenas a vida do filho. Havia mudado também a sua forma de ser pai. "Eu era muito fechado. Minha vida era trabalhar e voltar para casa. Hoje não, o fim de semana é deles. Faço churrasco em casa, almoço com eles, janto com eles. O Miguel me ensinou a dar mais atenção aos meus filhos”.
A mudança foi percebida também por Miguel. Quando perguntado sobre o que o pai fez de mais importante durante o tratamento, a resposta veio de forma simples. "Ele cuidou de mim. Antes trabalhava bastante. Agora fica muito mais com a gente."
Embora tenham vivido trajetórias diferentes, Júnior e Carlos chegaram à mesma conclusão: durante o tratamento, descobriram que ser pai também significa aprender. Aprender a desacelerar, a enxergar valor nos pequenos momentos e a compreender que presença, muitas vezes, vale mais do que qualquer palavra.
As duas famílias foram assistidas pela TUCCA, organização que há mais de 25 anos atua para ampliar o acesso ao tratamento oncológico infantojuvenil pelo SUS, em colaboração com o Serviço de Oncologia Pediátrica do Santa Marcelina Saúde, na Zona Leste de São Paulo. A experiência de Júnior e Carlos reflete uma realidade compartilhada por milhares de brasileiros que, todos os anos, têm a rotina transformada pelo diagnóstico de um câncer na infância ou na adolescência.
Câncer no Brasil
No Brasil, o câncer infantojuvenil segue como a principal causa de morte por doença não acidental entre crianças e adolescentes, embora represente cerca de 3% dos diagnósticos. A estimativa é de 7.560 novos casos por ano.
“O câncer em crianças e adolescentes é completamente diferente daqueles em adultos. São tumores embrionários, de crescimento muito rápido, mas que, quando tratados adequadamente e no tempo certo, têm altíssimas chances de cura. O problema é que nem todas as crianças brasileiras têm acesso ao que é necessário”, explica o oncologista pediátrico Sidnei Epelman, diretor do Serviço de Oncologia Pediátrica do Santa Marcelina Saúde e fundador e presidente da TUCCA.
Nesse cenário, identificar a doença precocemente representa apenas uma parte do caminho. A rapidez no encaminhamento para serviços especializados e o acesso a exames de alta complexidade também são determinantes para definir a estratégia terapêutica e ampliar as chances de cura.
“O diagnóstico precoce é fundamental, mas é essencial lembrar que não basta diagnosticar cedo se a criança não tem acesso rápido a um centro de referência capaz de fazer exames histológicos, moleculares, genéticos, de imagem e oferecer tratamento completo. Sem isso, a chance de cura também despenca. Cada paciente é único. E é preciso fazer com que as terapias que oferecemos hoje sejam ainda mais precisas e melhores do que as de ontem”, finaliza Sidnei Epelman.
Sobre a TUCCA
Fundada em 1998 pelo oncologista pediátrico Sidnei Epelman e pela psicanalista Claudia Epelman (in memoriam), a TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer) é uma organização sem fins lucrativos que desenvolveu um modelo pioneiro de parceria público-privada na oncologia pediátrica que atende pacientes do Brasil e da América Latina.
Em parceria com o Santa Marcelina Saúde - hospital de alta complexidade na Zona Leste de São Paulo -, mantém o primeiro e único serviço dedicado ao tratamento do câncer infantojuvenil da região, oferecendo tratamento integral baseado em diagnóstico rápido e preciso, terapias de ponta, equipe altamente qualificada e medicamentos de alto custo. Todo o tratamento é gratuito, viabilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) complementado com doações que garantem acesso a atendimento multidisciplinar de excelência e a toda a assistência necessária ao longo do tratamento.
A estrutura abrange desde o atendimento ambulatorial, para infusões e consultas, até toda a infraestrutura de internação, garantindo suporte completo a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. A assistência vai além do cuidado médico e inclui suporte social e emocional por meio de uma equipe multidisciplinar que acompanha os pacientes e suas famílias durante toda a jornada.
Entre os diferenciais estão o Centro de Atenção Integrada à Criança com Retinoblastoma, referência nacional no tratamento da doença, um Laboratório de Patologia Molecular (o primeiro para pacientes SUS em São Paulo, que beneficia pessoas de todo o Brasil e da América Latina desde 2018), o primeiro hospice pediátrico do país, inaugurado em 2013, e transporte gratuito para eliminar barreiras de acesso ao tratamento. Esse olhar humanizado tem resultado em índices de cura de 80%, taxa comparável à dos principais centros de referência em oncopediatria da Europa e dos Estados Unidos. Nesse contexto, a TUCCA | Santa Marcelina Saúde é a primeira organização da América Latina a integrar o programa global de câncer pediátrico do Memorial Sloan Kettering Cancer Center (MSK), fortalecendo o intercâmbio de conhecimento, protocolos e inovação.
Ao longo de mais de 25 anos, a parceria com o Santa Marcelina Saúde já beneficiou aproximadamente 6 mil crianças e jovens, provando que é possível democratizar a excelência oncológica quando há sinergia entre capacidade instalada e investimento estratégico por meio da filantropia. Toda essa estrutura é integralmente mantida por doações, patrocínios e eventos beneficentes, reforçando o compromisso da TUCCA com a saúde, a vida e a dignidade de seus pacientes.
Para apoiar ou saber mais: www.tucca.org.br


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