Médico Fausto Flor Carvalho apresenta o que falta na educação dos filhos com base no que viu e ouviu ao longo da carreira

Ninguém é preparado para ser pai. Aprende-se no susto, repetem-se os modelos herdados e, quando se percebe, os filhos já cresceram.
 
Entre a jornada de trabalho, as contas e o cansaço, muitos pais descobrem tarde demais que criar um filho exige mais presença do que provisão e que boa parte das dúvidas sobre educação nunca encontra resposta pronta.
 
É a esse pai, cheio de boa vontade e de incertezas, que o pediatra e psicanalista Fausto Flor Carvalho se dirige em "Bom pai, mau pai", publicado pela LC Books. Reunindo mais de duas décadas de consultório, referências da psicanálise e a própria experiência como pai de dois filhos, o autor propõe um caminho mais consciente para exercer a paternidade, sem a cobrança de acertar o tempo todo.
 
A seguir, ele apresenta as lições extraídas dessa reflexão, todas aplicáveis a qualquer pai, de qualquer crença. Elas não prometem fórmulas infalíveis, mas ajudam a olhar a própria paternidade com mais honestidade e menos culpa.
 
1. Estar presente é diferente de estar por perto
 
Dá para dividir o mesmo sofá e, ainda assim, estar ausente. Carvalho chama de "abandono virtual" a forma mais comum de negligência dos nossos dias: filhos que ficam em segundo plano enquanto os pais rolam a tela do celular. Presença de verdade exige olho no olho, tempo sem pressa e atenção plena. A tecnologia aproxima quem está longe e afasta quem está perto, não deixe que ela roube seus filhos.
 
2. Não seja neutro na vida dos filhos
 
A neutralidade ajuda em muitas áreas da vida, mas na criação dos filhos costuma virar omissão. Crianças e adolescentes precisam de limites claros e de adultos que se posicionem, inclusive quando isso desagrada. Silenciar diante de um erro grave não é tolerância; é abrir mão da função de educar. Filho sem limite não se sente livre; sente-se perdido.
 
3. Estimule qualidades, não só corrija defeitos
 
Muitos pais têm o olhar treinado para o que está errado e cego para o que está certo. O resultado são filhos que crescem ouvindo mais críticas do que reconhecimento. Identificar e nomear as forças de cada criança, como a generosidade, a curiosidade, a coragem, constrói autoestima e direção. O que você elogia num filho tende a crescer.
 
4. Cuidado com o favoritismo entre irmãos
 
Poucas coisas marcam tanto quanto crescer sentindo-se o filho menos amado. O favoritismo raramente é declarado, pois mora nos detalhes, na atenção, na paciência, na foto que se tira mais de um do que de outro. Tratar cada filho de forma justa não significa tratá-los de modo idêntico, mas garantir que nenhum se sinta em desvantagem. Comparação entre irmãos planta feridas que duram décadas.
 
5. Você ensina pelo exemplo
 
Filhos aprendem menos pelo discurso e mais pela observação. A forma como você trata as pessoas, lida com a frustração, cumpre a palavra e administra o próprio celular ensina mais do que qualquer sermão. Somos referência 24 horas por dia, queiramos ou não. Não adianta pedir ao filho o que você não pratica.
 
6. Ajude seus filhos a dominar os próprios impulsos
 
Criar não é só proteger; é preparar. Em um mundo de gratificação instantânea, uma das maiores heranças que um pai pode deixar é a capacidade de esperar, de tolerar a frustração e de dizer "não" a si mesmo. Domínio próprio se ensina com pequenas rotinas, combinados e o exemplo de um adulto que também se controla. Quem não aprende a lidar com o "não" em casa sofre com ele lá fora.
 
7. Deixe legado, não apenas herança
 
Herança são bens; legado é caráter. Bens se gastam, se dividem e, com frequência, geram conflito. O que de fato permanece é a marca que deixamos na forma de ser dos filhos, com valores, exemplos e histórias. Antes de pensar no que você vai deixar para eles, pense no que está deixando neles. O maior patrimônio de um filho é quem ele se torna.
 
8. Nunca é tarde para mudar
 
A forma de criar pode ser revista, ajustada e reaprendida em qualquer fase da vida. Reconhecer um erro não é fraqueza, é o primeiro passo para corrigir a rota. Cada filho e cada idade pedem uma abordagem diferente, e o pai que se dispõe a aprender está sempre a tempo de reconstruir vínculos. Você não precisa ter sido um pai perfeito, basta se dispor a ser um pai melhor a partir de hoje.
 


LC – AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO