Por Dr. Humberto Tindó, diretor técnico do Hospital Mário Kroeff
Todos os dias, no Hospital Mário Kroeff, recebo pacientes que chegam pelo Sistema Único de Saúde (SUS) com diagnósticos tardios. Muitos já perderam semanas preciosas porque o sistema não conseguiu absorvê-los antes. E o modelo atual colabora para isso.
Fundado há mais de 80 anos pelo criador do Instituto Nacional do Câncer (INCA), Mário Kroeff é hoje o maior prestador privado de oncologia ao SUS no Rio de Janeiro. Em 2025, realizamos mais de 70 mil procedimentos, cirurgias, quimioterapias, radioterapias e atendimentos clínicos e projetamos crescimento de 10% para 2026. Mas há um dado que pesa mais que todos: 100% dos nossos pacientes chegam pelo SUS, e a tabela pública não cobre o custo da alta complexidade oncológica. O resultado é um déficit mensal que só conseguimos sustentar com filantropia e doações da sociedade civil.
O SUS é uma das maiores conquistas civilizatórias do Brasil. Mas para que continue sendo porta aberta para quem enfrenta o câncer, precisa evoluir sua arquitetura de financiamento. A oncologia, pela complexidade e pelo custo crescente dos tratamentos modernos, é a área na qual essa evolução é mais urgente.
Não é um problema isolado. O Hospital Federal de Bonsucesso reabriu 423 leitos em 2025 após aporte de R$263,7 milhões do Ministério da Saúde. Já o Mário Kroeff, sem aporte federal direto, financia a complexidade com construção coletiva. Os caminhos são distintos, mas ambos enfrentam o mesmo dilema: custos crescentes, pressão tecnológica e necessidade de ampliar acesso. Nenhum dos dois resolve a equação sozinho.
O mundo mostra que essa é uma questão universal. O NHS britânico, referência em universalidade, enfrenta filas crescentes e déficit de oncologistas. Nos Estados Unidos, a Kaiser Permanente reorganizou 40 processos em oncologia com o modelo 4R (Right Information, Right Care, Right Patient, Right Time), reduzindo em até 11 dias o tempo entre diagnóstico e início da terapia em câncer de pulmão. Onze dias que, em oncologia, podem ser a diferença entre a vida e a morte.
É nesse contexto que os bundled payments - pagamento pelo pacote completo de cuidado -, em vez da remuneração fragmentada, ganham urgência. O modelo alinha incentivos: eficiência para o hospital, previsibilidade para o financiador e qualidade para o paciente. Para instituições como o Mário Kroeff, que concentram alta complexidade e dependem quase exclusivamente do SUS, esse modelo pode ser a diferença entre sobreviver e fechar.
Aplicar bundled payments ao SUS significaria transformar a lógica de financiamento da oncologia pública. Em vez de remunerar consulta, exame e terapia isoladamente, o sistema pagaria pela jornada completa do paciente. O Hospital Mário Kroeff poderia receber pelo ciclo inteiro de tratamento de um câncer de mama da primeira consulta ao acompanhamento pós-cirúrgico com previsibilidade financeira e incentivo à eficiência. Redes regionais de oncologia poderiam integrar hospitais de referência a unidades básicas e centros de diagnóstico, reduzindo redundâncias e acelerando o início do tratamento.
Sustentabilidade financeira não é fim em si. Ela é o que permite cuidar com dignidade de quem precisa. Hoje, em oncologia pública brasileira, a conta não fecha. E quando a conta não fecha, quem perde é o paciente que não tem outra porta para bater.
O Brasil precisa avançar para modelos que reconheçam o valor integral do tratamento oncológico. A evidência internacional já acumulada é o ponto de partida. Adotar bundled payments no SUS oncológico, ainda que em escala-piloto, seria o primeiro passo na direção certa. Sem isso, corremos o risco de transformar uma das maiores conquistas civilizatórias do país em promessa não cumprida.
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