O ronco é um sintoma extremamente comum e resulta da vibração dos tecidos moles das vias aéreas superiores durante o sono, provocada pela passagem turbulenta do ar através de uma região parcialmente estreitada. Embora episódios ocasionais possam ocorrer em qualquer pessoa, o ronco habitual, presente na maior parte das noites, merece atenção porque pode ser um marcador clínico de distúrbios respiratórios do sono, especialmente da apneia obstrutiva do sono.
Situações como congestão nasal temporária, consumo de bebidas alcoólicas, privação de sono ou uso de medicamentos sedativos podem favorecer episódios isolados de ronco. No entanto, quando o ronco passa a ser frequente, intenso ou vem acompanhado de pausas respiratórias percebidas por familiares, despertares frequentes, sensação de sufocamento durante a noite ou sonolência excessiva durante o dia, é importante procurar avaliação médica.
Estudos realizados no Brasil mostram que a apneia obstrutiva do sono é uma condição frequente na população adulta. O ronco é seu sintoma mais comum, embora nem toda pessoa que ronca apresente apneia obstrutiva do sono. Entre os principais fatores de risco estão obesidade, envelhecimento, consumo de álcool, uso de medicamentos sedativos e alterações anatômicas que favorecem o estreitamento das vias aéreas superiores, como hipertrofia das amígdalas, alterações do palato mole, aumento da base da língua e, em alguns pacientes, obstrução nasal.
Segundo o médico otorrinolaringologista Dr. Francisco Leite dos Santos, um dos principais equívocos é acreditar que todo ronco seja inofensivo. “O ronco pode ser apenas um sintoma isolado, mas também pode representar o primeiro sinal de um distúrbio respiratório do sono. Por isso, é fundamental avaliar o contexto clínico e os sintomas associados”, explica.
A principal doença relacionada ao ronco é a apneia obstrutiva do sono, que ocorre quando há colapso parcial ou completo das vias aéreas superiores durante o sono, levando à redução do fluxo de ar, denominada hipopneia; ou à interrupção completa do fluxo de ar, denominada apneia. Em adultos, esses eventos têm duração mínima de 10 segundos e costumam estar associados à queda da oxigenação do sangue, a microdespertares ou a ambos. Como consequência, o sono torna-se fragmentado e perde parte de sua capacidade reparadora. Além de comprometer a qualidade do sono, a apneia obstrutiva do sono está associada a maior risco de hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, alterações metabólicas, comprometimento cognitivo e aumento do risco de acidentes relacionados à sonolência durante o dia.
Entre os sinais que merecem atenção estão ronco intenso e habitual, pausas respiratórias observadas por familiares, despertares com sensação de sufocamento, sono não reparador, cansaço ao acordar, dores de cabeça pela manhã, dificuldade de memória e concentração e sonolência excessiva durante o dia. “A avaliação clínica permite identificar pacientes com suspeita de apneia obstrutiva do sono. A confirmação diagnóstica é feita por meio de um exame do sono, sendo a polissonografia o principal método utilizado. Esse exame registra parâmetros como atividade cerebral, fluxo respiratório, esforço respiratório, oxigenação do sangue, frequência cardíaca e movimentos corporais durante o sono”, explica o especialista.
O tratamento depende da gravidade da doença, das alterações anatômicas presentes e das características de cada paciente. Pode incluir medidas comportamentais, perda de peso quando indicada, controle de doenças nasais e alergias respiratórias, aparelhos intraorais, pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP) e, em casos selecionados, procedimentos cirúrgicos.
Para o Dr. Francisco Leite, a principal mensagem é que o ronco não deve ser ignorado quando ocorre de forma habitual. “Identificar precocemente a causa do ronco permite diagnosticar distúrbios respiratórios do sono em fases iniciais e iniciar o tratamento mais adequado, reduzindo o impacto da doença na saúde, na qualidade do sono e na qualidade de vida”, conclui.


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