Comparação, excesso de tempo de tela e busca por validação podem interferir no sono, na autoestima e nas relações.

Abrir uma rede social parece um gesto simples: alguns minutos no feed, uma mensagem respondida, um vídeo curto antes de dormir. O problema aparece quando esse uso deixa de ser apenas uma ferramenta de conexão e passa a regular o  humor, autoestima, descanso e percepção de valor pessoal. As redes sociais fazem parte da vida cotidiana, mas o impacto delas na saúde mental depende da intensidade, do tipo de conteúdo consumido, da fase da vida e da forma como cada pessoa se relaciona com o ambiente digital.

Para Tatiana Pacher Nazato, terapeuta e empresária, a discussão precisa ir além do tempo de tela. Segundo ela, o ponto central está em observar o que a pessoa busca nas redes, o que sente depois de usá-las e quais áreas da vida começam a ser afetadas por essa relação. “O uso das redes sociais se torna mais delicado quando a pessoa passa a moldar a própria autoestima pelo olhar externo. Curtidas, comentários e comparação constante podem reforçar inseguranças que já existiam antes da tela”, afirma.

Um material publicado pela Fundação Oswaldo Cruz, por meio do Portal de Boas Práticas em Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente, destaca que adolescentes precisam de tempo, espaço e condições saudáveis para o desenvolvimento pleno, além de mais presença em si, nos vínculos e no mundo à sua volta.

Embora o material tenha foco nos adolescentes, a lógica ajuda a compreender um fenômeno que atravessa diferentes idades. As redes estimulam uma comparação permanente porque exibem recortes editados da vida alheia. Viagens, corpos, relacionamentos, carreiras e rotinas aparecem em versões selecionadas, muitas vezes distantes da experiência real de quem publica. Para quem consome, o efeito pode ser uma sensação silenciosa de atraso, insuficiência ou fracasso.

Esse processo não acontece de maneira isolada. Uma pessoa emocionalmente fragilizada, vivendo conflitos familiares, solidão, pressão profissional ou baixa autoestima, tende a absorver os conteúdos de forma mais sensível. A visão sistêmica ajuda a compreender esse ponto: o impacto das redes não nasce apenas da plataforma, mas da relação entre indivíduo, ambiente, vínculos e história emocional.

Outro efeito importante está no sono. O hábito de permanecer conectado até tarde prolonga a estimulação mental e dificulta o desligamento necessário para o descanso. Além da luz das telas, há o fluxo contínuo de informações, opiniões, notícias, vídeos e mensagens. A mente permanece em estado de alerta, mesmo quando o corpo já deveria estar em repouso. Com o tempo, noites mal dormidas podem intensificar irritabilidade, ansiedade, queda de concentração e sensação de esgotamento.

 

 

 

 

As redes também alteram a forma como muitas pessoas se relacionam. Há quem converse com dezenas de contatos ao longo do dia, mas sinta falta de escuta real. A conexão digital amplia possibilidades de contato, mas não garante vínculo. Quando a troca se torna superficial, rápida e marcada por validação instantânea, a pessoa pode sentir presença constante e, ainda assim, viver solidão.

Tatiana observa que o cuidado começa quando o indivíduo passa a reconhecer os próprios sinais. “Depois de usar as redes, a pessoa precisa perceber se se sente inspirada, informada e conectada ou se termina mais ansiosa, comparativa e distante de si. Essa percepção é importante para entender se o uso está servindo à vida ou ocupando um espaço emocional maior do que deveria”, explica.

Para famílias, o tema exige presença adulta e diálogo. Proibir sem conversar costuma ter pouco efeito quando crianças e adolescentes já entendem a tecnologia como extensão da vida social. O caminho mais consistente passa por combinar limites, observar mudanças de comportamento, preservar momentos sem tela e ensinar leitura crítica do conteúdo consumido.

Entre adultos, a autorregulação também é necessária. Silenciar perfis que provocam comparação, limitar horários de uso, evitar redes antes de dormir e substituir parte do tempo online por convivência presencial são medidas simples, mas relevantes. Em casos em que a exposição digital aprofunda sofrimento, insegurança ou isolamento, buscar apoio terapêutico pode ajudar a compreender o que está por trás desse vínculo com a tela.

As redes sociais não precisam ser tratadas como inimigas da saúde mental, mas também não devem ocupar um lugar sem limite na rotina. Quando a vida passa a ser medida pelo que aparece no feed, o cuidado emocional pede uma pausa. A pergunta que fica não é apenas quanto tempo se passa conectado, mas o que essa conexão está fazendo com a forma de sentir, escolher e se relacionar.