Quando José Bianco deixou o Palácio Presidente Vargas, em dezembro de 2002, Rondônia apresentava uma situação financeira muito diferente daquela encontrada quatro anos antes. O Estado havia recuperado parte da capacidade de investimento, reorganizado sua arrecadação e voltado a cumprir exigências fiscais que permitiam firmar convênios e buscar financiamentos junto ao governo federal. 


Ao mesmo tempo, milhares de famílias ainda tentavam reconstruir a vida depois da maior demissão em massa da história do funcionalismo público estadual. Poucos governadores encerraram um mandato deixando um legado tão difícil de resumir.


Passadas mais de duas décadas, seu governo continua despertando debates. Para alguns, José Bianco foi o administrador que impediu Rondônia de entrar em colapso financeiro. Para outros, foi o responsável por uma decisão que provocou uma profunda crise social e marcou uma geração de servidores públicos. As duas interpretações nasceram dos mesmos acontecimentos e ajudam a explicar por que seu nome continua ocupando um lugar importante na história política rondoniense.


Da advocacia à construção do novo Estado

José de Abreu Bianco nasceu em 15 de junho de 1944, em Apucarana, no norte do Paraná. Formou-se em Direito pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e chegou a Rondônia durante o intenso processo de ocupação da Amazônia promovido pelo governo federal nas décadas de 1970 e 1980. Naquele período, milhares de famílias migravam para a região atraídas pela abertura da BR-364, pelos projetos de colonização e pela expansão da atividade agropecuária.

Foi em Ji-Paraná que Bianco iniciou sua carreira como advogado. A cidade crescia rapidamente e enfrentava problemas típicos de uma fronteira em expansão: conflitos fundiários, necessidade de organização administrativa e criação de novas estruturas públicas. Sua atuação jurídica logo lhe deu visibilidade entre lideranças políticas e empresariais.


A entrada na política ocorreu em um momento decisivo para Rondônia. Em 1981, o antigo Território Federal foi transformado em Estado, e praticamente toda a estrutura administrativa precisava ser criada. Nas eleições de 1982, Bianco foi eleito deputado estadual e tornou-se o primeiro presidente da Assembleia Legislativa de Rondônia. Coube a ele conduzir os trabalhos da Assembleia Constituinte responsável pela elaboração da primeira Constituição Estadual, promulgada em 1983.


Esse período foi determinante para sua formação política. Participar da organização institucional do novo Estado fortaleceu sua imagem de administrador técnico, conhecedor da legislação e preocupado com a estrutura da máquina pública. Enquanto muitos parlamentares concentravam esforços nas disputas eleitorais, Bianco dedicava-se à construção das bases jurídicas que permitiriam o funcionamento da administração estadual.


Em 1988, foi eleito prefeito de Ji-Paraná. A cidade vivia uma fase de crescimento acelerado e exigia investimentos constantes em infraestrutura, pavimentação e organização urbana. Sua administração priorizou o planejamento financeiro e a reorganização administrativa, características que se tornariam marcas de sua trajetória política.


O reconhecimento obtido no município levou Bianco ao Senado Federal nas eleições de 1994. Em Brasília, alinhou-se ao governo Fernando Henrique Cardoso e participou das discussões sobre as reformas econômicas implementadas após o Plano Real. Defendeu medidas voltadas ao equilíbrio fiscal, à modernização da administração pública e à renegociação das dívidas dos estados, além de atuar em pautas importantes para Rondônia, como a recuperação da BR-364, o fortalecimento da agropecuária e a ampliação dos investimentos federais na região Norte.


A experiência no Senado ampliou sua visão sobre administração pública. Enquanto muitos políticos enxergavam apenas os problemas locais, Bianco passou a acompanhar de perto as dificuldades enfrentadas pelos estados brasileiros para equilibrar suas contas. No fim da década de 1990, praticamente todas as unidades da Federação conviviam com aumento das despesas, crescimento da folha de pagamento e dificuldades para investir. Rondônia não era exceção.


Foi nesse cenário que decidiu disputar o Governo do Estado em 1998. Durante a campanha, apresentou-se como um gestor preparado para reorganizar as finanças estaduais e recuperar a capacidade administrativa de Rondônia. Derrotou Valdir Raupp no segundo turno e assumiu o governo em 1º de janeiro de 1999.


21 de janeiro de 2000: o dia em que Rondônia parou

A reação foi imediata. Em Porto Velho, sindicatos organizaram manifestações que reuniram milhares de pessoas. Passeatas ocuparam o centro da cidade, servidores protestaram em frente ao Palácio Presidente Vargas e caravanas vindas do interior reforçaram os atos públicos. Durante semanas, a crise dominou o noticiário local. O funcionalismo, até então uma das principais bases da economia estadual, tornou-se o centro da maior mobilização social da história recente de Rondônia.


Os reflexos também chegaram aos serviços públicos. Na educação, estimativas divulgadas à época indicavam que aproximadamente 6.400 trabalhadores deixaram a rede estadual, obrigando o governo a reorganizar escolas e, em alguns municípios, adiar o início do ano letivo. Na saúde, cerca de 2.600 servidores foram desligados, afetando o funcionamento de hospitais importantes, como o Hospital de Base Ary Pinheiro e o CEMETRON. O Estado precisou reorganizar equipes e redistribuir profissionais para manter os serviços essenciais em funcionamento.


A batalha nos tribunais

As demissões não encerraram a crise. Na verdade, deram início a uma disputa judicial que se estenderia por vários anos e mobilizaria centenas de advogados, sindicatos e associações de servidores. A principal tese apresentada pelas defesas era de que o Estado havia promovido desligamentos em massa sem instaurar processos administrativos individuais, impedindo que cada servidor exercesse o direito constitucional ao contraditório e à ampla defesa.


O caso percorreu diferentes instâncias do Judiciário e tornou-se uma das maiores ações envolvendo servidores públicos da história de Rondônia. Durante esse período, milhares de ex-servidores permaneceram sem trabalho, enquanto aguardavam uma definição da Justiça. Muitos recorreram a empregos informais, mudaram de cidade ou passaram a depender da ajuda de familiares para manter o sustento.


Entre os episódios mais lembrados dessa longa batalha está a sustentação oral feita pelo advogado Hélio Vieira, um dos principais representantes dos servidores e posteriormente autor, ao lado de Zênia Cernov e Adércio Dias, do livro 10.000 Demitidos – Luta, Reintegração e Transposição. Segundo o relato registrado pelos próprios participantes do movimento, antes da sessão no Superior Tribunal de Justiça Hélio encontrou, durante a viagem a Brasília, um livro sobre a vida de Jesus Cristo. A leitura inspirou o argumento que utilizaria diante dos ministros.


Ao iniciar sua sustentação, lembrou que, segundo os Evangelhos, até Jesus Cristo, acusado perante Pôncio Pilatos, teve a oportunidade de apresentar sua defesa antes da condenação. Em seguida, afirmou que quase dez mil servidores de Rondônia haviam sido afastados sem qualquer oportunidade de defesa individual.


A comparação causou forte impacto no plenário. Conforme o relato de Hélio Vieira e de outros participantes do processo, o ministro Fernando Gonçalves, que inicialmente acompanharia entendimento contrário aos servidores, reconsiderou sua posição durante o julgamento e passou a votar favoravelmente ao reconhecimento da necessidade de observância do devido processo legal. A narrativa tornou-se um dos episódios mais simbólicos da luta judicial dos demitidos e permanece viva na memória do movimento.


A disputa prosseguiu por vários anos. Em decisões posteriores, o Judiciário reconheceu que parte das demissões ocorreu sem a observância das garantias constitucionais asseguradas aos servidores públicos. Durante o governo de Ivo Cassol iniciou-se o processo de reintegração de parte dos demitidos, encerrando uma batalha judicial que atravessou diferentes administrações estaduais e marcou uma geração de trabalhadores do serviço público.


A partir daquele episódio, José Bianco deixou de ser visto apenas como o administrador que prometia reorganizar as finanças de Rondônia. Seu nome passou a ser associado, de forma definitiva, ao maior ajuste fiscal já realizado pelo governo estadual. Mesmo entre aqueles que reconhecem os resultados financeiros de sua gestão, poucos contestam que o custo social daquela decisão foi profundo e deixou marcas que ainda hoje fazem parte da memória de milhares de rondonienses.


Um legado que continua em debate

Seria injusto resumir o governo José Bianco apenas às demissões. Sua administração promoveu mudanças importantes na estrutura financeira do Estado. A modernização da SEFIN aumentou a eficiência da arrecadação, fortaleceu os mecanismos de controle fiscal e permitiu que Rondônia recuperasse sua capacidade de celebrar convênios e buscar financiamentos junto à União. Também foram implantadas medidas de simplificação tributária e incentivo à atividade econômica, além da continuidade de investimentos em infraestrutura.


Ao mesmo tempo, seria igualmente impossível ignorar o impacto social provocado pelo ajuste fiscal. As demissões alteraram a vida de milhares de famílias e produziram uma crise política que marcou definitivamente sua passagem pelo governo. O desgaste refletiu nas eleições de 2002, quando foi derrotado por Ivo Cassol, cuja campanha defendia a revisão das medidas adotadas contra os servidores.


Muitos imaginaram que sua carreira política terminaria ali. Não aconteceu. Em 2004, Bianco voltou à Prefeitura de Ji-Paraná e foi novamente eleito pelos eleitores da cidade onde construiu sua trajetória pública. Quatro anos depois conquistou a reeleição, tornando-se o primeiro prefeito reeleito da história do município, demonstrando que sua liderança permanecia sólida em sua principal base eleitoral.


José Bianco deixou a política estadual carregando uma contradição que ainda acompanha seu nome. Foi o governador que reorganizou as finanças de Rondônia em um dos momentos mais difíceis da administração pública estadual, mas também protagonizou a decisão mais traumática já vivida pelo funcionalismo. A história ainda discute se havia outro caminho possível. O que não se discute é que seu governo alterou os rumos da administração estadual e continua sendo uma referência obrigatória para quem deseja compreender a evolução política, econômica e administrativa de Rondônia.


Referências

Senado Federal – Perfil Biográfico de José de Abreu Bianco. 

Assembleia Legislativa de Rondônia – História da Assembleia Constituinte. 

Constituição do Estado de Rondônia (1983). 

Diário Oficial do Estado de Rondônia (1999–2000). 

10.000 Demitidos – Luta, Reintegração e Transposição, de Hélio Vieira, Zênia Cernov e Adércio Dias. 

Acervo Histórico do Governo de Rondônia (SECOM). 

Vítor Eduardo Veras de Sandes Freitas. Coligações Partidárias e Gabinetes em Rondônia (UNICAMP). 


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