Há 24 anos, enquanto o país comemorava o pentacampeonato, um estudo científico mudava a forma como médicos tratavam a menopausa. Hoje, novas evidências, terapias e uma visão mais ampla sobre a saúde feminina transformaram completamente esse cenário

Quando o Brasil levantou a taça do pentacampeonato, em 2002, outra notícia também atravessava consultórios do mundo inteiro. Naquele mesmo ano, os primeiros resultados do Women's Health Initiative (WHI), estudo federal norte-americano que acompanhou mais de 160 mil mulheres entre 50 e 79 anos, sugeriram uma associação entre a terapia hormonal e o aumento do risco de câncer de mama e eventos cardiovasculares. 

A repercussão foi imediata: a prescrição e o uso da terapia de reposição hormonal diminuíram em até 80% em vários países. No Brasil, o efeito também foi brutal. Um estudo de pesquisadores da Unicamp com 1.453 ginecologistas do estado de São Paulo, mostrou que quase um quarto dos médicos deixou de prescrever a terapia, dois em cada três diminuíram a dose das pacientes e 55% optaram por indicar outros medicamentos, na maioria das vezes por receio do aumento do risco de câncer de mama. Outro trabalho, publicado em 2016 no periódico Pharmacoepidemiology and Drug Safety, constatou que a proporção de mulheres usando terapia hormonal no país havia caído de 56% em 1997 para 11% em 2008.

Vinte e quatro anos depois, a ciência conta uma história bem diferente. "A transformação não foi pontual. Foi praticamente uma reconstrução completa da forma como entendemos a menopausa", resume a endocrinologista Alessandra Rascovski, diretora clínica da Atma Soma e autora do livro AtmaSoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor.

Segundo ela, a maior mudança não aconteceu apenas na escolha dos medicamentos, mas na compreensão da própria doença. "Em 2002, a menopausa praticamente deixou de ser tratada por medo. A repercussão do WHI foi tão grande que muitas mulheres abandonaram a reposição hormonal e muitos médicos passaram anos receosos de prescrevê-la. Hoje entendemos que aqueles resultados precisavam ser interpretados dentro do perfil das pacientes estudadas e que não podem ser aplicados indiscriminadamente a todas as mulheres."

Nos anos seguintes, novas análises dos próprios dados do WHI e diferentes sociedades médicas passaram a defender uma abordagem individualizada, considerando idade, tempo de menopausa, sintomas e fatores de risco antes da indicação da terapia hormonal. O custo do período de abandono, aliás, foi contabilizado: uma análise publicada no periódico Menopause avaliou estratificadamente as consequências do declínio no uso de estrogênio isolado entre mulheres norte-americanas na faixa dos 50 anos após 2002. O resultado apontou que esse declínio esteve associado a 37.549 eventos adversos, incluindo câncer de mama, câncer de cólon, doença coronariana e fraturas ósseas. Atualmente, diretrizes internacionais e brasileiras reconhecem que, para mulheres sintomáticas sem contraindicações, os benefícios costumam superar os riscos quando o tratamento é iniciado antes dos 60 anos ou nos primeiros dez anos após a menopausa, período conhecido como "janela de oportunidade".

Mais recentemente, em novembro de 2025, o FDA americano removeu alguns alertas de risco da bula de medicamentos hormonais para menopausa, especificamente os relacionados às formulações de baixa dose de estrogênio vaginal, considerados seguros e eficazes para tratar sintomas geniturinários. 

Um problema subdiagnosticado

Há duas décadas, praticamente toda a conversa sobre menopausa girava em torno dos fogachos. Hoje, de acordo com a especialista, o entendimento é muito mais amplo. "A onda de calor continua sendo uma das principais queixas, mas ela deixou de ser o centro da discussão. Hoje sabemos que a menopausa afeta cérebro, metabolismo, composição corporal, músculos, ossos, sono, humor, saúde cardiovascular e cognição."

O problema é que boa parte das mulheres ainda enfrenta essa fase sem diagnóstico ou tratamento adequado. Uma pesquisa nacional encomendada pela Astellas Pharma entre julho e agosto de 2025, com 837 mulheres brasileiras de 40 a 65 anos, mostrou que 82% relataram sintomas relacionados à menopausa e convivem, em média, com sete manifestações simultâneas. 

Apesar desse impacto, apenas 12% das entrevistadas utilizam terapia de reposição hormonal (TRH) no Brasil, percentual inferior ao observado em países europeus, onde a taxa de uso gira em torno de 20%, segundo o mesmo levantamento. A pesquisa também evidenciou uma lacuna importante no acesso à informação: 53% das mulheres afirmaram que seu médico nunca apresentou a terapia hormonal como uma possibilidade de tratamento, mesmo quando os sintomas comprometiam sua qualidade de vida. 

Hoje, cerca de 30 milhões de brasileiras estão vivendo a transição menopausal ou já entraram na menopausa, segundo estimativas baseadas em dados do IBGE. O número ajuda a explicar por que o tema deixou de ser uma questão individual e passou a ser tratado como um desafio de saúde pública.

O que acontece com o cérebro

Essa mudança na compreensão aconteceu graças ao avanço da pesquisa sobre os efeitos do estrogênio em diferentes órgãos. Estudos conduzidos pela neurocientista Lisa Mosconi, da Weill Cornell Medicine, demonstraram que a transição menopausal provoca alterações estruturais e metabólicas no cérebro. Em 2024, sua equipe utilizou, pela primeira vez, imagens de PET scan para medir a atividade de receptores de estrogênio diretamente no cérebro e descobriu que esses receptores permanecem abundantes por até uma década após a menopausa, em vez de desaparecerem rapidamente, o que reforça a relevância da chamada "janela de oportunidade" terapêutica. 

A implicação clínica dessa descoberta é considerável. O sexo feminino é o segundo fator de risco mais importante para a doença de Alzheimer, perdendo apenas para a idade avançada, fato que sugere um papel central do estrogênio no desenvolvimento da doença. Pesquisa publicada em 2024 no periódico Alzheimer's Research & Therapy mostrou que a terapia hormonal está associada a menores níveis de biomarcadores de tau do Alzheimer em mulheres pós-menopáusicas. Esse conhecimento ajudou a explicar por que tantas mulheres apresentam lapsos de memória, ansiedade, dificuldade de concentração e alterações do sono durante esse período.

O peso deixou de ser apenas uma questão de estilo de vida

Outro avanço importante ocorreu na compreensão da relação entre menopausa e metabolismo. Durante muito tempo, o ganho de peso era atribuído principalmente ao envelhecimento ou aos próprios hormônios utilizados na reposição. Hoje, sabe-se que a redução do estrogênio altera mecanismos centrais de regulação da fome, da saciedade e do gasto energético, além de favorecer o acúmulo de gordura abdominal e acelerar a perda de massa muscular. 

Os efeitos são mensuráveis: a síndrome metabólica tem prevalência de 37% entre mulheres na pós-menopausa, segundo meta-análise de 119 estudos. E o risco de hipertensão arterial se intensifica após os 65 anos nas mulheres, superando o registrado em homens da mesma faixa etária, conforme a Diretriz Brasileira sobre Saúde Cardiovascular no Climatério, publicada em 2024. 

"Durante muitos anos dizia-se que a reposição hormonal engordava. Hoje sabemos exatamente o contrário: quem muda profundamente o metabolismo é a própria menopausa."

Essa nova compreensão também abriu espaço para pesquisas envolvendo medicamentos originalmente desenvolvidos para obesidade. Desde fevereiro de 2025, um estudo clínico conduzido no Hospital Universitário de Berna, na Suíça, investiga a combinação entre terapia hormonal e agonistas do GLP-1 em mulheres pós-menopáusicas com diabetes ou em risco de desenvolvê-la, sinal de que a fronteira entre climatério e metabolismo se torna cada vez mais relevante para a medicina. Paralelamente, cresce a valorização da musculação, da ingestão adequada de proteínas e do exercício de força durante essa fase da vida. "A mulher percebe que atividade física deixa de ser uma escolha estética e passa a ser uma necessidade biológica."

Da "receita pronta" para a medicina personalizada

A endocrinologista explica que talvez a maior revolução desses 24 anos tenha sido abandonar a visão de que a menopausa diz respeito apenas aos ovários. "A vida reprodutiva termina, mas a vida produtiva não. Hoje entendemos que a queda do estrogênio repercute em praticamente todos os sistemas do organismo."

Essa visão integrada mudou inclusive o acompanhamento clínico. Alterações cognitivas, ansiedade, insônia, redução da libido, síndrome geniturinária da menopausa, perda óssea, sarcopenia e risco cardiovascular passaram a fazer parte da mesma conversa.

Outro marco foi o abandono da ideia de que todas as mulheres deveriam receber o mesmo tratamento. "Antes praticamente existia uma receita única. Hoje escolhemos tipo de hormônio, dose, via de administração e até mesmo decidimos quando não usar hormônio. O tratamento passou a ser construído para cada paciente."

E os resultados são percebidos pelas próprias pacientes: pesquisa conduzida pela Editora Abril em setembro de 2024, com mais de 1.300 mulheres, mostrou que 75% das que fizeram uso da TRH relataram melhora significativa na qualidade de vida. 

Uma nova ferramenta para quem não pode usar hormônios

Essa personalização também permitiu avanços para mulheres que não podem utilizar terapia hormonal. Em 22 de junho de 2026, a Anvisa publicou, na Resolução 2.430/2026 do Diário Oficial da União, o registro do Veoza (fezolinetanto), primeiro medicamento não hormonal aprovado no Brasil para o tratamento de sintomas vasomotores moderados a intensos associados à menopausa. A aprovação foi baseada no programa clínico de fase 3 BRIGHT SKY, que incluiu os estudos SKYLIGHT 1, SKYLIGHT 2 e SKYLIGHT 4, conduzidos na Europa, nos Estados Unidos e no Canadá, com mais de 3.000 participantes. 

O fármaco atua bloqueando os receptores NK3 da neurocinina B no hipotálamo, envolvidos na regulação da temperatura corporal. A urgência da aprovação se justifica pelos números: 36,2% das brasileiras entre 40 e 65 anos sofrem com sintomas vasomotores intensos, um índice muito superior à média global de 15,6%. 

"Ele não substitui a terapia hormonal, que continua sendo o padrão ouro para quem pode utilizá-la. Mas amplia nosso arsenal terapêutico e mostra que hoje compreendemos muito melhor a neurobiologia da menopausa."

O obstáculo que a ciência ainda não resolve

Apesar de todos os avanços, Alessandra acredita que o principal obstáculo hoje não está no conhecimento científico, mas no acesso. "O maior desafio é fazer com que essas informações e esses tratamentos cheguem às mulheres mais vulneráveis. Muitas ainda acreditam que sentir dor, perder o sono, esquecer as coisas ou viver exaustas faz parte da idade. Não faz."

Atualmente o SUS não oferece o principal tratamento para amenizar os sintomas da menopausa. Uma proposta em tramitação no Senado desde 2024 busca garantir acesso à reposição hormonal e a outras medicações no sistema público, além de atendimento psicológico e acompanhamento multiprofissional. No Brasil, três quartos da população não têm acesso à saúde suplementar, o que restringe o contato com especialistas que orientariam o tratamento de forma individualizada. A pesquisa de 2025 identificou três fatores principais que explicam a baixa adesão: falta de informação, medo de desenvolver câncer de mama e dificuldade de acesso a serviços de saúde especializados.

Para Alessandra, a comparação entre 2002 e 2026 mostra que a maior vitória não foi apenas tecnológica. "Há 24 anos, muitas mulheres ouviam que precisavam suportar os sintomas. Hoje entendemos que menopausa não é uma sentença de sofrimento, mas uma fase de reorganização do organismo. A ciência deixou de tratar apenas os hormônios e passou a cuidar da mulher inteira."

Linha do tempo

2002 | O ano do medo
O Brasil conquista o pentacampeonato enquanto o estudo WHI, que acompanhava mais de 160 mil mulheres, muda a prática médica em todo o mundo. O uso da terapia hormonal cai até 80% em vários países. No Brasil, a proporção de mulheres em tratamento despencará de 56% para 11% nos anos seguintes.

Anos 2000 | Revisão das evidências
Novas análises do próprio WHI mostram que os riscos dependiam do perfil das pacientes avaliadas, em sua maioria mais velhas, com sobrepeso e comorbidades. A comunidade científica reconhece que idade, tempo de menopausa e condições clínicas fazem toda a diferença.

Anos 2010 | A menopausa deixa de ser apenas hormonal
Pesquisas demonstram que a queda do estrogênio afeta muito mais do que os ovários. Cérebro, metabolismo, músculos, ossos, sistema cardiovascular e qualidade do sono passam a integrar o cuidado clínico.

Anos 2020 | Chega a medicina personalizada
A reposição hormonal deixa de ser uma "receita única". Em 2024, imagens de PET scan conseguem, pela primeira vez, medir a atividade de receptores de estrogênio diretamente no cérebro, reforçando a importância do timing do tratamento. Também em 2024, a Diretriz Brasileira sobre Saúde Cardiovascular no Climatério formaliza o risco metabólico da menopausa.

2026 | Mais opções, menos resignação
A Anvisa aprova o Veoza (fezolinetanto) em junho de 2026, inaugurando a primeira terapia não hormonal para fogachos no Brasil. Pesquisa nacional revela que 82% das mulheres têm sintomas, mas apenas 12% fazem tratamento, e o acesso pelo SUS ainda é uma lacuna aberta.


Sobre a Atma Soma

Liderada pela endocrinologista Alessandra Rascovski, autora do livro Atmasoma: o equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor - a clínica tem foco na prática da medicina de soma, unindo várias especialidades em prol dos pacientes, respeitando a sua individualidade e oferecendo a eles uma vida longa e autônoma.

A clínica conta com um time de médicos e profissionais assistenciais de diversas áreas, como endocrinologia, urologia, ginecologia, nutrição, gastroenterologia, geriatria, dermatologia, estética, medicina oriental e ayurveda, com olhar dedicado à prática do cuidado focado no eixo neurocognitivo, metabólico e hormonal.



DIGITAL TRIX