
O que a ciência já sabe é que a perda de peso reduz fatores de risco para a disfunção erétil
As canetas emagrecedoras transformaram o tratamento da obesidade e passaram a ocupar espaço nas conversas sobre saúde, muito além da balança. Agora, pesquisadores também investigam se medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida podem influenciar na saúde sexual masculina.
Embora ainda não haja respostas definitivas, uma questão mobiliza a comunidade científica: as mudanças observadas na vida sexual de alguns pacientes decorrem da ação dos medicamentos ou são consequência da perda de peso?
Para o urologista e andrologista Dr. Paulo Egydio, antes de responder a essa pergunta é preciso compreender como a própria obesidade interfere na função sexual.
"Grande parte dos homens não percebe que o excesso de gordura corporal, principalmente na região abdominal, provoca alterações hormonais, metabólicas e vasculares que comprometem a libido, reduzem a produção de testosterona e dificultam a obtenção e a manutenção da ereção", explica.
O tema ganha relevância diante do avanço da obesidade no país. Segundo o Vigitel Brasil, do Ministério da Saúde, a obesidade atinge aproximadamente um em cada quatro adultos, com a incidência ultrapassando 25% dessa população, condição que aumenta significativamente o risco de diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e disfunção erétil.
Como a obesidade interfere na ereção
A obesidade tem impacto além da estética e afeta diretamente mecanismos essenciais para a saúde sexual masculina, conforme detalha o urologista. “O aumento da gordura abdominal está associado a uma maior conversão periférica da testosterona em estrogênio, o que pode contribuir para níveis mais baixos de testosterona. Como consequência, alguns homens podem apresentar redução da libido, perda de massa muscular, fadiga e alterações da função erétil", explica o Dr. Paulo.
O sobrepeso também está entre os principais fatores de risco para o desenvolvimento do diabetes tipo 2, doença que compromete nervos e pequenos vasos sanguíneos essenciais para a ereção. Sem o fluxo adequado para os corpos cavernosos do pênis, a ereção torna-se insuficiente ou deixa de acontecer.
Além de alterar os hormônios e comprometer a circulação, a gordura abdominal funciona como um órgão metabolicamente ativo, liberando substâncias inflamatórias de forma contínua. Esse processo reduz a produção de óxido nítrico, molécula indispensável para o relaxamento dos vasos sanguíneos durante a ereção.
“O excesso de gordura favorece processos inflamatórios, contribui para alterações do perfil lipídico e para o desenvolvimento da aterosclerose, comprometendo a circulação em todo o organismo, incluindo os vasos penianos. Em alguns homens, a disfunção erétil pode constituir um dos primeiros sinais de doença cardiovascular ainda não diagnosticada e justificar uma avaliação clínica mais abrangente”, destaca o especialista.
Nem todos os impactos da obesidade sobre a vida sexual, porém, são fisiológicos. Alterações na imagem corporal, insegurança e ansiedade também podem prejudicar a intimidade.
"É comum que homens acima do peso passem a evitar relações por vergonha do próprio corpo. A obesidade pode afetar a autoestima e aumentar a ansiedade, criando um ciclo que compromete ainda mais a vida sexual", observa o urologista.
Onde entram as canetas emagrecedoras?
Uma vez que a perda de peso está associada à redução de diversos fatores de risco relacionados com a disfunção erétil, os pesquisadores passaram a avaliar se os benefícios observados em doentes tratados com medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida também se refletem na saúde sexual masculina.
Até ao momento, porém, não existem evidências suficientes para concluir que os medicamentos exerçam um efeito direto sobre a função sexual. Os resultados ainda são conflitantes. Um estudo recente observou uma associação entre o uso de semaglutida para perda de peso em homens sem diabetes e um discreto aumento na ocorrência de disfunção erétil.
Em contrapartida, pesquisas realizadas com pacientes diabéticos observaram melhora da função erétil após o uso de medicamentos como a semaglutida, provavelmente em razão do melhor controle metabólico e da redução dos fatores de risco cardiovasculares.
Até o momento, porém, os estudos ainda não permitem afirmar que essas medicações exerçam um efeito direto sobre a função sexual.
"O que sabemos é que, quando o paciente emagrece, costuma haver melhora do controle do diabetes, redução da inflamação, recuperação parcial do equilíbrio hormonal e melhora da circulação. Todos esses fatores favorecem a saúde sexual. O desafio das pesquisas agora é entender quanto desse benefício está relacionado ao medicamento e quanto decorre da própria perda de peso”, pondera o urologista.
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