*Fernando Silva, Vice Presidente e General Manager LATAM da Vertex Inc

Quando líderes empresariais debatem a Reforma Tributária, as discussões costumam ser centradas em torno de alíquotas neutras, alinhamento ao padrão IVA com IBS e CBS e o fim da cumulatividade. No entanto, o verdadeiro campo de batalha não está no Congresso Nacional, mas dentro das próprias companhias. O período de transição, já iniciado neste ano, está expondo um gargalo estrutural crítico nas companhias brasileiras: o abismo histórico que separa os departamentos Fiscal e de Tecnologia. 

Durante décadas, o modelo de trabalho entre essas áreas foi transacional e operou separadamente, como “ilhas”. O time tributário interpretava uma nova legislação, abria um "ticket" e a TI atualizava o ERP. Em um cenário de obrigações acessórias mensais, esse fluxo engessado sobrevivia. Contudo, a nova Reforma Tributária brasileira nasce puramente digital e em tempo real. Nesse novo ecossistema, operar sem integração é uma receita garantida para o colapso operacional e financeiro.

O maior exemplo prático dessa necessidade de simbiose é o Split Payment ou pagamento dividido. O imposto deixará de ser apurado no fim do mês para ser recolhido no exato momento da liquidação financeira da nota. Isso significa que o cálculo tributário se torna uma etapa transacional crítica. Se o ERP, o motor fiscal e o sistema bancário não conversarem em milissegundos por meio de APIs robustas, a venda simplesmente não acontece. Um problema fiscal torna-se um problema de tecnologia, que instantaneamente vira uma perda de receita.

Neste cenário, o especialista fiscal domina regras de NCM e exceções legais, mas não compreende a latência de um banco de dados em nuvem. O desenvolvedor arquiteta integrações perfeitas, mas desconhece o impacto de uma alíquota mal parametrizada no fluxo de caixa. Quando a tradução entre esses dois mundos falha, nascem os passivos ocultos.

A partir desse ano, as companhias já vão ter que lidar com sistemas simultâneos, operando o caótico modelo atual com ICMS, PIS, COFINS, em paralelo ao novo sistema. Para sobreviver, as empresas precisam implodir o muro entre os departamentos. O mercado exige a criação de times multidisciplinares que contem com especialistas de tecnologia e tributário, onde os KPIs são compartilhados: a precisão do imposto é responsabilidade da TI, assim como a performance do sistema é uma preocupação do Fiscal.

A Reforma Tributária expôs a verdade incômoda de que a conformidade legal agora é um subproduto da excelência tecnológica. As empresas que entenderem que o contador precisa pensar como um arquiteto de sistemas, e o desenvolvedor precisa entender o impacto do negócio, liderarão a transição. Aquelas que mantiverem o muro entre TI e Fiscal terão sua própria sobrevivência ameaçada pelo relógio da transformação digital.

*Fernando Silva - Vice President & General Manager LATAM da Vertex Inc., líder global no fornecimento de softwares e soluções para impostos indiretos


Equipe MOTIM