Sindicato da categoria rejeita oferta de dação de imóvel para quitar a dívida trabalhista, única alternativa viável da massa falida

A falência da empresa Gonçalves Indústria e Comércio de Alimentos Ltda. entrou em um momento decisivo que pode determinar o destino de centenas de trabalhadores. Documentos do processo revelam um cenário preocupante: apesar da existência de bens arrecadados, há uma alta probabilidade de que os credores trabalhistas não recebam qualquer valor ao final da liquidação.

Isso ocorre porque os chamados créditos extraconcursais, que têm prioridade no pagamento, atingem cifras superiores a R$ 96 milhões, valor que supera com folga o total arrecadado até o momento. Na prática, isso significa que, antes mesmo de se chegar aos trabalhadores, os recursos disponíveis já estarão comprometidos. A empresa atuava em Rondônia e no Acre.

Diante dessa realidade, um imóvel pertencente à massa falida passou a ser visto como a principal possibilidade concreta de pagamento. Trata-se de um terreno de grande extensão em Porto Velho, inicialmente avaliado em aproximadamente R$ 19 milhões. Após revisões técnicas, esse valor foi ajustado para cerca de R$ 14 milhões.   .

O imóvel foi levado a leilão. Em um primeiro momento, chegou a receber proposta superior a R$ 5 milhões, mas a venda não se concretizou devido a inconsistências na avaliação da área. Posteriormente, em novo leilão, o bem foi arrematado por cerca de R$ 2 milhões, valor muito inferior ao estimado. A diferença evidencia a dificuldade de liquidação do ativo no mercado.

Diante desse cenário, o administrador judicial apresentou uma proposta considerada excepcional. A ideia foi destinar diretamente o imóvel aos trabalhadores como forma de pagamento dos créditos, em um mecanismo conhecido como dação em pagamento. Ainda que fora do modelo tradicional, a medida foi sugerida como alternativa concreta diante da inexistência de recursos financeiros suficientes.

Um aspecto relevante do processo é que os credores que possuem prioridade legal no recebimento não se opuseram à proposta. Apesar disso, a proposta foi rejeitada pelo sindicato que representa os trabalhadores. Na manifestação apresentada ao juízo, a entidade sustenta que a solução não seria viável, apontando dificuldades na venda do imóvel e na distribuição dos valores entre os credores.

A decisão levanta uma questão elementar: qual será a alternativa concreta para recebimento dos créditos diante da recusa. Os próprios documentos do processo indicam que não há recursos suficientes para alcançar os trabalhadores após o pagamento das dívidas prioritárias. Com isso, a rejeição da proposta pode significar, na prática, a ausência total de recebimento.

Especialistas afirmam que o imóvel pode representar mais do que uma simples tentativa de pagamento. Segundo esses profissionais, o terreno possui potencial para desenvolvimento imobiliário, inclusive para projetos de habitação social, o que poderia viabilizar sua exploração econômica de forma estruturada.

Uma das alternativas apontadas seria a organização dos próprios trabalhadores em uma sociedade anônima. Nessa estrutura, eles poderiam negociar o imóvel com uma incorporadora, responsável por desenvolver o empreendimento, realizar as vendas e, posteriormente, distribuir os resultados financeiros entre os antigos credores.

Na avaliação desses especialistas, esse tipo de operação poderia transformar completamente o cenário atual. Em vez de um ativo de difícil liquidez, os trabalhadores passariam a participar de um projeto com potencial de valorização significativa. Estimativas indicam que o valor final a ser recebido poderia, inclusive, ser multiplicado por até três vezes em relação ao montante obtido em uma venda imediata.

O modelo também representa uma mudança de posição econômica relevante. Trabalhadores que hoje não têm perspectiva concreta de recebimento poderiam, nesse contexto, assumir papel de protagonistas em um empreendimento imobiliário, participando diretamente dos resultados gerados pelo ativo.

Enquanto isso, muitos dos trabalhadores afetados sequer têm conhecimento detalhado do que está sendo discutido no processo. A falta de informação amplia o risco de que decisões com impacto direto em seus direitos sejam tomadas sem a devida compreensão das consequências.

O desfecho do caso ainda depende de decisões judiciais e da eventual revisão das posições adotadas pelas partes envolvidas. No entanto, o quadro atual indica que o tempo para uma solução prática está se esgotando. Entre receber algo, ainda que por caminhos alternativos, ou não receber nada, a decisão pode estar sendo definida neste momento.


PRESS MAnager