Médico esclarece os principais mitos sobre a endometriose, doença que vai muito além da cólica menstrual e pode comprometer órgãos, fertilidade e qualidade de vida
A endometriose, apesar de muito comum, ainda é cercada por mitos que dificultam o diagnóstico precoce e atrasam o tratamento de milhares de mulheres. Embora seja frequentemente associada apenas à cólica menstrual, a doença pode comprometer diversos órgãos, afetar a fertilidade, atingir estruturas nervosas importantes da pelve e impactar significativamente a qualidade de vida.
Para o cirurgião ginecológico Dr. Igor Chiminacio, habilitado em Endoscopia Ginecológica pela Associação Médica Brasileira (AMB) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), a compreensão da doença evoluiu significativamente nas últimas décadas.
“A endometriose é uma doença genética e embrionária caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. Na minha visão, baseada no conceito embriológico e mülleriano, esse tecido se origina durante a formação do embrião e permanece silencioso durante a infância, passando a se manifestar após o início da vida hormonal e menstrual da mulher”, explica Dr. Igor Chiminacio.
Segundo o especialista, as evidências científicas e anatômicas sugerem que esse tecido apresenta características moleculares diferentes do endométrio normal presente dentro do útero, o que reforça hipóteses que vão além da teoria clássica da menstruação retrógrada como explicação para a origem da doença.
Quando ativado pelos hormônios da puberdade e pelos ciclos menstruais, esse tecido pode desencadear um processo inflamatório crônico, levando à formação de fibrose, aderências e alterações anatômicas que resultam em sintomas muitas vezes incapacitantes.
Além do comprometimento de órgãos pélvicos, cresce o entendimento de que a endometriose frequentemente afeta estruturas nervosas importantes. A fibrose produzida pela doença pode provocar retração, compressão ou encarceramento de nervos da pelve, incluindo o plexo hipogástrico inferior, o tronco lombossacro, as raízes nervosas de L5, S1, S2, S3 e S4, além dos nervos ciático, pudendo e obturador. Essa relação ajuda a explicar sintomas como dor irradiada para as pernas, formigamentos, perda de força muscular, alterações urinárias, dor ao sentar e até disfunções sexuais que muitas vezes não são reconhecidas como manifestações da endometriose.
Esse conhecimento faz parte de uma área relativamente nova da medicina chamada Neuropelveologia. Ainda não reconhecida como uma especialidade, trata-se de uma ciência multidisciplinar dedicada ao estudo dos nervos da pelve e de sua relação com doenças que afetam a pelve e causam dor, como a endometriose . Dr. Igor Chiminacio possui formação em Neuropelveologia pela International School of Neuropelveology (ISON), na Suíça, uma das principais instituições mundiais dedicadas ao estudo da neurologia pélvica.
Os grandes mitos sobre a endometriose
De acordo com Dr. Igor Chiminacio, um dos equívocos mais comuns é acreditar que a endometriose é causada exclusivamente pela menstruação retrógrada, ou a menstruação que reflui das trompas.
“Embora a menstruação possa estimular o crescimento das lesões, ela não explica a origem da doença, sua presença em meninas antes da primeira menstruação, sua localização previsível ou sua ocorrência em regiões distantes da pelve”, afirma.
Outro mito frequente é associar a doença apenas às cólicas menstruais. “A endometriose pode acometer intestino, bexiga, ureteres, nervos pélvicos, diafragma e até estruturas intratorácicas. Muitas pacientes apresentam infertilidade, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais, sintomas urinários ou manifestações neurológicas sem necessariamente terem cólicas intensas”, destaca.
Também é comum a crença de que todos os casos podem ser tratados apenas com bloqueio hormonal. Existem situações em que a doença produz fibrose, distorção anatômica, comprometimento de órgãos e envolvimento neurológico significativo. Nesses casos, a cirurgia pode se tornar uma parte importante do tratamento.
Técnica cirúrgica desenvolvida a partir do mapa da doença
Com 22 anos de experiência em cirurgia ginecológica e membro da AAGL desde 2018, Dr. Igor Chiminacio desenvolveu uma abordagem cirúrgica baseada na remoção da doença em bloco. A técnica surgiu após anos de observação de que as lesões apareciam repetidamente em territórios anatômicos específicos, como paramétrios uterinos, região retrocervical, fáscia de Toldt, fossa ilíaca direita, septo retovaginal, intestino e diafragma direito.
“O conceito consiste em remover a doença como uma unidade anatômica contínua, respeitando os caminhos embriológicos pelos quais ela se desenvolve. Em vez de procurar apenas lesões isoladas, buscamos compreender todo o território comprometido. Essa combinação permitiu construir um verdadeiro mapa tridimensional da endometriose. Esse mapa mostra não apenas onde a doença está localizada, mas também como ela se conecta entre diferentes compartimentos anatômicos, quais estruturas estão comprometidas pela fibrose e quais nervos podem estar sendo afetados pela doença.”
Segundo o especialista, a associação entre o exame físico detalhado, a interpretação criteriosa da ressonância magnética e os conceitos da Neuropelveologia permite compreender melhor a anatomia da doença e planejar abordagens cirúrgicas mais completas.
Apesar dos avanços no conhecimento da doença, não existe uma solução única para todas as pacientes. Em casos mais leves, o tratamento clínico pode auxiliar no controle dos sintomas. Já quando há comprometimento anatômico importante, infertilidade ou envolvimento de órgãos como intestino, sistema urinário e estruturas nervosas da pelve, a indicação cirúrgica pode ser considerada.
“O tratamento da endometriose deve ser individualizado. É preciso avaliar a extensão da doença, sua localização, o impacto funcional e os objetivos reprodutivos de cada mulher. O objetivo do tratamento moderno não é apenas controlar sintomas temporariamente, mas devolver qualidade de vida, fertilidade, funcionalidade e restaurar a anatomia comprometida pela doença”, ressalta Dr. Igor.
Para Dr. Igor Chiminacio, uma das principais barreiras para o diagnóstico continua sendo a normalização da dor feminina.
“Muitas mulheres passam anos acreditando que sofrer durante a menstruação faz parte da vida. Isso frequentemente atrasa o diagnóstico e permite que a doença progrida. A mulher não precisa aceitar a dor como parte da sua rotina. A endometriose tem explicação, tem diagnóstico e tem tratamento. Quanto mais cedo ela for identificada e tratada adequadamente, maiores são as chances de preservar a fertilidade, a qualidade de vida e a saúde da paciente”, conclui Dr. Igor.
Recomenda-se atenção a sinais como dor menstrual intensa, infertilidade, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais ou urinárias relacionadas ao ciclo menstrual, dor lombar recorrente, dor irradiada para as pernas, formigamentos, perda de força muscular e outros sintomas neurológicos que possam sugerir comprometimento dos nervos pélvicos.
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