Primeiro dia do encontro da Sociedade Gaúcha de Infectologia reuniu especialistas em Porto Alegre para discutir temas que impactam a prática médica e a saúde da população
A prevenção de infecções, os avanços no cuidado com o HIV, a atualização em vacinas e o enfrentamento das bactérias resistentes aos antibióticos marcaram a abertura do InfectoTchê 2026, realizado nesta sexta-feira, dia 22 de maio, no Hotel Hilton Porto Alegre. Promovido pela Sociedade Gaúcha de Infectologia (SGI), o encontro reúne médicos infectologistas, residentes, pesquisadores e profissionais da saúde em uma programação voltada à atualização científica e à aplicação prática do conhecimento na assistência.
“Uma das principais características do InfectoTchê sempre foi pensar os temas a partir da realidade de quem está na assistência. Os palestrantes convidados têm uma habilidade muito grande de traduzir os principais avanços, as novas descobertas, as últimas publicações e o que vem sendo apresentado nos congressos para aquilo que realmente pode ser aplicado na nossa prática diária”, destacou o presidente da Sociedade Gaúcha de Infectologia (SGI), Dimas Alexandre Kliemann.
Prevenção do HIV abriu os debates
O primeiro bloco da programação foi dedicado à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), estratégia de prevenção ao HIV indicada para pessoas com maior risco de contato com o vírus. O palestrante José Valdez Madruga, do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo (CRT-SP), apresentou o cenário atual da PrEP, explicou os esquemas disponíveis e abordou perspectivas futuras para ampliar a proteção antes da infecção.
A epidemia de HIV na América Latina segue concentrada em populações vulneráveis, com aumento de novas infecções em grupos como homens que fazem sexo com homens, mulheres trans e trabalhadoras do sexo, conforme dados da UNAIDS 2024.
“Esses grupos estão entre os mais vulneráveis ao HIV e, por isso, têm sido prioritários nos estudos de implementação e nas estratégias de prevenção.”, destacou o infectologista José Valdez Madruga.
A palestrante Mayara Secco, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz (INI Fiocruz), tratou das infecções sexualmente transmissíveis em usuários de PrEP e discutiu o papel da DoxyPEP, estratégia estudada para reduzir o risco de algumas infecções bacterianas após exposição. Segundo dados trazidos aos participantes há incidência de qualquer IST bacteriana de 31,7 casos por 100 pessoas-ano, com registros de clamídia anorretal, sífilis e gonorreia anorretal.
“O que vemos é que todos os diagnósticos registrados no estudo estão concentrados em 31,6% dos participantes. Esse é um dado muito interessante, porque ajuda a pensar em elegibilidade e implementação da DoxyPEP, por exemplo, como uma estratégia de profilaxia biomédica”, destacou.
Cuidado integral com pessoas vivendo com HIV
O palestrante Fábio Leal, do Instituto Nacional de Câncer (INCA), abordou prevenção e rastreamento de câncer nessa população, ressaltando a importância do acompanhamento regular e da identificação precoce de doenças associadas. Na sequência, Estevão Portela, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz (INI Fiocruz), apresentou atualizações do Ministério da Saúde sobre novos módulos do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT).
Novas alternativas para prevenção e tratamento
O Simpósio satélite da GSK discutiu a era dos medicamentos injetáveis na prevenção e no tratamento do HIV. A apresentação foi conduzida pelo presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Ricardo Sobhie Diaz, que abordou novas possibilidades terapêuticas e estratégias capazes de ampliar alternativas para diferentes perfis de pacientes.
Hepatite B e envelhecimento com HIV
O módulo de hepatites virais trouxe uma atualização sobre o tratamento da hepatite B crônica. O palestrante Mario Alvarez, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) lamentou que o enfrentamento das hepatites virais ainda está distante das metas globais de eliminação.
“É triste começar esta aula mostrando que nós não vamos eliminar a hepatite B no prazo previsto e também não vamos eliminar a hepatite C. Isso mostra que os objetivos atuais são menos ambiciosos do que eram há poucos anos. Para mudar esse cenário, precisamos voltar a olhar para as estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento com mais força e organização”, destacou.
Na sequência, a programação abordou o envelhecimento de pessoas vivendo com HIV. A palestrante Roberta Schiavon, do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo (CRT-SP), tratou da fragilidade no idoso vivendo com HIV e das possibilidades de intervenção na prática clínica. A apresentação chamou atenção para a necessidade de ampliar o olhar clínico sobre essa população, que vive mais, mas também passa a conviver com maior frequência com comorbidades, polifarmácia, declínio cognitivo, sarcopenia, risco de quedas e perda funcional.
O palestrante Paulo Alencastro, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), apresentou alterações renais nessa população. Já a palestrante Gisele Cristina Gosuen, da Universidade Federal de São Paulo e Escola Paulista de Medicina (UNIFESP/EPM), discutiu comorbidades metabólicas e tratamento.
Ao final da tarde, o Encontro das Ligas Acadêmicas de Infectologia do Rio Grande do Sul reuniu apresentações da LIMT UFCSPA/UFRGS, edital de fomento a atividades científicas da Sociedade Gaúcha de Infectologia (SGI) e critérios para credenciamento das ligas na Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
Imunizações, resistência bacteriana e prevenção de infecções pautam debates
A Sala 2 reuniu debates sobre resistência bacteriana, imunizações e prevenção de infecções em diferentes fases da vida. Pela manhã, a mesa sobre bactérias extensamente resistentes abordou enterobactérias produtoras de carbapenemase, novas drogas, cenário brasileiro, manejo do Acinetobacter resistente e apoio do laboratório de microbiologia, com participação de Alexandre Zavascki, Maria Helena Rigatto e Laura Antochevis.
Na aula sobre carbapenemases em bacilos Gram-negativos, a palestrante Laura Antochevis destacou dados brasileiros sobre genes de resistência detectados entre 2015 e 2022. “Quando avaliamos a distribuição dos genes de resistência detectados no Brasil, em uma série que vai de 2015 até 2022, passando pelo período da pandemia, vemos que a KPC ainda é a carbapenemase mais prevalente no país, representando 68,6% dos casos analisados. A NDM aparece como a segunda carbapenemase mais frequente, com 14,4%”, destacou.
Alexandre Zavascki ressaltou que a discussão sobre antimicrobianos deve considerar as limitações das evidências disponíveis e os desafios reais da assistência. “Mais do que dizer se determinada conduta tem ou não evidência, buscamos adaptar a discussão à realidade do atendimento. A ideia é entender os problemas que o clínico enfrenta no dia a dia e apresentar possibilidades de solução com as drogas que temos disponíveis”, afirmou.
No eixo de imunizações, a programação tratou de calendários, plataformas vacinais e vacinação contra dengue no Brasil, com Fabiano Ramos, além de atualizações sobre candidemia e rezafungina, com Alessandro Pasqualotto. À tarde, os debates abordaram prevenção de infecções virais em imunossuprimidos e idosos, imunização em adultos e idosos e cobertura vacinal contra o papilomavírus humano (HPV) em adolescentes.
A palestrante Fernanda Casarotto defendeu a vacinação no ambiente escolar como estratégia para ampliar coberturas. “Todo país que vacina dentro do colégio vacina melhor. No Brasil, as crianças e adolescentes têm o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, que estabelece que, se uma vacina está no calendário do Ministério da Saúde, é direito daquela criança e daquele adolescente receber a imunização”, destacou.
No encerramento, a Sala 2 voltou-se à Pediatria, com discussões sobre prevenção de infecções respiratórias em crianças, incluindo Influenza, COVID-19 e vírus sincicial respiratório (VSR), além dos avanços na imunização contra pneumococo.
Programação
O InfectoTchê 2026 segue neste sábado, dia 23 de maio, com o último dia de programação no Hotel Hilton Porto Alegre. As atividades terão debates sobre saúde da mulher, menopausa e HIV, mulheres vulnerabilizadas no Rio Grande do Sul, integração de cuidados no enfrentamento da epidemia de HIV e o papel de diferentes especialidades, como Proctologia, Urologia, Ginecologia e Dermatologia. Também estão previstos o Programa Saúde Mais (Oncotrata), a apresentação da Carta de Porto Alegre e a mesa sobre doença fúngica invasiva, com discussões sobre histoplasmose, candidemia, fungos filamentosos e caso clínico. O encerramento ocorrerá ao final da manhã, consolidando dois dias de atualização científica e troca de experiências em Infectologia.Mais informações podem ser acompanhadas no site oficial do evento https://www.infectotche.com. br/
Redação: Marcelo Matusiak

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