Sucessor escolhido pelo ex-prefeito transforma autonomia administrativa em ofensiva eleitoral, associa dificuldades fiscais ao legado recebido e se movimenta ao lado de adversários políticos — enquanto Fúria reage com argumentação técnica e tenta conter o desgaste antes que ele se torne irreversível



Rondônia Dinâmica



Arte ilustrativa recorre à metáfora de Nero, com fogo e fumaça, para sintetizar o embate político em Cacoal: de um lado, declarações do prefeito Tony Pablo com impacto na pré-campanha estadual; de outro, a reação do ex-prefeito Adaílton Fúria na tentativa de conter o desgaste / Reprodução - Charge (IA)


PORTO VELHO, RO - Há crises que nascem de divergências genuínas. Há outras que nascem de cálculo. O que se instalou em Cacoal, a partir das declarações públicas do prefeito Tony Pablo sobre o ex-prefeito Adaílton Fúria (PSD), pertence à segunda categoria. A sequência de falas, aparições e posicionamentos do atual chefe do Executivo municipal compõe um movimento que vai além da afirmação de autonomia administrativa e opera, de forma cada vez menos disfarçada, como uma ofensiva deliberada contra a pré-candidatura de Fúria ao Governo de Rondônia. O alvo é a imagem do ex-prefeito como administrador. O momento é o de maior exposição possível: o início de uma pré-campanha estadual. E a arena escolhida foi a mais eficaz disponível — o debate público.


Tony Pablo declarou, sem rodeios, que não tem "compromisso nenhum de ser pautado ou guiado por outros políticos ou pelo ex-prefeito". Afirmou que seu compromisso é com a cidade de Cacoal e com a população, e rejeitou o que chamou de "ideia antiga, velha, de que todos os vices devem favor ou tem esse tipo de compromisso de ficar cego, surdo e mudo e servir de capacho ou de boneco daquele que foi ou era o titular". Ao mesmo tempo, o prefeito trouxe ao debate público números que descrevem o cenário fiscal do município: déficit na saúde de R$ 2,9 milhões, fluxo de caixa negativo de quase R$ 8 milhões e perspectiva descrita como "difícil" em razão da abertura de hospital. O próprio Tony Pablo reconheceu que suas declarações ocorriam em um ambiente de pré-campanha, ao afirmar que acompanhava a repercussão do caso de Brasília, onde estava.


A combinação dessas duas linhas — rejeição pública de subordinação política e exposição de dificuldades fiscais — não é neutra. Ela constrói, diante da opinião pública, uma narrativa de dupla entrada: a de um gestor que age com independência e a de uma administração que enfrenta obstáculos herdados. Mesmo que Tony Pablo não tenha feito essa associação de forma explícita, a lógica do discurso a produz por inferência. Em um ambiente de pré-campanha, inferências valem tanto quanto declarações — e às vezes mais, porque são mais difíceis de contestar.


É nesse ponto que a análise precisa ser honesta também em relação a Adaílton Fúria. Tony Pablo não chegou ao cargo por acaso. Foi Fúria quem o escolheu como vice, quem construiu a chapa, quem definiu os termos da sucessão. A composição de uma aliança política é sempre responsabilidade do titular do projeto. Quando essa escolha se converte em fonte de instabilidade, o ônus recai igualmente sobre quem a fez. Parte da crise atual não nasce de uma traição circunstancial, mas de uma arquitetura política que falhou em seu pressuposto central: a garantia de continuidade e alinhamento estratégico após a transição de poder. Isso não exime Tony Pablo da responsabilidade por suas declarações, mas impede que o episódio seja lido apenas como ingratidão. Há, também, erro de avaliação e confiança depositada sem a sustentação necessária.


A resposta de Fúria, dada em entrevista à Rádio Terra FM 89.9, de Cerejeiras, revelou uma estratégia de contenção construída sobre dois eixos sólidos. O primeiro foi técnico e orçamentário. Questionado sobre o suposto endividamento de R$ 7 milhões, o ex-prefeito contestou a premissa com objetividade: "Dívida de 7 milhões por um orçamento de 550 milhões? Na verdade, Giovanni, eu liguei pra ele pra entender o que tava acontecendo. Como ele tá no processo de transição, a gente sobrevive muito de emenda parlamentar."

A partir daí, Fúria delineou a lógica orçamentária que, segundo ele, rege a administração de qualquer município de porte semelhante ao de Cacoal: o recurso próprio da prefeitura sustenta a manutenção daquilo que já está em funcionamento; tudo o que representa expansão, investimento ou programa novo depende de captação externa, junto à bancada federal, ao governo estadual ou a outras fontes institucionais. "Ah, mas não é que tem déficit de 7 milhões, é que tem programações pra acontecer durante o ano que tem um custo de 7 milhões e que você tem que captar recurso pra isso. Se você não captar recurso, você não faz", afirmou.


Essa linha argumentativa não se encerra na defesa do passado. Ela aponta, com precisão, para a responsabilidade do presente. Ao afirmar que já chegou a captar mais de R$ 30 milhões em um único ano junto à bancada federal, Fúria estabelece um parâmetro concreto de gestão e, simultaneamente, desloca o ônus da execução para quem hoje ocupa o cargo.


"Agora, se você ficar sentado numa cadeira esperando o dinheiro cair do céu, você esquece que vai desconstruir tudo aquilo que nós construímos", declarou. O recado é direto: identificar dificuldades não é governar. Governar é buscar soluções, negociar recursos e sustentar o que foi construído — tarefa que pertence ao gestor do presente, não ao do passado.


O segundo eixo da defesa foi institucional e, nesse campo, Fúria pisou em terreno firme. O ex-prefeito destacou que suas contas foram aprovadas por cinco anos consecutivos pelo Tribunal de Contas do Estado de Rondônia, sem ressalvas, com parecer favorável do Ministério Público de Contas e do Ministério Público Estadual, além de três auditorias realizadas em Cacoal, todas com resultado positivo. "Os conselheiros do Tribunal de Contas aprovaram as minhas contas para o quinto ano consecutivo sem nenhum apontamento", afirmou. 

Ao trazer esse conjunto de validações institucionais para o centro da resposta, Fúria transfere o debate do campo da percepção para o da aferição técnica. Não se trata de retórica política, mas de registro documental acumulado ao longo de cinco exercícios fiscais. Esse é o elemento mais difícil de atacar na narrativa do ex-prefeito, e sua inserção no debate cumpre uma função precisa: blindar a imagem administrativa de Fúria justamente onde Tony Pablo tentou feri-la.


O que torna o episódio mais grave, no entanto, é o contexto que envolve as declarações do atual prefeito. Tony Pablo já apareceu publicamente ao lado de Hildon Chaves e Cirone Deiró, pré-candidatos a governador e vice por campo político adversário ao de Fúria, e, mais recentemente, ao lado do senador Marcos Rogério, do PL, no Congresso Nacional. Esse conjunto de movimentações retira qualquer ambiguidade razoável sobre a natureza das suas falas. Elas não são apenas expressão de independência administrativa. Elas integram um reposicionamento político em curso, com alinhamentos que se opõem diretamente ao projeto eleitoral do ex-prefeito. Quando se observa esse histórico ao lado das declarações sobre caixa negativo e ausência de compromisso, a leitura se impõe por si mesma: o que se apresenta como prestação de contas é, na prática, material de desgaste eleitoral, produzido e distribuído no momento mais sensível da pré-campanha adversária.


Se a narrativa clássica estiver correta — e se as versões de Tácito, Suetônio e Dio Cássio fossem comprovadas — Nero teria incendiado Roma para reconstruí-la sob sua própria lógica de poder, enquanto, simbolicamente, dedilhava sua lira diante do caos. Guardadas as proporções e no campo estritamente figurativo, o movimento observado em Cacoal carrega ecos desse enredo: ao vocalizar críticas públicas e tensionar a narrativa administrativa, Tony Pablo acaba por lançar labaredas não apenas sobre a gestão em curso, mas também sobre a pré-campanha de Adaílton Fúria ao governo do Estado, numa dinâmica que sugere mais combustão política do que simples divergência administrativa.
A diferença central está na resposta. Fúria optou por agir rapidamente, ancorando sua defesa na necessidade permanente de captação de recursos, na lógica orçamentária municipal e no histórico reiterado de aprovação de contas pelos órgãos de controle, deslocando o debate do campo da acusação para o da responsabilidade de gestão. Nesse ponto, a linha divisória se torna nítida: não há como transferir ao passado a incumbência de executar no presente. A função de buscar recursos, negociar e sustentar o caixa é inerente ao gestor que ocupa o cargo, independentemente das circunstâncias que o levaram até ele.


Ao mesmo tempo, o histórico recente de Tony Pablo — que já apareceu publicamente ao lado de Hildon Chaves, Cirone Deiró e, mais recentemente, de Marcos Rogério — reforça a leitura de que as declarações públicas ultrapassam o limite da autonomia administrativa e avançam sobre o terreno da disputa política, com potencial direto de desgaste à imagem do ex-aliado. Nesse cenário, embora Fúria tenha reagido em tempo e com argumentação consistente, o episódio deixa uma marca: a história costuma ser implacável com movimentos percebidos como desleais, e, ao insistir em incendiar o debate, o atual prefeito corre o risco de ver sua própria reputação ser consumida pelas chamas que ajudou a alimentar. As informações são do site Rondônia Dinâmica.

Texto originalmente publicado em https://www.rondoniadinamica.com/noticias/2026/05/furia-apaga-incendio-aceso-por-tony-pablo-mas-a-fumaca-ja-alcancou-a-pre-campanha-ao-governo-de-rondonia,243654.shtml