A reforma tributária é uma realidade. Ela costuma ser resumida a algumas novas siglas e percentuais, mas seu efeito mais importante pode aparecer em outro lugar: na forma como empresas contratam e negociam com prestadores de serviço. À medida que o novo sistema amplia a lógica de crédito tributário ao longo da cadeia, o custo efetivo de uma contratação passa a variar mais, mesmo quando o valor pago é o mesmo. Ou seja: não é mais sobre quanto você ganha, mas principalmente sobre quanto você custa para quem te contrata.

Um exemplo concreto dessa dinâmica está no mercado de saúde. Para médicos que atuam como pessoa jurídica, a reforma já começa a aparecer nas conversas de contratação, renovação de contrato e disputa por plantões (e isso deve se intensificar rapidamente), porque o regime tributário influencia o crédito gerado para quem contrata. Quem explica é a Caveo, plataforma financeira da carreira médica, que tem reunido profissionais da área em conversas para explicar as mudanças e seus impactos práticos.

“O debate não é só sobre tributo porque, quando a lógica de crédito muda, muda também a conta do contratante. Para o prestador, isso aparece nas negociações, nas cláusulas de contratos e, consequentemente, no poder de escolha”, afirma Wilgo Cavalcante, CEO da Caveo.

O básico para entender sem ser um especialista no assunto? Vamos lá

Hoje, quem te contrata olha basicamente quanto está te pagando. Com a Reforma Tributária, passa a olhar quanto você custa de verdade. Isso acontece porque, ao te pagar, o contratante pode recuperar parte dos tributos, como se fosse um “cashback”. E esse valor muda dependendo de como você os paga. Ou seja, dois médicos que vão receber o mesmo valor podem ter custos diferentes para o hospital, e isso começa a pesar nas negociações. A reforma cria também dois novos tributos (CBS e IBS), que na saúde devem ficar em torno de 10,8% quando a transição para o novo modelo for concluída. Mas, o principal não é o percentual. É o fato de que a forma de tributação da sua empresa passa a influenciar diretamente suas oportunidades de trabalho.

O conceito que muda a negociação: crédito tributário

A lógica do novo sistema amplia o crédito tributário ao longo da cadeia. Na prática, isso significa que o contratante pode gerar crédito ao pagar um prestador e usar esse crédito para abater tributos próprios. É por isso que, em alguns setores, o regime do prestador tende a ganhar peso como critério adicional na negociação.

Para ilustrar, a Caveo usa um exemplo simples: em um cenário de pagamento de R$ 10 mil, o prestador recolhe CBS/IBS e o contratante pode se apropriar de um crédito. No recorte apresentado para a saúde, a diferença entre regimes aparece de forma objetiva. Num mesmo pagamento de R$ 10 mil:

  • um médico CNPJ no Lucro Presumido gera crédito de R$ 1.080 e leva a um custo real estimado de R$ 8.920 para o hospital;
  • um médico CNPJ no Simples Nacional gera crédito de R$ 295 e leva a um custo real estimado de R$ 9.705.

A conclusão é que, ao comparar competência, plantões e honorários iguais, o contratante pode enxergar uma diferença econômica que pesa na conversa a partir do regime escolhido pelo profissional. Na prática, é como se dois médicos que vão receber o mesmo valor tivessem preços diferentes para o hospital.

Por que 2027 é o marco

Pense em uma linha do tempo de 2026 a 2033. Em 2026, já começa um período de teste, quando CBS e IBS passam a aparecer em notas fiscais em percentuais reduzidos (0,9% de CBS e 0,1% de IBS), com foco na adaptação dos sistemas e em testes governamentais.

Já 2027 é tratado como o ano em que “tudo muda de verdade”: PIS e Cofins deixam de existir, a CBS entra com alíquota cheia para saúde (3,4%), o IBS segue em 0,1%, e o crédito passa a operar de forma mais estruturada. É a partir daqui que os contratantes tendem a considerar o regime tributário nas decisões de contratação.

Entre 2029 e 2032, a transição é gradual, com convivência de sistemas, e em 2033 veremos o desenho completo, com CBS 3,4%, IBS 7,4% e total de 10,8%, além de extinção de ICMS e ISS.

Situações que tendem a aparecer na prática

No recorte da saúde, a Caveo aponta quatro situações comuns em que o tema pode aparecer: renovação de contrato, concorrência por plantões, negociação de honorários e novos contratos e editais com critérios mais explícitos. Importante: o Simples Nacional não acaba, mas naturalmente vai perder competitividade, já que hospitais e empresas em geral vão preferir contratar prestadores que gerem mais crédito tributário.

Afinal, o que manter no radar agora? Em 2026, já é importante observar se os contratos começam a mencionar informações sobre regimes e se os contratantes passarão a fazer perguntas sobre isso; a partir de 2027, atenção redobrada em renovações e em cláusulas relacionadas ao tema. A Caveo também aponta que o novo sistema pode mudar formas de recolhimento, ou seja, os tributos poderão ser pagos automaticamente no momento do seu recebimento (o chamado split payment), ou até ser pagos pelo próprio contratante.

Por fim, importante notar: como a alíquota referencial do Imposto sobre Valor Agregado brasileiro (IBS + CBS) não foi definida oficialmente, os percentuais citados neste texto ainda não são oficiais, apesar de embasados em apresentações realizadas pelo Ministério da Fazenda.

Sobre a Caveo
A Caveo é a plataforma financeira da carreira médica, criada para estruturar e integrar a vida financeira do médico PJ ao longo da trajetória profissional.