Apesar dos avanços da medicina nas últimas décadas, milhões de pessoas em todo o mundo ainda enfrentam o fim da vida com dores intensas e desnecessárias. Segundo dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Worldwide Hospice Palliative Care Alliance, mais de 56 milhões de pessoas precisam de cuidados paliativos a cada ano, mas apenas uma fração recebe atendimento adequado. Ainda mais alarmante, cerca de 18 milhões morrem anualmente sem acesso a intervenções eficazes para o alívio da dor.
A médica Samanta Gaertner Mariani, especialista em cuidados paliativos, explica que esse cenário não se deve à falta de conhecimento médico, mas a desigualdades estruturais. “Estamos diante de uma contradição: temos conhecimento e recursos para aliviar a dor, mas ainda falhamos em garantir que esse cuidado chegue a quem precisa, no momento certo. A dor evitável persiste porque o cuidado ainda não é tratado como um direito universal.”, afirma.
Mariani destaca que a dor não tratada pode impactar negativamente o prognóstico dos pacientes, agravando desfechos clínicos e prolongando o sofrimento. Além disso, políticas regulatórias rígidas e o receio do uso indevido de medicamentos frequentemente dificultam sua prescrição, mesmo quando clinicamente indicados. Esse paradoxo global se manifesta de forma desigual: enquanto alguns países enfrentam crises relacionadas ao uso excessivo de opioides, outros convivem com a ausência desses recursos básicos para o alívio da dor. Assim, embora políticas restritivas para a prescrição de opioides sejam necessárias, é fundamental garantir também o acesso a essas medicações quando indicadas e prescritas por profissionais devidamente capacitados.
Outro obstáculo importante é o tabu em torno da morte, já que, em muitos contextos, falar sobre cuidados paliativos ainda é interpretado como desistência do tratamento curativo, atrasando encaminhamentos e limitando o impacto positivo dessa abordagem. Além disso, a especialista lembra que a dor não tratada vai muito além do sintoma físico. “A dor afeta o emocional, compromete relações familiares e pode gerar sofrimento psicológico profundo. Quando não tratamos a dor, estamos negligenciando o ser humano em sua totalidade.”, diz.
Com o envelhecimento da população global e o aumento das doenças crônicas, a demanda por cuidados paliativos deve crescer significativamente nas próximas décadas. Garantir que uma pessoa não sofra desnecessariamente no fim da vida é, como ressalta Mariani, uma responsabilidade dos sistemas de saúde, dos profissionais e da sociedade.
Porém, enquanto o cuidado não for reconhecido como um direito universal, o avanço científico continuará convivendo com uma realidade inaceitável: pessoas morrerão não pela doença em si, mas pela ausência de dignidade no cuidado. “Aliviar a dor não é apenas uma possibilidade da medicina moderna, é uma obrigação ética. Quando isso não acontece, não falhamos como ciência, falhamos como sociedade”, conclui Samanta Gaertner Mariani.


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