A invasão de um supercomputador estatal chinês, ocorrida ao longo de meses e reportada recentemente, resultou em um possível vazamento de cerca de 10 petabytes de informações sensíveis, no que pode ser considerado o maior roubo de dados da história da China. Para se ter uma ideia da gravidade do ocorrido, o sistema invadido (localizado em Tianjin) fornece serviços de infraestrutura estratégicos para mais de 6 mil clientes em todo o país, incluindo agências de ciência avançada e de defesa. Entre as informações extraídas, havia pesquisas em diferentes áreas, incluindo engenharia aeroespacial, pesquisa militar, bioinformática, simulação de fusão, entre outros.
Em um contexto desafiador de negócios e disputas geopolíticas globais, a cibersegurança de sistemas estratégicos tem se consolidado como a pauta de vez na ordem do dia. Segundo a pesquisa Global Cybersecurity Outlook 2026, realizada pelo Fórum Econômico Mundial, em parceria com a Accenture, para 64% das instituições as motivações geopolíticas são consideradas, hoje, o principal potencial motivador de ciberataques (interrupção de infraestruturas nacionais críticas, espionagem, entre outros) em suas estratégias de mitigação de riscos.
Supostamente, a invasão ao sistema chinês teria ocorrido por meio do uso de um botnet, sistema que pode permitir o controle remoto de dispositivos infectados. Segundo pesquisa da Fortinet, líder mundial em segurança digital, esse tipo de estratégia apresenta crescente profissionalização em ciberataques - até mesmo direcionados ao Brasil. Somente, no primeiro semestre do último ano, foram identificadas mais de 52 milhões de ações relacionadas a botnets com foco neste país.
Especialistas no setor destacam que a segurança digital de sistemas se tornou imperativo de empresas, agentes privados, além da agenda prioritária de governos em prol da soberania digital. Logo abaixo, separamos alguns porta-vozes para entrevistas que ajudam a entender como isso se relaciona com temas como cibersegurança, soberania digital e arquiteturas que fortaleçam os sistemas desde a concepção.
Segundo Frederico Tostes, country manager da Fortinet Brasil, a economia associada a essa atuação clandestina tende a se tornar ainda mais estruturada este ano. O laboratório da Fortinet afirmou no início de 2026 que o cibercrime continuará evoluindo para uma indústria organizada, incorporando automação, especialização e inteligência artificial. "Acreditamos que até 2027 o cibercrime opere em uma escala comparável à de indústrias globais legítimas. Os serviços de aluguel de botnets e de credenciais, por exemplo, vão apresentar maior nível de personalização. O aprimoramento e a automação no tratamento de dados vão possibilitar que os fornecedores disponibilizem pacotes de acesso mais segmentados, considerando variáveis como setor de atuação, localização geográfica e perfis de sistemas, em substituição aos modelos genéricos que atualmente predominam nos mercados ilícitos", comenta Tostes. Como consequência dessas transformações, o cibercrime tende a acelerar sua trajetória em direção a um modelo cada vez mais industrializado.
Para Felipe Lutz, CIO da Outsera, empresa de outsourcing de profissionais de tecnologia de alta performance. “Fica cada vez mais claro que a segurança digital de sistemas é uma necessidade cada vez mais estratégica não só de empresas e agentes privados, mas também deve entrar na agenda prioritária de governos em prol da soberania digital. A segurança também deve ser encarada para além de uma camada externa de proteção que blinda o sistema: deve ser levada em consideração desde a concepção da arquitetura de um software, de um sistema”, diz Felipe Lutz, CIO da Outsera.
Já para Rafael Dantas, Head de Cibersegurança da TLD, empresa referência em tecnologia: “casos como esse evidenciam que ataques cibernéticos deixaram de ser eventos isolados para se tornarem instrumentos estratégicos em disputas geopolíticas. Quando infraestruturas críticas são comprometidas, o vazamento de dados atinge diretamente a soberania tecnológica e a segurança nacional. Por isso, é fundamental que organizações e governos adotem uma abordagem que combine inteligência de ameaças, resiliência operacional e proteção desde a concepção dos sistemas, reduzindo vulnerabilidades estruturais e ampliando a capacidade de resposta frente a ataques cada vez mais sofisticados.”
Caio Braga, COO da Profectum Tecnologia, especialista em eficiência operacional, processos e execução estratégica comenta que “o erro de muitos líderes é tratar a segurança como um silo isolado da TI. Na prática, a segurança robusta é um subproduto de uma operação bem desenhada. Segurança hoje é uma disciplina de governança contínua. Se você não tem controle absoluto sobre como sua operação flui, você não tem controle sobre a proteção dos seus ativos. O caso chinês é o lembrete definitivo: o risco operacional está embutido na arquitetura do negócio”.
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