Dr. Marcelo Valadares, médico responsável pela área de Neurocirurgia Funcional da Unicamp e especialista no tratamento do Parkinson, destaca que avanços podem trazer novas perspectivas para os pacientes
O Mês de Conscientização sobre a Doença de Parkinson (instituído pela Lei nº 14.606/2023), celebrado em abril, alerta sobre o alcance e os sinais da doença, mas também traz à tona avanços no manejo clínico com potencial para proporcionar melhor qualidade de vida aos pacientes. Entre os recursos terapêuticos em destaque estão tecnologias menos invasivas para o controle de sintomas, sistemas de infusão contínua de medicação e terapias celulares ainda em fase inicial de incorporação clínica.
Uma das últimas incorporações à prática médica é o HIFU (High-Intensity Focused Ultrasound), ou ultrassom focalizado de alta intensidade, um procedimento médico minimamente invasivo e adaptado às necessidades individuais do paciente. No Brasil, a tecnologia já conta com aprovação regulatória, mas a aplicação é limitada: apenas indivíduos com tremor predominante causado por Parkinson refratário à medicação são candidatos à terapia.
Por meio de um transdutor, o procedimento direciona ondas sonoras de alta intensidade para atingir, com precisão milimétrica, uma área específica do cérebro relacionada ao tremor, sem abertura do crânio. “É uma alternativa avançada, que exige mapeamento complexo e teste durante o procedimento e pode trazer benefícios quase imediatos, com duração prolongada, para pacientes que se enquadram nos critérios”, explica o Dr. Marcelo Valadares, médico responsável pela área de Neurocirurgia Funcional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista no tratamento do Parkinson. A redução do tremor - especialmente quando afeta o lado dominante do corpo - pode proporcionar melhora substancial da coordenação motora, restaurando autonomia e elevando a qualidade de vida.
No campo dos medicamentos, a infusão contínua subcutânea de foslevodopa/foscarbidopa é vista como uma alternativa promissora para pacientes com Parkinson avançado e flutuações motoras importantes. A terapia já é aplicada em dezenas de países, mas no Brasil, o registro do medicamento comercial ainda aguarda aprovação da Anvisa. Por ser administrada por meio de uma bomba subcutânea, permite uma oferta mais linear da medicação ao longo de 24 horas, com manutenção mais estável dos níveis de levodopa na corrente sanguínea, o que reduz as oscilações motoras comuns nas fases avançadas da doença.
Há expectativa, ainda, em torno das terapias celulares destinadas à reposição de neurônios dopaminérgicos. Em março de 2026, o Japão concedeu aprovação condicional e por prazo limitado ao Amchepry (raguneprocel), para indivíduos com Parkinson que apresentam resposta inadequada aos tratamentos farmacológicos disponíveis, incluindo os que contêm levodopa. A decisão se baseou em estudo de fase 1/2 conduzido no Hospital da Universidade de Kyoto, que sugere segurança e potencial benefício clínico. Ainda assim, trata-se de uma abordagem inicial, sujeita a acompanhamento pós-comercialização e distante, por ora, de uma incorporação ampla na prática assistencial.
Tratamentos consolidados para o Parkinson
O tratamento padrão-ouro para a doença de Parkinson continua sendo a levodopa, sobretudo por sua capacidade de suprir a deficiência de dopamina nas vias cerebrais responsáveis pelo controle do movimento. Ao longo da evolução da doença, segue como a medicação mais eficaz para o controle de bradicinesia (lentidão de movimentos) e rigidez, embora muitos pacientes passem a apresentar flutuações motoras, discinesias (movimentos involuntários) e períodos de perda de efeito entre as doses. “A administração da levodopa é eficaz em muitos casos, mas a progressão da doença pode demandar eventuais ajustes de dose, combinações de medicamentos e, quando necessário, a indicação de terapias avançadas”, analisa o médico.
Entre as terapias avançadas já consolidadas, a estimulação cerebral profunda (DBS) permanece como uma das principais alternativas para indivíduos com sintomas motores mais complexos ou menos responsivos ao tratamento medicamentoso. Com a seleção do paciente ideal, a aplicação dessa terapia neuromodulatória é especialmente útil para indivíduos com flutuações motoras ou intolerâncias aos efeitos colaterais das medicações.
Segundo o Dr. Valadares, os tratamentos mais recentes têm papéis específicos. “O ultrassom focado é menos invasivo e tem efeito rápido, porém não atua sobre a maioria dos sintomas do Parkinson, aliviando apenas o tremor. Já a infusão contínua de foslevodopa/foscarbidopa ainda não está disponível no Brasil e tende a apresentar um custo elevado no médio e longo prazo, enquanto as terapias celulares representam uma fronteira promissora, mas ainda muito inicial do ponto de vista da aplicação”, analisa o especialista.
A ampliação do acesso a esses tratamentos é fundamental para atender um número maior de pacientes e oferecer novas possibilidades terapêuticas para a recuperação da autonomia e da qualidade de vida. “É crescente a expectativa de que essas inovações sejam incorporadas de maneira mais ampla à prática clínica. Medidas que acelerem o acesso a esses tratamentos são sempre bem-vindas, mas sem perder de vista a segurança dos pacientes”, conclui o neurocirurgião.
Sobre o Dr. Marcelo Valadares:
Dr. Marcelo Valadares é neurocirurgião do Einstein Hospital Israelita e médico responsável pela área de Neurocirurgia Funcional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Sua prática clínica concentra-se na neuromodulação aplicada ao tratamento de distúrbios do movimento – como o Parkinson –, dor crônica e epilepsia, além da realização de procedimentos e cirurgias menos invasivas da coluna voltadas a patologias degenerativas e síndromes dolorosas.
Como coordenador da pós-graduação em Neuromodulação do Einstein, atua na estruturação acadêmica e na qualidade científica do programa. Na Unicamp, participa da formação de médicos residentes em Neurocirurgia no Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas. É também responsável pelo fellowship em Dor do Grupo de Tratamento de Dor de São Paulo, onde atua na formação de especialistas na área. Ao longo de sua trajetória, ministrou cursos de estimulação cerebral, estimulação medular e tratamento intervencionista da dor para mais de 200 médicos no Brasil e na América Latina.
É fundador e diretor do Grupo de Tratamento de Dor de São Paulo, estrutura multidisciplinar voltada ao manejo integrado da dor.
Graduado em Medicina pela Unicamp, possui título de especialista em Neurocirurgia pela Unicamp/AMB e mestrado em Neurologia pela mesma instituição. É membro da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN), da International Neuromodulation Society (INS) e da Movement Disorders Society (MDS). Possui formação complementar em pesquisa clínica pela Harvard Medical School.


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