A carne de burro virou notícia na imprensa nesta última semana após um restaurante argentino, em Trelew, na Patagônia, promover um evento de degustação de pratos feitos com a proteína, que em poucas horas se esgotaram. O açougue da região, que passou a vender a carne, também viu seu estoque acabar rapidamente.
E como o mercado é soberano, ou seja, o consumidor aprovou o sabor da carne de jumento. Agora, uma iniciativa idealizada por um único produtor já está ganhando a adesão de outros no país. O idealizador do projeto, o produtor rural argentino Julio Cittadini, afirmou que não há qualquer relação entre o sucesso do lançamento da carne e a atual situação econômica da Argentina. A história, na verdade, está ligada a um realinhamento da estratégia de produção de carne para atender o mercado local.
Pecuarista há 60 anos, ele criava ovelhas na província de Chubut, na Patagônia. Porém, por conta de predadores da região, como o puma, já não conseguia mais manter um rebanho de ovinos para produção de carne. Como as condições geográficas da Patagônia não são favoráveis à criação de bovinos, Cittadini apostou no burro, um animal que há décadas faz parte da história do local e, no passado, foi muito utilizado para trabalhos de transporte.
O projeto vem sendo estruturado há dois anos pelo pecuarista e tem a autorização das autoridades sanitárias locais e nacionais para o abate. Como são rústicos e férteis, os asininos adaptaram-se muito bem às condições da Patagônia, cujo clima é rigoroso e o relevo é irregular, além de não sofrerem com os ataques de pumas.
O custo mais baixo do quilo da carne de burro (7500 pesos - R$ 26,97 na cotação atual) trata-se de uma estratégia das autoridades locais para promover o produto entre os consumidores nesta primeira fase do projeto. O sabor é parecido com o da carne bovina, favorecendo sua rápida popularização neste curtíssimo tempo em que chegou ao mercado.
Um ponto a se destacar é que, mesmo sendo grandes consumidores de carne bovina, com uma média de consumo per capita de carne bovina (49,4 kg/hab/ano) bem acima de outros países, os argentinos sempre apreciaram outros tipos de carne, como a de guanaco e a de lhama.
Na província de Corrientes, está em andamento um projeto para processar carne de espécies que não fazem parte da fauna local, como o veado-axis e o javali, garantindo a estruturação de uma indústria com valor agregado e controles sanitários. A iniciativa visa reduzir o impacto ambiental dessas espécies e gerar novas oportunidades econômicas em áreas rurais. O plano inclui a participação do setor privado e o apoio de municípios como Sauce e Perugorría, onde essas espécies se reproduzem em alta taxa.
Apesar do sucesso da carne de jumento entre os consumidores, houve uma reação por parte de ONGs, que entraram na Justiça para impedir o abate, alegando que o Código Alimentar Nacional proíbe o consumo. O Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar (Senasa) informou que não há qualquer restrição ao consumo de carne de burro. Segundo o produtor Julio Cittadini, a legislação cita somente que qualquer carne, para ser consumida pela população argentina, precisa ser produzida dentro dos requisitos sanitários.
Procura pelo leite de jumenta aumenta- E não é só a carne. Agora, o leite de burra também está ganhando repercussão na Argentina e vem sendo apontado como uma das propostas mais inovadoras do setor lácteo argentino. O produto é divulgado como uma das novidades da feira TodoLáctea, que se realizará em maio, em Córdoba. O leite de burra tem grande valor nutricional, aplicações terapêuticas, é reconhecido por ser hipoalergênico e ter uma composição similar à do leite materno, além de potencial para desenvolvimento industrial, já que tem alto valor agregado.
Consumo no mundo- A carne e o leite de jumento são consumidos e produzidos em diversos países, inclusive da Europa, África, além de China e México. No Brasil, a iniciativa de estruturar uma cadeia produtiva de jumentos, com a mesma finalidade, ainda é incipiente. Segundo criadores e pesquisadores, o potencial para produção de leite é grande e poderá beneficiar os pequenos produtores, principalmente de regiões tradicionais na criação de jumentos, como o Nordeste.
Foi o que aconteceu com a cadeia produtiva de carne e leite de bovinos. Hoje, o Brasil é o maior produtor de carne do mundo e tem avançado na produção de leite, gerando renda para milhões de brasileiros. Isso só aconteceu porque os brasileiros tiveram visão de futuro e investiram na multiplicação e melhoramento das raças bovinas, contribuindo tanto para tornar o agro brasileiro uma grande potência quanto para a preservação das raças, bem como a formação de outras.


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