Dados recentes sobre violência de gênero e saúde mental revelam uma crise: o aumento de feminicídios e abusos está ligado a um pior estado emocional das mulheres, exigindo resposta urgente em saúde pública

Neste 8 de março, quando se celebra o Dia Internacional da Mulher, a sociedade enfrenta um paradoxo doloroso. Apesar das conquistas em direitos e igualdade, o aumento de casos de violência contra a mulher, inclusive feminicídios, reflete um cenário de sofrimento profundo que vai além das estatísticas criminais: tem consequências graves e duradouras na saúde mental das vítimas.

Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, compilado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (LESFEM/UEL), No Brasil, indica que, em 2025, aconteceram 6.904 casos de feminicídio consumado e tentado, um aumento de 34% em relação ao número de casos do ano anterior, 5.150. É uma média de de 5,89 mulheres mortas por dia no país.

Estes dados revelam apenas a ponta mais trágica da violência, já que, antes do desfecho letal, e mesmo que ele não aconteça, milhares de mulheres vivem ciclos de abuso físico, emocional, sexual e psicológico.

Uma pesquisa da Universidade de Glasgow (Escócia) publicada no periódico BMJ Mental Health descobriu que encontrou que 30% das mulheres já passaram por algum tipo de violência perpetuada por parceiros: física, psicológica, persecutória (stalking) ou sexual. E aquelas expostas à violência física no relacionamento apresentaram taxas significativamente mais altas de depressão, ansiedade, estresse pós-traumático e distúrbios do sono até 27 anos após a violência.

Pesquisas como essa não apenas confirmam o sofrimento emocional imediato causado pela violência, mas também demonstram que o trauma pode se enraizar ao longo dos anos, alterando a saúde mental e diminuindo a qualidade de vida.

“Os efeitos da violência de gênero na saúde mental das mulheres são profundos e frequentemente subestimados”, afirma a psiquiatra Daniele Admoni, especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e supervisora na residência de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM). “O abuso contínuo pode desencadear transtornos como depressão grave, ansiedade crônica, transtorno de estresse pós-traumático, que podem persistir por anos”, diz.

Quando uma mulher vive sob ameaça constante, seu sistema nervoso entra em estado permanente de alerta e desgaste. Isso pode afetar sono, memória, regulação emocional e até relações sociais e familiares.

O feminicídio, definido como o assassinato de uma mulher por motivo de gênero, é o desfecho mais extremo de um ciclo de violência que muitas vezes inclui agressões repetidas por parceiros íntimos.

Nesse contexto, a violência psicológica e emocional é perigosa, pois muitas vezes é ignorada tanto pelas vítimas quanto pelas redes de apoio, apesar de estar fortemente associada a trauma emocional acumulado e depressão crônica ao longo da vida. Foi o que mostrou um estudo do Centro Nacional Dinamarquês de Psicotraumatologia, publicado na revista científica Systematic Reviews.

O trabalho compilou 194 pesquisas que mostraram que a violência psicológica está fortemente associada a depressão, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e ansiedade. Ou seja, ela é um trauma em si, não apenas um prenúncio da violência física.

O Dia Internacional da Mulher é celebrado como marco de conquistas sociais e políticas. Ainda assim, os números e as evidências científicas mostram que muitas mulheres não vivem plenamente essas conquistas. A violência de gênero continua a comprometer direitos básicos, incluindo o direito à saúde mental.