Estudos indicam que crianças podem apresentar dificuldades significativas de comunicação mesmo falando corretamente. Especialistas alertam para impactos diretos na aprendizagem, na socialização e no desenvolvimento emocional.
Durante muito tempo, o desenvolvimento da comunicação infantil foi avaliado quase que exclusivamente pela presença ou ausência da fala. Se a criança falava, ainda que pouco, a percepção geral era de que o desenvolvimento seguia dentro da normalidade. No entanto, pesquisas recentes mostram que a fala, isoladamente, não é um indicador suficiente de desenvolvimento comunicativo saudável.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, uma parcela relevante das crianças que chegam aos consultórios não apresenta ausência de fala, mas dificuldades no uso funcional da linguagem, como compreender instruções, organizar ideias, sustentar diálogos e expressar necessidades de forma clara. Esses quadros costumam ser identificados tardiamente, pois não se encaixam no que pais e educadores reconhecem como “problema de linguagem”.
Dados do INEP revelam que mais de 50% das crianças brasileiras não atingem níveis adequados de compreensão leitora até o 3º ano do ensino fundamental. Embora o dado seja frequentemente associado a falhas no processo de alfabetização, especialistas apontam que a raiz do problema, em muitos casos, está no desenvolvimento da linguagem oral ainda na primeira infância.
A fonoaudióloga Adriana Fiore, especialista em comunicação e desenvolvimento infantil, explica que a linguagem envolve múltiplas habilidades além da fala. “A criança pode falar frases completas e, ainda assim, ter dificuldade para compreender o que escuta, organizar o pensamento ou explicar o que aconteceu. Quando essas habilidades não estão bem estruturadas, a aprendizagem e a socialização ficam comprometidas”, afirma.
Estudos publicados no Journal of Speech, Language, and Hearing Research indicam que crianças com dificuldades de compreensão oral têm até quatro vezes mais risco de apresentar baixo desempenho escolar, independentemente do nível de articulação da fala. Além disso, dificuldades comunicativas estão associadas a maior incidência de frustração, retraimento social e problemas de adaptação no ambiente escolar.
Outro aspecto frequentemente negligenciado é a narrativa. A capacidade de contar uma história, relatar uma experiência ou explicar uma sequência de fatos é considerada um dos principais preditores de sucesso acadêmico. Segundo pesquisa da Universidade de Harvard, crianças com dificuldades narrativas apresentam maior risco de dificuldades na escrita, na interpretação de textos e na resolução de problemas matemáticos, áreas que exigem organização verbal do pensamento.
Na prática clínica, Adriana observa que muitas dessas crianças são inicialmente rotuladas como desatentas, imaturas ou com dificuldades comportamentais. “Quando a criança não consegue se expressar adequadamente, o comportamento passa a ser a principal forma de comunicação. Se o adulto não identifica essa relação, trata-se apenas o sintoma, não a causa”, explica.
Para a especialista, a fonoaudiologia tem papel fundamental na identificação precoce dessas dificuldades. “Avaliar comunicação é avaliar compreensão, expressão, narrativa e uso funcional da linguagem. Quanto mais cedo esse olhar é ampliado, maiores são as chances de prevenir dificuldades escolares e emocionais no futuro”, conclui.
Sobre Adriana Fiore
Adriana Fiore é fonoaudióloga e mestre em Distúrbios da Comunicação pela PUC-SP, com mais de 20 anos de experiência clínica no atendimento a crianças. É fundadora da AplusKids, clínica referência em São Paulo no cuidado multidisciplinar do desenvolvimento infantil. Sua atuação é voltada à comunicação, linguagem e aprendizagem, com foco na prevenção e reabilitação de dificuldades que impactam o desenvolvimento global da criança. Ao longo da carreira, acompanhou centenas de famílias em processos de estimulação e intervenção, sempre com uma abordagem humanizada, individualizada e baseada em evidências científicas.


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