*Por Saymon Santana
Ao longo da minha atuação como cirurgião vascular, tanto na rede pública quanto na saúde suplementar, tenho observado um padrão que se repete em diferentes regiões do país: doenças vasculares avançam de forma silenciosa, enquanto o sistema ainda reage tardiamente. Lipedema, linfedema e doença arterial periférica (DAP) ilustram bem esse cenário. São condições com impacto direto na qualidade de vida, alto potencial de incapacidade e custos crescentes para o sistema de saúde, mas que seguem subdiagnosticadas.
No caso da doença arterial periférica, os números ajudam a dimensionar o problema. Estimativas da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular indicam que entre 10% e 20% dos brasileiros acima de 60 anos convivem com algum grau da doença. Ainda assim, menos de 15% dos casos são diagnosticados ou tratados adequadamente, segundo dados do Ministério da Saúde. Trata-se de uma falha estrutural que começa na atenção primária e se agrava à medida que o paciente só chega ao especialista quando já apresenta dor limitante, úlceras ou risco de amputação.
A lógica é semelhante quando observamos lipedema e linfedema. Apesar de distintas em origem e tratamento, essas condições seguem frequentemente confundidas. O lipedema, que afeta majoritariamente mulheres e tem forte associação genética e hormonal, costuma ser tratado como obesidade ou retenção de líquidos. O linfedema, por sua vez, resulta de falhas no sistema linfático e pode evoluir para quadros graves de fibrose e perda funcional. A ausência de dados epidemiológicos consolidados no Brasil contribui para que essas doenças permaneçam fora do radar das políticas públicas e do planejamento assistencial.
Do ponto de vista clínico, o diagnóstico precoce é viável. Exames simples, como o índice tornozelo-braquial e o Doppler vascular, permitem identificar alterações circulatórias antes que o quadro se torne irreversível. No entanto, a existência desses recursos não garante sua aplicação sistemática. O que observo é uma lacuna entre conhecimento técnico disponível e organização dos fluxos de atendimento.
Essa lacuna não é apenas médica; é também de gestão. Instituições que integram protocolos clínicos claros, capacitação contínua das equipes e uso racional de tecnologia conseguem reduzir complicações, internações prolongadas e procedimentos de alto custo. Estudos internacionais mostram que serviços de saúde com médicos atuando em posições de liderança clínica apresentam melhores indicadores assistenciais e operacionais. A integração entre quem cuida do paciente e quem organiza o sistema faz diferença nos desfechos.
Ao analisar esse cenário de forma mais ampla, fica evidente que o enfrentamento das doenças vasculares exige mais do que campanhas pontuais de conscientização. É necessário estruturar estratégias de rastreamento, fortalecer a atenção básica e alinhar assistência e gestão. A prevenção de amputações, a redução de incapacidade funcional e a melhoria da qualidade de vida passam, inevitavelmente, por decisões organizacionais.
A medicina vascular lida diariamente com consequências visíveis de falhas invisíveis do sistema. Quando o diagnóstico chega tarde, o custo não é apenas financeiro; é humano. Avançar nesse debate exige dados, protocolos e gestão orientada por evidências. Esse é o ponto em que a prática clínica deixa de ser um ato isolado e passa a integrar uma estratégia de saúde mais eficiente e sustentável.
Sobre Saymon Santana
Dr. Saymon Santana possui graduação em Medicina pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (2012). É cirurgião geral formado pelo Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão (HU-UFMA) e cirurgião vascular pelo Sistema Único de Saúde (SUS São Paulo), com residência no Hospital Regional de Presidente Prudente. Tem formação complementar em Doppler vascular pela FETESDA. Atuou como médico cooperado da Unimed Imperatriz.
Atualmente, integra a equipe de Cirurgia Geral e Cirurgia Vascular do Hospital Municipal de Imperatriz (HMI) e atua como cirurgião vascular assistente nas unidades da Clínica de Nefrologia de Açailândia, Marabá e São Francisco em Ulianópolis. É sócio-proprietário e diretor técnico da Clínica Vasculare. Também já ministrou aulas na Universidade Ceuma, em São Luís, onde acompanhou estudantes em atividades práticas hospitalares.
Para mais informações, acesse https://www.instagram.com/vasculareitz/


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