Tema tem alcançado grande repercussão na mídia e nas redes sociais, mas a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) recomenda prudência e busca de informações confiáveis sobre o assunto

O relato sensível da influenciadora digital Bruna Furlan de Nóbrega, de 24 anos, a respeito de seu diagnóstico de câncer de mama, tem alcançado grande repercussão na mídia e em redes sociais. Embora a neta do apresentador Carlos Alberto de Nóbrega afirme ter encontrado poucas referências sobre a incidência da doença em mulheres jovens, a possibilidade de desenvolvimento da neoplasia maligna vem preocupando a população com menos de 40 anos. “O caso, de fato, chama a atenção, mas o momento pede prudência e busca de informações confiáveis sobre o assunto”, afirma o mastologista Fernando Vecchi, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM).

Com a participação da SBM, um estudo publicado no JCO Global Oncology, jornal da conceituada Sociedade Americana de Oncologia Clínica, lança luz sobre o câncer de mama em mulheres com menos de 40 anos de idade no País. Com a participação de 29 pesquisadores brasileiros, a investigação “Estágio avançado ao diagnóstico e piores características clinicopatológicas em mulheres jovens com câncer de mama no Brasil: Uma subanálise do estudo AMAZONA III (GBECAM 0115)” contribui para delinear um panorama sobre a doença entre jovens, com a perspectiva de estimular ações e políticas públicas de prevenção, rastreamento e tratamento de forma mais eficiente.

“O câncer de mama em mulheres jovens é considerado uma situação relativamente rara, representando de 5% a 7% dos casos em países desenvolvidos”, destaca Fernando Vecchi. Com base no registro prospectivo AMAZONA III, realizado em 22 centros dos sistemas público e privado em todas as regiões do País entre 2016 e 2018, o estudo brasileiro constatou que 17% das pacientes com diagnóstico recente de câncer de mama em um grupo de 2.950 mulheres têm menos de 40 anos.

Segundo o especialista, o caso da influenciadora digital Bruna de Nóbrega, embora comovente, não reflete a realidade sobre câncer de mama entre mulheres mais jovens. “O estudo vem para comprovar, com base em dados, que a população jovem brasileira é acometida pela doença em um percentual muito inferior ao de mulheres acima de 40 anos”, explica. De fato, ressalta Vecchi, todas as mulheres, independentemente da idade, devem estar atentas a alterações nas mamas, buscando orientação médica especializada. “Mas é preciso cautela e prudência para quem não haja um movimento desordenado de jovens aos consultórios de mastologia”, enfatiza.

De acordo com o registro AMAZONA III, o câncer de mama foi detectado por meio de rastreamento em apenas 26% das pacientes mais jovens, em comparação com 35,5% das mais velhas. “Esse achado não é inesperado, uma vez que o Ministério da Saúde passou a recomendar no ano passado a realização ‘sob demanda’ da mamografia a partir dos 40 anos de idade no SUS (Sistema Único de Saúde). Esta indicação, aliás, aliou-se aos esforços das principais associações médicas brasileiras, incluindo a SBM, na definição de diretrizes para o enfrentamento efetivo do câncer de mama no Brasil”, diz.

Na comparação com pacientes com mais de 40 anos, a pesquisa revelou que as mais jovens (41,4%) receberam o diagnóstico inicial de câncer de mama em estadios III e IV, os mais avançados da doença. Os casos de metástase na população com menos de 40 anos alcançaram 4,5%. “O estudo indicou também que as mais jovens foram submetidas com mais frequência à mastectomia (54,7%) do que as mais velhas (45,7%).”

Na avaliação do mastologista, outro aspecto que merece ser destacado na pesquisa é o fato de pacientes mais jovens apresentarem pior prognóstico e maior risco de recorrência em comparação com mulheres acima de 40 anos.

Sobre as causas de prevalência de câncer de mama entre mulheres jovens no Brasil, Vecchi reforça que são necessárias investigações adicionais para resultados mais conclusivos.

“De toda forma, é importante que os principais centros de referência em oncologia no País implantem unidades específicas para o cuidado de mulheres jovens, abordando as necessidades particulares dessa população, como por exemplo preservação da fertilidade, avaliação genética e apoio à cirurgia reconstrutiva”, afirma. “Este é um desafio emergente que demanda atenção e investimentos em políticas de saúde”, conclui o representante da SBM.